Aves – Page 2 – Brasil das Aves
Aves

Aves alienígenas do Ibirapuera

Cardeal-do-nordeste – Foto Marco Silva

Depois do monumental A Capital da Solidão, o escritor Roberto Pompeu de Toledo lança agora outro título imperdível para quem vive em (viveu em, ou gosta de) São Paulo : A Capital da Vertigem. Como o próprio subtítulo diz, a obra trata da história da cidade de 1900 a 1954. Passa pelo início da industrialização, mostra a influência dos imigrantes, descreve eventos marcantes, como a Semana de Arte de 22 e a Revolução de 1924. E acaba no ano do IV Centenário, quando é inaugurado oficialmente o Parque do Ibirapuera (embora a área já fosse reconhecida há tempos como um parque).

Bom, mas você deve estar se perguntando: o que esse livro tem a ver com um blog de observação de aves? Simples: o livro é uma ótima fonte de informações sobre como se formou um dos melhores pontos para o birdwatching na cidade. Ele mesmo, o (nem tão velho e) bom Ibirapuera. No livro ficamos sabendo, por exemplo, que na área do parque já funcionava há um bom tempo antes da inauguração um viveiro de mudas capitaneado pelo “entomologista de formação, mas botânico por paixão” Manequinho Lopes. Ele é que plantou os primeiros eucaliptos por ali, para ajudar na drenagem da área alagadiça. Alguns destes eucaliptos (espécie de árvore australiana introduzida no Brasil) ainda devem estar por lá. E por eles circulam aves que também não “deveriam” estar ali.
Capa do livro A Capital da Vertigem – reprodução

O Ibirapuera, assim como a maior parte da cidade, é originalmente uma área de Mata Atlântica. No entanto, assim como a cidade recebeu inúmeros imigrantes (de outros países e de outras regiões do país) ao longo do tempo, também o parque abriga espécies alienígenas, que não ocorriam ali originalmente. Algumas delas hoje são atrações para os observadores, como o cardeal-do-nordeste, ou galo-de-campina (Paroaria dominicana). Diz a lenda que ele foi trazido de seu hábitat natural (a caatinga), por um prefeito, encantado por suas cores, iguais à da bandeira paulista. Certas espécies do Ibira vieram de continentes distantes, trazidas em navios, como o onipresente – e europeu por origem – pardal (Passer domesticus) e o africano bico-de-lacre (Estrilda astrild). E também há as que aqui chegaram na esteira do desmatamento, que ampliou sua área de ocorrência original, como a lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta) e o corrupião (Icterus jamacaii). Por fim, algumas espécies provavelmente foram introduzidas sem querer, ao escapar do cativeiro. É o caso do papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), hoje bem fácil de ver nas palmeiras do parque.

Certas aves encontradas no Ibirapuera também são migrantes no sentido biológico da palavra: estão ali só de passagem em determinada época do ano. Ou porque estão se deslocando dentro da própria Mata Atlântica ou porque vão e vêm em viagens bem mais longas, às vezes até entre hemisférios. Sorte dos observadores, que de tempos em tempos podem encontrar verdadeiras joias raras circulando entre skatistas e bikers. Em 2015, por exemplo, o martinho (Chloroceryle aenea) foi avistado na área, assim como o azulinho (Cyanoloxia glaucocaerulea). Os lagos do parque também estão cheios de aves aquáticas, algumas delas exóticas, outras bem brasileiras (e não é impossível que apareçam algumas visitantes do extremo norte na primavera ou no outono). Portanto, se você é paulistano (de nascença ou de adoção, tanto faz), #ficadica: corre pro Ibira.

Lago do Ibirapuera – Foto Zé Edu
Mergulhão-caçador – Foto Zé Edu

As aves do Paraná em livro – e que livro!

Capa do livro  Aves do Paraná - Foto: Marcelo Krause
Capa do livro Aves do Paraná – Foto: Marcelo Krause

Quando se pensa na natureza do estado do Paraná a primeira imagem que vem à mente é de uma araucária. E depois, pelo fio da meada, o friozinho, a neblina… Mas as terras paranaenses têm muito mais a oferecer. Alguns dos trechos mais conservados da Mata Atlântica do país estão no estado, por exemplo, que também tem ótimos pontos com estrutura para os observadores de aves, como na região de Paranaguá e em Foz do Iguaçu. E essa diversidade está muito bem refletida no livro Aves do Paraná, dobradinha entre o fotógrafo de natureza Marcelo Krause e o pesquisador Fernando Straube. O livrão (no sentido físico e também no figurado) já pode ser encontrado no site da editora: www.underwater.com.br

Saíra-sete-cores - Foto: Marcelo Krause
Saíra-sete-cores – Foto: Marcelo Krause
Araçari-banana - Foto: Marcelo Krause
Araçari-banana – Foto: Marcelo Krause
Rendeira, também conhecido como barbudinho - Foto: Marcelo Krause
Rendeira, também conhecida como barbudinho – Foto: Marcelo Krause
Beija-flor-de-veste-preta - Foto: Marcelo Krause
Beija-flor-de-veste-preta – Foto: Marcelo Krause
Falcão-peregrino - Foto: Marcelo Krause
Falcão-peregrino – Foto: Marcelo Krause

Aves do Cristalino: livro mostra espécies da Amazônia brasileira

Capa do livro Aves do Cristalino – Reprodução

“Vibrei muito na hora, pois consegui a foto que queria. Depois agradeci ao piloteiro, e disse a ele que eu havia acabado de realizar um sonho de muitos anos”. A explicação sobre a foto de capa do livro Aves do Cristalino já diz muito sobre o trabalho de Edson Endrigo. O fotógrafo (com vários livros já publicados sobre a avifauna brasileira) é conhecido por ser minucioso e dedicado à sua paixão.

O pavãozinho-do-pará de asas abertas na capa, por exemplo, resume 15 anos de buscas pelas melhores fotos de aves da RPPN Cristalino (onde fica o Cristalino Jungle Lodge), localizada na Floresta Amazônica, no norte do Mato Grosso.

Ao todo, são 270 fotos de bichos amazônicos captados em um dos melhores hotspots para a observação de fauna no mundo. Os textos do livro são assinados pelo pesquisador Bradley Davis. Para comprar o livro, basta ir ao site da editora. Para saber outros destaques da programação do Avistar, visite o site do evento.

Observadores de aves unidos no Global Big Day

Por uma iniciativa do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell (EUA), birders de todo o mundo vão fazer um esforço de um dia para mapear as espécies de aves do planeta. É o Global Big Day! A ideia é ir a campo no próximo sábado (9 de maio) e depois submeter a lista das aves observadas. Para isso todos devem usar o site www.ebird.org.

No Brasil há um grupo ajudando a organizar o evento – o objetivo por aqui é garantir a presença do maior número possível de cidades, em todos os biomas. Você pode conseguir mais informações no grupo do Facebook.

Os resultados desse esforço serão usados para pesquisas em todo o mundo. Como diz o lema do evento, toda ave conta. Vamos lá?

Observador de aves na Serra da Canastra, MG – Foto: Rita Barreto

Dez bons motivos para ir ao Avistar Brasil 2015

Maria-preta-de-penacho – Foto Zé Edu Camargo

Este ano o Avistar – mais importante evento de observação de aves no país – mostra uma novidade muito bacana, logo de cara: o lugar onde vai ocorrer. De 15 a 17 de maio (de sexta a domingo), observadores do país todo vão se reunir no Instituto Butantan, em São Paulo. Serão três dias de um concorrido congresso (com palestras de especialistas brasileiros e do exterior), uma feira com destinos de birding, hotéis, editoras de livros, produtores de equipamentos e outros expositores ligados à atividade. E muitas atividades paralelas para todas as idades. O Butantan, que por si só já é uma excelente opção de lazer nos fins de semana, vai estar ainda mais atrativo. Para facilitar a sua vida, elegemos dez grandes atrações dessa edição. Mas vale muito a pena dar um pulo no site do evento e ver a programação completa.

Um dinossauro em seu jardim 
Pirula – Paleontólogo e  autor de videos de divulgação científica
Vai explicar porque observamos dinossauros ao invés de aves
Diários de Campo
Santos D’Angelo – botânico e ornitólogo 
Apresenta sua técnica de registro de aves, baseada em desenhos feitos em cadernetas campo
Um Novo Olhar Sobre As Cidades
Fernando Fernandez   – especialista em Biologia da Conservação
Fala da  importância da observação da fauna urbana
Internet e Observação, a Ciência que Podemos Produzir 
Atila Iamarino – Canal Nerdologia do Youtube
Aproxima a ciencia cidadã e a internet
Arte Naturalista no Brasil
Dante Teixeira – ornitólogo e especialista em arte naturalista do Brasil Holandês 
Palestra sobre Arte Naturalista seguida de visita guiada ao Acervo Brasiliana no Itaú Cultural
Vida de Guia
Ciro Albano – ornitólogo e guia de observação de aves
Conta histórias de 10 anos como guia de observação, suas experiências e conquistas
Aves do Cristalino
Edson Endrigo – fotógrafo e guia de observação de aves
Lançamento do livro Aves do Cristalino, sobre a avifauna do Parque Estadual do Cristalino (MT).
História Natural de Aves
Ivan Sazima  – Zoólogo e naturalista de répteis, aves, mamíferos e interações com plantas
Fala de um ponto de vista científico, em linguagem simples, sobre como as aves vivem
Um olho no Céu, outro na terra
Giuseppe Puorto – Herpetólogo
Vai ensinar aos observadores de aves como evitar acidentes com serpentes, e o que fazer caso ocorram.
Lobo-guará e Inhambu-carapé, duas espécies ameaçadas
Marcos Amend – fotógrafo e conservacionista
O fotógrafo explica como conseguiu a imagem de uma espécie muito rara em uma situação mais rara ainda
E, de bônus:
Exposição Luis Claudio Marigo 
Obras do grande mestre da fotografia de natureza, que nos deixou em 2014.
Também haverá apresentações artísticas, como shows do Coralusp e da cantora Renata Pizi (uma apresentação só com músicas que falam de aves), além de atividades de observação na própria área verde do Butantan. Um programa imperdível para toda a família.

Todas as aves de Passaredo, de Chico Buarque

Você já ouviu essa música – e nem precisa ser apaixonado por aves. Desde que foi lançada por Chico, no disco Meus Caros Amigos, em 1976, Passaredo toca constantemente na rádio, além de servir de trilha sonora sempre que as aves brasileiras são tema de reportagens na televisão (além de fazer parte de algumas gerações da série O Sítio do Pica-Pau Amarelo). Parceria de Chico Buarque com Francis Hime, ela surgiu como um hino de resistência à ditadura. O refrão “bico calado, toma cuidado, que o homem vem aí” tinha um duplo sentido claro. Vamos à letra:

Ei, pintassilgo
Oi, pintarroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tiê-sangue
Xô, tiê-fogo
Xô, rouxinol, sem-fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te esconde colibri
Voa, macuco
Voa, viúva
Utiariti
Bico calado
Toma cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí

Ei, quero-quero
Oi, tico-tico
Anum, pardal, chapim
Xô, cotovia
Xô, ave-fria
Xô, pescador-martim
Some, rolinha
Anda, andorinha
Te esconde, bem-te-vi
Voa, bicudo
Voa, sanhaço
Vai, juriti
Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí

No vídeo que acompanha este post, o próprio Chico explica rapidamente como fez a letra. Ele sugere uma despreocupação com a escolha das aves, apesar de ter contado com a ajuda de Tom Jobim (um apaixonado pela nossa avifauna) e de ornitólogos. Mas a escolha não parece ser tão aleatória assim. A maioria das espécies listadas na letra é canora, e só há um gavião (e de origem um pouco polêmica, o utiariti). Não é preciso ser um gênio para ver a óbvia correlação com a situação da época: cantor, toma cuidado, que a repressão (o homem) vem aí.

Curioso é, com o passar do tempo, que a outra dimensão da letra continue tão e cada vez mais atual. Embora a caça tenha diminuído (graças a leis e à melhora na educação ambiental), o homem continua vindo aí para desmatar, para poluir, para ocupar. Nestes quase quarenta anos, algumas espécies foram vistas pela última vez em liberdade, muito provavelmente para nunca mais.

Bom, mas vamos ao que interessa. Aí embaixo você encontra uma pequena descrição da origem de cada ave da letra. Este não é um trabalho científico, mas sim um esforço de curioso. Imprecisões, portanto, são mais que prováveis. E correções, dicas e opiniões, muito bem-vindas. Até porque os nomes comuns, ou populares, são coisa mais fluida e escorregadia para pesquisadores do que cocô de passarinho. Porque mudam daqui para ali, de um tempo para outro. De todo modo, foi uma brincadeira interessante.

Para os observadores, vale a ideia de tentar montar uma life list das aves encontradas na letra. Algumas estão em qualquer quintal, como o bem-te-vi e o sanhaço. Outras exigem muito mais experiência e esforço, como o macuco e o tuju. Sem contar as europeias (que não são poucas na letra).

Por fim, gostaria de agradecer às pessoas que trabalharam em conjunto (ou ajudaram com informações) para que a brincadeira fosse completa: Luccas Longo, Guto Carvalho, Victor Jardim, Fábio Paschoal, Fernando Straube, José Fernando Pacheco e Luis Fabio Silveira. Queria também agradecer ao incrível site wikiaves.com.br (valeu, Reinaldo Guedes!). Vamos às aves de Passaredo:

Pintassilgo (Sporagra magellanica): Ave comum em quintais e matas secundárias no sul e sudeste do Brasil.Tem o corpo amarelo e a cabeça preta. Não confundir com o pintassilgo-europeu (Carduelis carduelis), espécie introduzida nas Américas.

Pintarroxo: Nome comum em português de várias aves da família Fringillidae, nenhuma delas com ocorrência no Brasil. É possível que, por associação, em algumas regiões brasileiras seja usado esse nome para designar uma ave local.

Melro: Designação em português para uma ave do velho continente, Turdus merula, do mesmo gênero dos nossos sabiás (toda preta, lembra muito o sabiá-una da Mata Atlântica). No Brasil também é nome popular de diversas espécies, de modo especial a graúna (Gnorimopsar chopi).

Uirapuru: Nome comum de diversas aves por todo o Brasil, muitas delas entre as mais bonitas da nossa avifauna, como o uirapuru-laranja. No entanto, o uirapuru-verdadeiro (Cyphorhinus arada) parece ter inspirado a maioria das lendas em torno desse nome. Ave amazônica, tem um canto belo e característico.

Chega-e-vira: Um dos muitos nomes comuns da marreca irerê (Dendrocygna viduata), comum inclusive nos lagos urbanos de muitas cidades brasileiras. Ocorre também em outros países americanos e na África ocidental.

Engole-vento: Nome não muito comum para designar diversas espécies de bacuraus, ou curiangos. São aves noturnas por excelência, encontradas em todo o Brasil. O termo “engole-vento” pode derivar do hábito de apanhar insetos em voo, com a boca aberta.

Saíra: Indica diversas aves da família Thraupidae, algumas muito ameaçadas, como a rara e bela saíra-apunhalada (Nemosia rourei), hoje restrita a uma pequena área do Espírito Santo.

Inhambu: Nome comum de várias aves da família Tinamidae, a maioria encontrada em ambientes florestais. Duas delas deram origem ao nome da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó: o inhambu-chintã (Crypturellus tataupa) e o inhambu-chororó (Crypturellus parvirostris).

Asa-branca: A canção Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, faz referência a uma pomba, ou pombão (Patagioenas picazuro), muito comum em diversas partes do Brasil. Mas asa-branca também é o nome comum de uma marreca (Dendrocygna autumnalis) encontrada em todo o território nacional.

PatativaSporophila plumbea, espécie da família Thraupidae de vasta distribuição no Brasil e América do Sul. Conhecida pelo canto melodioso, é capaz de imitar outras aves. Uma de suas subespécies não ocorre no país (é restrita ao norte da Colômbia).

Tordo: Uma designação comum para aves do gênero Turdus, a mesma dos sabiás. O tordo-comum é uma ave europeia. No entanto, diversas espécies desse gênero ocorrem no Brasil, como o sabiá-laranjeira.

TujuLurocalis semitorquatus, ave noturna da mesma família dos bacuraus, a Caprimulgidae. Ocorre do México até a Argentina.

Tuim: Menor representante da família Psittacidae (dos periquitos e papagaios) no país, o tuim (Forpus xanthopterygius) é muito comum em boa parte do Brasil. Existem cinco subespécies conhecidas.

Tiê-sangue: Espécie endêmica do Brasil, Ramphocelus bresilius, chega a ser comum em trechos da Mata Atlântica litorâneaO macho tem uma coloração vermelha intensa, que dá nome à espécie. A plumagem da fêmea é mais discreta.

Tiê-fogo: Outro nome comum do tiê-sangue.

Rouxinol: Ave do Velho Mundo de canto melodioso, por associação emprestou o nome a uma espécie amazônica, o rouxinol-do-rio-negro (Icterus chrysocephalus). Em algumas regiões do Nordeste a corruíra (Troglodytes musculus) também é chamada de rouxinol.

Sem-fim: Um dos muitos nomes populares do saci (Tapera naevia), também conhecida como matita-perê, matinta-pereira e outros inúmeros nomes. Deu nome a um dos mais belos discos de Tom Jobim (e é citada na letra de Águas de Março, além de dar nome a uma das músicas do álbum).

ColeiroSporophila caerulescens, coleiro ou coleirinho (nome comum mais conhecido), é um dos papa-capins mais abundantes do Brasil, principalmente no Sul e Sudeste. Recebe esse nome pela “coleira” branca na garganta.

Trigueiro: Provavelmente refere-se ao Trigueirão (Emberiza calandra), espécie com distribuição na Europa, norte da África e Europa.

Colibri: Sinônimo de beija-flor, nome de diversas espécies da família Trochilidae. São aves encontradas apenas no continente americano.

MacucoTinamus solitarius, espécie florestal que povoa a Mata Atlântica. Espécie sempre visada por caçadores, também corre riscos em função do desmatamento.

Viúva: Provavelmente faz referência à viuvinha (Colonia colonus), um tiranídeo comum de áreas abertas em boa parte do Brasil. É inconfundível, pelas penas longas da cauda e pela mancha branca no alto da cabeça. Mas também pode indicar a saíra-viúva (Pipraeidea melanonota).

Utiariti: Além de nome de lugar (perto de Juruena, MT), utiariti também se refere aos sacerdotes (médicos) da tribo indígena Pareci. É uma elevada atribuição na hierarquia dessa etnia. Quanto à ave, encontra-se uma preciosa menção na obra de Roquette Pinto denominada “Rondônia”, publicada no volume 20 dos Archivos do Museu Nacional (a citação está na página 198): “A denominação que estes indios dão aos seus medicos-sacerdotes, por extensão, serve também para baptizar um pequeno gavião (Falco sparverius), que é totem da tribu. Na expedição de 1909, chegando ao rio, viram os exploradores sobre uma arvore, ao lado do salto, um pequeno representante da espécie. Para a collecção destinada ao Museu Nacional, foi alvejada a avesinha; mas antes que o tiro partisse o indio Tôlôírí Mathias, influente chefe, e guia da columna pediu fosse poupado o utiarití, protestando que, si o matassem, não poderiam ser felizes, nunca mais, porque delle provinham os Parecís. A avesinha não morreu. Rondon, em homenagem a crença dos seus auxiliares, deu aquelle nome ao salto do rio Papagaio. E foi feliz…”. O uitariti, portanto, é o quiriquiri, um rapinante de pequeno porte comum em boa parte do Brasil (colaboração de Fernando Straube).

Quero-quero: Chico Buarque é um conhecido apaixonado pelo futebol. E já deve ter fugido de muito quero-quero (Vanellus chilensis) nos campos do Brasil onde bate suas peladas: a ave gosta de fazer o ninho em gramados ou áreas abertas de vegetação baixa.

Tico-tico: Comum em todo o Brasil, só não é encontrado em áreas densamente florestadas da Amazônia. O tico-tico (Zonotrichia capensis) também pode se visto em países da América Latina – há mais de duas dezenas de subespécies. Espécie muito comum mesmo em ambientes urbanos.

Anum: O anu-preto (Crotophaga ani) ou anum é uma ave que pode ser vista com facilidade em áreas abertas, plantações e brejos, da Flórida à Argentina. Muitas vezes reúne-se em bandos numerosos.

PardalPasser domesticus, ave introduzida no Brasil, ocupa hoje quase todo o território nacional. Também espalhou-se por todo o mundo, graças ao grande poder de adaptação. É muito comum em ambientes urbanos.

Chapim: O nome refere-se diretamente a duas aves da família Paridae comuns na Europa, o chapim-azul e o chapim-real. No Brasil, o canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) também é conhecido como canário-chapim ou canário-chapinha – possivelmente é a ele que Chico se refere na letra.

Cotovia: Nome que indica aves do Velho Mundo, da família Alaudidae (com apenas um representante na América do Norte). A cotovia-comum (Alauda arvensis), a mais conhecida delas, é considerada espécie nacional da Dinamarca.

Ave-friaVanellus vanellus, espécie da família Charadriidae (a mesma família do nosso quero-quero), também conhecida como abibe-comum. É típica do Hemisfério Norte.

Pescador-martim: Martim-pescador, nome que indica cinco espécies da família Alcedinidae no Brasil. Encontradas sempre à beira-d’água, alimentam-se de peixes, crustáceos e insetos. O nome deriva da estratégia de caça dessas aves.

Rolinha: Nome usado para designar diversas espécies da família Columbidae (a mesma das pombas e juritis), geralmente as de menor porte. Talvez a mais conhecida seja a rolinha-roxa, ou caldo-de-feijão (Columbina tapalcoti), encontrada em ambientes urbanos de todo o Brasil.

Andorinha: Também é um nome genérico associado á família Hirundinidae, com mais de uma dezenas de espécies que ocorrem no Brasil, como a andorinha-pequena-de-casa (Pygochelidon cyanoleuca) e a andorinha-serradora (Stelgidopteryx ruficollis).

Bem-te-viPitangus sulphuratus. O bem-te-vi é inconfundível pelo canto, do qual deriva seu nome (em outros países também tem o nome onomatopeico associado ao canto, como kiskadee, em inglês). Ave onipresente nas cidades de todo o país.

Bicudo: Ameaçado, o bicudo (Sporophila maximiliani) foi caçado à exaustão para servir de ave de gaiola, graças ao seu canto melodioso. O desmatamento do cerrado e os agrotóxicos também são ameaças á sobrevivência da espécie.

Sanhaço: O nome sanhaçu (ou sanhaço) é usado para designar diversas espécies das famílias Thraupidae e Cardinalidae. Um dos mais conhecidos é o sanhaçu-cinzento, comum no Sul, Sudeste e Nordeste.

Juriti: Nome associado a quatro espécies de médio porte da família Columbidae (a mesma das rolinhas). As mais comuns são a juriti-pupu (Leptotila verreauxi) e a juriti-gemedeira (Leptotila rufaxilla).

 

O mercado de publicações especializadas

Livro do fotógrafo Anselmo d'Affonseca traz 137 espécies
Livro do fotógrafo Anselmo d’Affonseca traz 137 espécies

Por um bom tempo era difícil encontrar, nas livrarias, obras especializadas em avifauna. Os livros editados eram poucos – e muitos tinham um pé na ornitologia. Boas obras vinham de fora, outras saíam em número limitado, bancadas por um patrocinador. Este cenário mudou muito. Hoje, além de excelentes guias de campo (como os do Tomas Sigrist, que também publica livros de arte), há diversas opções de livros de fotografia, de muitos bons autores. O melhor: de autores em vários estados, mostrando a força de nossa biodiversidade. Um dos livros mais recentes traz as imagens capturadas por Anselmo d’Affonseca (um colaborador assíduo do blog e autor também das imagens do aplicativo de iPhone Aves da Amazônia), com textos dos pesquisadores  Ingrid Torres de Macedo e Mario Cohn-Haft. A obra, intitulada Aves da Região de Manaus, conta com 137 espécies que podem ser encontradas nos parques e locais turísticos da capital do Amazonas. Para adquiri-la pode-se entrar em contato com a Editora INPA através dos e-mails: editora@inpa.gov.br ou editora.vendas@gmail.com.

Outro lançamento, este já tradicional, é o Calendário Aves Brasileiras. A versão 2013 já está disponível. É um ótimo presente de fim de ano. As fotos são todas do grande Edson Endrigo, e trazem um mosaico de cores e formas da avifauna por todo o Brasil. A publicação da Aves & Fotos pode ser encomendada pelo site da editora. O preço é de R$ 20.

Portfólio Jarbas Mattos

O Wikiaves não é só um banco de dados virtual, nem só uma baita ferramenta de pesquisa. É também uma comunidade viva, onde dá para trocar experiências, aprender e se divertir. Logo vou voltar a ele em outro post. Mas a introdução é para dizer que no Wikiaves eu aprendi a admirar o trabalho de muita gente. Um dos fotógrafos que sempre me chamou a atenção é Jarbas Mattos, um paulista boa gente. Um cara que vive viajando, sempre atrás de lifers e descobertas, mas também uma pessoa muito atenta ao comportamento das aves. Suas fotos sempre têm uma ação, um componente diferente, algo que as destacam e as tiram do lugar-comum. Aqui está uma pequena apresentação própria que ele fez a meu pedido, e um pequeno portfólio de suas fotos (os comentários sobre as fotos nas legendas são dele). Pedi também ao fotógrafo que desse dicas a que está começando. Com vocês, Jarbas Mattos:

“Apesar de ser biólogo por formação, eu só descobri as aves pouco depois de descobrir a fotografia; eu trabalhava junto ao SEBRAE na área de treinamentos e viajava muito a trabalho, e normalmente os cursos ocorriam em um período, noite ou dia, e eu ficava o outro período sem nada para fazer. Foi aí que a fotografia entrou. E, claro, como biólogo, a fotografia de natureza foi a opção lógica. No começo fotograva de tudo, porém sempre via as aves e amava suas cores, aprendendo aos poucos a conhecê-las melhor, por isso a fotografia e a fotografia de aves vieram juntas. 

Na verdade eu não tenho um estilo de birding preferido, mas prefiro fotografar quando estou em grupos bem pequenos, 3 ou 4 no máximo. Quanto ao tipo de terreno, gosto de todos, mas curto muito o cerrado devido à boa luz, às cores de fundo sempre diferenciadas e à possibilidade de se fazer fotos mais limpas.

Birding para mim é algo extremamente natural, que faz parte minha rotina, afinal saio todos os dias para observar e fotografar. Inclusive, hoje, batalho para tentar editar meu primeiro livro – estou procurando por patrocínio no momento.

Algumas boas dicas para se fotografar aves são: aprender com quem sabe mais, estude MUITO as informações EXIF das fotos dos fotógrafos mais experientes e tente fazer igual, conheça sua máquina para poder usufruir dos recursos que ela oferece, nunca abuse do playback ou use esse recurso perto de ninhos (muitas espécies podem abandonar o ninho se sentirem ameaçadas e nenhuma foto vale isso). Na fotografia de aves silêncio é essencial por isso ande devagar e não faça movimentos bruscos na mata, as aves além do som se assustam facilmente com movimento, por isso seja discreto, use roupas camufladas ou discretas, tenha cuidado onde pisa e onde apóia a mão (encontros com animais peçonhentos são comuns). Mas, acima de tudo, divirta-se!”

Jarbas Mattos: “Eu sempre quis fazer uma boa foto gaturamo-bandeira (Chlorophonia cyanea) e Itatiaia foi o lugar perfeito!”

 

Jarbas Mattos: “Muito bacana poder ver esse papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), ave ameaçada de extinção por perda de hábitat, voando pelos campos da Canastra!”

 

Jarbas Mattos: “Os sporophilas, como esse patativa macho (Sporophila plumbea), são um fraco meu, adoro essas avezinhas, e um lugar bacana de encontrá-las é a Serra da Canastra, em Minas Gerais”

 

Jarbas Mattos: “Quem disse que beija-flores não gostam de água? Esse aí (beija-flor-preto, Florisuga fusca), pelo jeito, gosta!”

 

Estudo mapeia evolução das aves em todo o mundo

Crédito da Imagem: reprodução/revista Nature

 

Um projeto ambicioso, que envolve várias universidades, ganhou as páginas da revista Nature na semana passada. A ideia é mapear as interações de evolução entre todas as 9 993 espécies conhecidas no mundo, situando-as no tempo e no espaço. Para isso, os cientistas criaram um banco de dados com informações de DNA, cruzando também informações geográficas e de evolução ao longo do tempo (estas últimas incluem também o estudo de fósseis). Os primeiros resultados, publicados agora, já permitem algumas conclusões interessantes, como a de que a diferenciação entre espécies acontece mais conforme a longitude do que pela latitude.

“É um artigo notável, que resultou em um produto definitivamente muito interessante e que, como todo bom trabalho, vai abrir um leque outras questões muito relevantes nos próximos anos”, diz o pesquisador Luís Fábio Silveira, do Museu de Zoologia da USP. Ele completa: “Além do esforço para conseguir sequências de mais de dois terços de todas as espécies atualmente reconhecidas (um número ainda subestimado), houve um avanço também nas técnicas de análises destes dados, que geralmente requerem um arranjo computacional muito complexo para que todas as possibilidades sejam igualmente analisadas. Para mim, o trabalho tem méritos não só pela abordagem do tema, e por lançar luz em um grupo cujas relações filogenéticas ainda são muito complicadas, mas também por conseguir analisar esta imensa quantidade de dados”.

Leia mais sobre o estudo no site Nature News.

 

As torres do Cristalino

Rio Cristalino. Foto Zé Edu Camargo.

Na Amazônia, torres de observação costumam ser imprescindíveis para o birding. A explicação é simples: boa parte das espécies passa a vida na copa das árvores. Assim, observá-las do chão é tarefa muito difícil – não raro, impossível. No Brasil, contam-se nos dedos as torres de observação em meio à selva. E duas delas estão em um só lugar, a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) do Rio Cristalino, em Mato Grosso, na divisa do Pará. Ali está um dos pontos de sonho para qualquer birder brasileiro (e mesmo gringo), o Cristalino Jungle Lodge. Há pouco mais de um ano, estive ali preparando uma reportagem para a revista Viagem (publicada em junho do ano passado), acompanhado do fotógrafo (e também birder) Marcos Amend. Passamos quatro dias em busca de imagens. Não só de aves: foram ariranhas, jacarés, lontras, porcos-do-mato, jiboias e um sem-número de insetos (como as mais coloridas e imensas borboletas que já vi). Subimos o rio Cristalino até o parque estadual, em busca de onças – que não deram o ar da graça. E fizemos até uma incursão noturna na selva.

Mas é nas torres do Cristalino que o bicho pega – literalmente. O guia Jorge, que nos acompanhou, tem olhos e ouvidos atentos, acionando o playback para atrair um sem-número de aves diferentes a todo instante. Graças a ele vivi um dos momentos mais divertidos durante uma saída até hoje. Jorge atraiu um bando misto que passava perto da torre. E bando misto, por ali, significa uma turma do barulho, com saíras, gaturamos e até beija-flores. Era tanto bicho que eu não sabia onde focar primeiro. E rendeu ótimas fotos.

Nas torres também podem ser encontradas aves mais raras. Com sorte, até uma ou outra nem descrita pela ciência. Não se pode esquecer que ali foi descoberta uma nova espécie de ave de rapina, o falcão-críptico (Micrastur mintoni) há apenas dez anos. Entre as figurinhas não muito fáceis que encontrei, o capitão-de-cinta e o anambé-azul renderam os momentos mais bacanas. E também a marianinha-de-cabeça-amarela, uma espécie de psicitacídeo muito interessante, e que permitiu uma boa aproximação.

Chegar ao Cristalino é bem fácil. O acesso por avião é feito até Alta Floresta, no Mato Grosso. Dali são duas horas de 4×4 e mais uma hora e meia de barco, atravessando o Teles Pires e subindo o próprio rio Cristalino. Ah, os mesmo donos têm um hotel em Alta Floresta, onde há um trecho pequeno de mata. Pois bem, ali um casal de harpias (ou gaviões-reais) resolveu nidificar, já faz alguns anos. E em 2012 estava com um filhote. Coisa de cinema.

Anambé-azul. Foto Zé Edu Camargo

 

 

Marianinha-de-cabeça-amarela. Foto Zé Edu Camargo

 

Gaturamo-do-norte. Foto Zé Edu Camargo

 

Araçari-de-pescoço-vermelho. Foto Zé Edu Camargo

 

Garça-real – Foto: Zé Edu Camargo