Month: April 2012

Paul McCartney, blackbird, white wings e assum-preto

Paul McCartney veio ao Brasil mais uma vez. Um amigo meu, que acompanhou os shows no Recife, teve a sacada: “Além de Blackbird, ele poderia ter tocado também White Wings…”. Para quem não sabe, White Wings é a versão em inglês da famosíssima Asa Branca, sucesso do rei do baião, Luiz Gonzaga (versão aliás, do baiano Raul Seixas). Paul até fez menção a Luiz Gonzaga em seus shows, mas, claro, não tocou White Wings. No entanto, o trocadilho ornito-musical do meu amigo tem razão de ser. As duas músicas, além de excelentes, falam de aves emblemáticas. Vamos aprofundar um pouco mais essa história.
O blackbird (pássaro preto, em inglês), se vivesse no Brasil, fatalmente teria o nome de sabiá. E seria cantado por Tom Jobim, não pelos Beatles. O gênero Turdus inclui cerca de 30 espécies no mundo. O blackbird atende pelo nome científico de Turdus merula, e tem distribuição pela Europa e parte da Ásia. O mais que popular (no Brasil) sabiá-laranjeira é também conhecido como Turdus rufiventris. Ele foi não só o inspirador da dupla Tom e Chico na música que leva seu nome, como também de muitos outros artistas. Uma lista extensa que inclui Gonçalves Dias, com a super parodiada Canção do Exílio, da frase “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”. No entanto, um sabiá mais arredio, ligado a ambientes florestados da Mata Atlântica, é o mais parecido com o blackbird de Paul: o sabiá-una, ou Turdus flavipes. Una, em tupi, é preto. Claro. Aí embaixo você vê os sabiás.

Blackbird (Turdus merula), o muso de Paul. Foto Juan Emilio, CC

 

Sabiá-una (Turdus flavipes), o blackbird da Mata-Atlântica. Foto Rafael Fortes

 

Sabiá-laranjeira – Foto: Zé Edu Camargo

 

No caso de Blackbird, a canção, há diversas versões para a origem da música. Em seu livro The Beatles, a História Por Trás de Todas as Canções, o autor Steve Turner lança a ideia de que há um pano de fundo social na letra. Paul teria elaborado a história pensando na luta pelos direitos dos negros nos EUA, então em plena efervescência.

Também em 1968, só que no Brasil, uma notícia ligava Beatles e Luiz Gonzaga: o grupo poderia gravar White Wings. Quem soltou a bomba foi a revista Veja, logo em sua primeira edição. A história ficou no ar um bom tempo, para diversão do próprio Luiz Gonzaga. Conheça os detalhes no post do ótimo blog Beatles To The People.

Outro sucesso de Luiz Gonzaga, Assum Preto, também poderia estar no set list de sir McCartney. Afinal, é conhecido ainda como graúna (do tupi guira+una, ou… pássaro preto). No entanto, neste caso, o parentesco se dá só no nome e no canto melodioso. O nosso assum-preto (Gnorimopsar chopi) não é um sabiá. Pertence a outra família numerosa, que inclui o chupim (ou vira-bosta) e o guaxe.
Para encerrar a seção curiosidades, a asa-branca da música de Luiz Gonzaga é uma pomba, também conhecida como pombão (Patagioenas picazuro). E não é branca – tem o corpo todo acinzentado, com detalhes brancos nas asas. No cerrado e na caatinga, costuma pousar no alto de galhos secos, ficando bem exposta. Também há um outro tipo de ave com o nome de asa-branca, mas trata-se de uma marreca (a Dendrocygna autumnalis), comum em boa parte do país.

Bom, una, black, white, preto no branco, é isso.

Graúna (Gnorimopsar chopi), o famoso assum-preto. Foto Zé Edu Camargo

 

Pombão (Patagioenas picazuro), a asa-branca de Luiz Gonzaga. Foto Zé Edu Camargo

 

 

A força do Cerrado em Cuiabá

Parque Mãe Bonifácia, uma ilha de cerrado em meio a Cuiabá. Foto Zé Edu Camargo

Quase toda capital no Brasil tem um parque urbano onde se pode observar aves: os jardins botânicos no Rio e em São Paulo, o Parque da Cidade em Brasília, o Parque Mangabeiras em Belo Horizonte – e por aí vai. A capital de Mato Grosso não foge à regra, mas seu parque mais querido mostra uma diversidade impressionante. O bem-cuidado Parque Mãe Bonifácia é cortado por alamedas onde, nos fins de tarde, muita gente vem passear, brincar, correr. Mesmo com o movimento, há cantinhos no parque onde pode-se observar diversas aves do cerrado, que moram ali ou usam a região como ponto de passagem. De sabiás a graveteiros, de surucuás a garrinchões, a avifauna local pode ser avistada sem muito esforço. Uma opção interessante para quem visita a cidade, ou está por ali de passagem, antes de seguir para o Pantanal, a Chapada dos Guimarães ou outro ponto turístico do estado.

 

 

Balança-rabo-de-máscara (Polioptila dumicola). Foto Zé Edu Camargo

 

 

 

 

Chorão (Sporophila leucoptera). Foto Zé Edu Camargo

 

 

Os incríveis campos nebulares de São Paulo

 

Campos nebulares no Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Curucutu

São Paulo dos Campos de Piratininga. São Bernardo da Borda do Campo. Os nomes antigos de duas cidades da Grande São Paulo dão a dica da vegetação que cobria boa parte da área antes da ocupação intensiva: os campos, extensões de vegetação baixa, entremeados por brejos e capões de mata, principalmente à beira de córregos e rios. Esse tipo de formação quase desapareceu da grande São Paulo. Quase. Porque ainda sobrevive um trecho de campos, chamados de campos nebulares (por causa da neblina que boa parte do dia, em qualquer época do ano, pode cobrir a região) dentro do município de São Paulo. Fica no pouco conhecido Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, em Marsilac, no extremo da Zona Sul da cidade, divisa com os municípios de São Vicente e Itanhaém.

“Imagina, a gente poderia estar andando pela avenida Paulista no século XVI, talvez a paisagem fosse essa”, diz o biólogo Fabio Schunck. Ele faz um monitoramento das aves no Núcleo Curucutu desde 2007, parte de seu plano de mestrado, apoiado pelo pesquisador Luis Fabio Silveira, do Museu de Zoologia da USP. Todos os anos na mesma data, Schunck arma 20 redes de neblina para capturar aves nos campos nebulares. Sua intenção é anilhar uma espécie migratória, a Elaenia chilensis, ou guaracava-de-crista-branca. “Elas passam por aqui sempre na mesma data, capturo os indivíduos, anoto as características biológicas, anilho, fotografo e solto. Depois de poucos dias, elas desaparecem. Ainda não recapturei nenhum exemplar anilhado, mas já anilhei 75 indivíduos. Qualquer hora algum pesquisador captura uma destas guaracavas em outra localidade da América do Sul. Os poucos estudos disponíveis mostram que elas migram do Chile, subindo pela região leste do Brasil até o nordeste, passando pela Caatinga, Cerrado, Amazônia e retornando ao Chile pelos Andes, para se reproduzir. Mas os estudos ainda são inconclusivos”, ele diz.

Além das guaracavas, muitas outras espécies caem nas redes de neblina, desde pequenos beija-flores até aves maiores, como andorinhões, arapongas e araçaris. O Núcleo Curucutu está entre as áreas com a maior diversidade de aves da Serra do Mar, são cerca de 350 espécies registradas até o momento. O parque tem uma trilha aberta à visitação, que leva a um mirante de onde, em dias claros, pode-se ver as cidades de Itanhaém, Monguaguá e Peruíbe, além da Serra da Jureia, a Ilha Queimada Grande e a Laje de Santos. “Em 2006, nessa trilha, avistamos o raro apuim-de-costas-pretas (Touit melanonotus), espécie que era pouco conhecida na época”, conta Schunck. O que torna o parque não só interessante para quem quer conhecer a paisagem original de boa parte da cidade, como também para os observadores de aves.

 

O biólogo Fabio Schunck retira uma ave da rede de neblina. Foto Zé Edu Camargo
Elaenia chilensis, espécie migratória que passa por São Paulo em março. Foto Zé Edu Camargo

Detalhe de um pitiguari anilhado durante o trabalho no Parque Estadual. Foto Zé Edu Camargo.
A neblina é comum durante parte do dia na região dos campos. Foto Zé Edu Camargo