Birding nos tepuis venezuelanos
Posted on: August 19, 2012, by : Ze Edu Camargo
Região dos tepuis. Foto de Thiago Laranjeiras.

Você já viu o filme Up, Altas Aventuras? Leu o livro O Mundo Perdido, romance de Arthur Conan Doyle? Já ouviu falar do Monte Roraima? Então você deve ter uma ideia do que sãos os tepuis. Essas formações rochosas, em forma de gigantescas mesas, são encontradas no norte do Brasil, na região da fronteira com a Venezuela e Guiana. As florestas e outras formações altas do lado venezuelano foram o destino de Marcelo Camacho e Thiago Laranjeiras em uma expedição recente, na qual foram feitos vários registros raros. Atendendo a um pedido meu, Marcelo escreveu um relato, que está aí embaixo.

Passarinhando nos tepuis  

por Marcelo Camacho

A convite do guia de birding Thiago Laranjeiras fui conhecer as aves dos tepuis, na estrada conhecida como La Escalera, na Venezuela. Trata-se de um trecho de uma rodovia que cruza o Parque Nacional Canaima. Chegamos à comunidade conhecida como Rápidos de Kamoiran, a 200 km da fronteira com Roraima, onde nos hospedamos, numa tarde no fim de julho.

Desde o princípio, martelava em minha cabeça a imagem do L. streptophorus (cricrió-de-cinta-vermelha), que o Thiago havia fotografado em sua viagem anterior. Após percorrermos os primeiros 30 km, paramos pela primeira vez – e avistamos uma ave na copa de uma árvore. De dentro do carro fiz a foto. Era ele! Primeira ave avistada e lá estava o bicho. Mas ele logo voou e deixou aquela sensação de situação mal resolvida. Eu queria vê-lo mais próximo. Foi só então que comecei a pensar em outras espécies, mas sempre com aquele incômodo de não saber se o veria novamente.

No dia seguinte, saímos às seis da manhã para 13 horas muito produtivas de observação. Avistamos quatro bandos mistos, com espécies como T. guttata (saíra-pintada), T. xanthogastra (saíra-de-barriga-amarela), T. gyrola (saíra-de-cabeça-castanha), T. chilensis (sete-cores-da-amazônia), M. oleagineus (pipira-olivácea) e T. argentea (saíra-de-cabeça-preta).

Durante boa parte de nossas andanças era frequente o canto do S. macconnelli (joão-escuro), mas registrá-lo se mostrava impraticável. Após dois dias de tentativa eu já estava convencido de que seria impossível fotografá-lo com o tempo que tínhamos. Num lance de pura sorte, eis que ele nos dá dois segundos de chance e eu consigo um registro meio de susto. Mais tarde descobri que são raríssimos os registros fotográficos dessa espécie. Não é pra menos.

Antes disso, ainda no primeiro dia, já com pouca luz, consegui um registro do S. phelpsi (taperuçu-dos-tepuis), que passava sobre nossas cabeças em alta velocidade. Nesse mesmo dia conseguimos outros registros como o do R. adusta (joão-de-roraima), H. roraimae (chorozinho-de-roraima) e T. personatus (surucuá-mascarado). O dia seguinte foi igualmente proveitoso. Encontramos alguns bandos mistos e outras aves isoladas. Destaco: P. nigrifrons (maria-de-testa-preta), C. demissa (joão-do-tepui), V. kirkii (pica-pau-de-sobre-vermelho), C. rubiginosus (pica-pau-oliváceo), H. sclateri (vite-vite-do-tepui), X. uniformis (dançarino-oliváceo), A. personatus (tico-tico-do-tepui), P. cornuta (dançador-de-crista) e B. bivittatus (pula-pula-de-duas-fitas).

Final de tarde na rodovia, terceiro dia de longas jornadas diárias, estávamos eu e Thiago apoiados no carro no acostamento. Nesse trecho a rodovia corta a floresta alta e já havia sombra em ambos os lados da estrada nas árvores da mata. Sem muita esperança o Thiago tocou o playback do cricrió-de-cinta-vermelha. No alto passaram dois pássaros. Mais uma vez o playback e eles desceram. Depois de algumas fotos a uns 10 metros, o macho pousa no único ponto da vegetação com sol em um tronco pendido baixo sobre o acostamento. A viagem estava mais do que ganha.

No quarto dia passarinhamos pela manhã e às 10h já estávamos a caminho do Brasil. Almoçamos em Santa Helena de Uairén e no meio da tarde chegamos a Boa Vista.

O contato do guia Thiago Laranjeiras, para quem quiser se aventurar nos tepuis, é thorsi.falco@gmail.com.

Cricrió-de-cinta-vermelha. Foto de Marcelo Camacho.

 

 

 

13 thoughts on “Birding nos tepuis venezuelanos

  1. Amei o relato, adorei as fotos, lindíssimas! Parabéns Marcelo! Fiquei louca para fazer essa viagem , que parece ter paisagens maravilhosas e pássaros raros. Thiago já conhecemos bem das passarinhada por Roraima, e com certeza é um guia nota 10, pra ninguém botar defeito. Me aguarde Thiago, que em breve te chamaremos para nos guiar nos Tepuis!

  2. Quero parabenizar a vocês pelas fotos e pelo relato emocionado desta expedição. Amo os pássaros e participar um pouco desta aventura de vocês foi muito bonito.

  3. Experiência fascinante mostrando toda a grandiosidade da biodiversidade amazônica. Parabéns pelas lindas fotos e raros registros!

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