Albano

Soldadinho-do-Araripe pede água!

Por Weber Girão (Projeto Soldadinho-do-araripe e Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos – Aquasis) e Ciro Albano (NE Brazil Birding)

No centro da região mais árida do Brasil existe um verdadeiro oásis – o vale do Cariri cearense, lugar que impressiona pela quantidade de fontes d’água, além da exuberância de verde, contrastante com a caatinga que perde as folhas na seca. Este vale ocupa menos de um décimo das encostas da Chapada do Araripe, cujos aquíferos subterrâneos abastecem mais de cem fontes que representam quase 80% da vazão d’água que ressurge em todas as suas vertentes. Nesta paisagem única, a seleção natural preparou uma verdadeira joia viva e exclusiva dali, um pássaro de coloração branca, negra e vermelha conhecido no mundo inteiro, o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni). Além de se alimentar e reproduzir na vegetação úmida, que legalmente é considerada como Mata Atlântica, costuma fazer seus ninhos sobre os córregos, banhando-se ao amanhecer e no final das tardes.

No princípio do século XIX, o botânico escocês George Gardner esteve na região e ajudou a revelar o rico patrimônio paleontológico da Chapada do Araripe, além de descrever plantas e narrar sua árdua jornada pelo País. Maledicente e preconceituoso, Gardner acentuou seu mau humor ao atravessar o tórrido sertão do Ceará, no entanto, após um banho nos rios habitados pelo soldadinho-do-araripe, descreveu a paisagem como um poeta, tocado pela emoção de tamanha preciosidade. Descoberto por cientistas somente em 1996, o soldadinho-do-araripe saiu do anonimato e atualmente simboliza todo este patrimônio natural para a sociedade. Sua imagem figura nos principais eventos ambientais e culturais da região, em um fenômeno que o classifica como “espécie-bandeira”, pois sua conservação significa a manutenção da qualidade de vida das pessoas através do uso sustentável dos recursos naturais.

Caso vivesse nos tempos atuais, Gardner poderia praguejar bastante ao ver a forma como estamos cuidando da paisagem que tanto o encantou. Em determinadas fontes, a pressão gerada pelo crescimento urbano desordenado e agricultura insustentável tem aprisionado as águas das fontes em canos, desde suas nascentes, contrariando a proteção às Áreas de Preservação Permanente previstas em lei. Até o soldadinho-do-araripe parece desolado ao se deparar com caixas de alvenaria acorrentadas no meio da mata. Para mitigar o problema, a sociedade tem discutido sobre como evitar a extinção do pássaro ameaçado, especialmente através do Plano de Ação Nacional (PAN) para a conservação do soldadinho-do-araripe, documento oficial do governo brasileiro que celebra um acordo entre diversos atores locais, sendo prevista uma reunião de monitoria para setembro deste ano.

Entre dezenas de compromissos assumidos no documento, destaca-se a criação de uma Unidade de Conservação de Proteção Integral para proteção das águas, e consequentemente, do pássaro e de tudo o que representa. Esta recomendação já constava na descrição da espécie, publicada em uma revista científica de 1998, sendo repetida e aperfeiçoada nos estudos voltados à gestão que antecederam o PAN do soldadinho-do-araripe. Em 2007 foi protocolado o processo de criação junto ao Ibama, que naquele ano foi dividido e deu origem ao Instituto Chico Mendes. Existe esperança de que esta Unidade se torne realidade em tempo hábil, no entanto, em estratégia paralela, um grupo de entidades parceiras busca o reconhecimento de um mosaico de áreas protegidas. Este esforço pode ser a gota d’água para transbordar uma década de empenho na conservação do soldadinho-do-araripe.

Saiba mais sobre o projeto de conservação do soldadinho-do-araripe clicando aqui.

Soldadinho-do-araripe - Foto: Ciro Albano
Soldadinho-do-araripe – Foto: Ciro Albano

 

 

 

 

 

A ave mais bonita do Brasil

Crejoá (Cotinga maculata). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

«Beauty is truth, truth beauty,» —  that is all
Ye know on earth, and all ye need to know. 

“Beleza é a verdade, a verdade a beleza”- É tudo o que há para saber, e nada mais. Os versos de John Keats (em uma tradução de Augusto de Campos) me vieram à mente enquanto eu acompanhava a apresentação do pesquisador Fernando Straube, no último Avistar Talks, em São Paulo. O tema era “O Poder da Beleza”. Straube mostrava algumas características das aves que nos chamavam a atenção, como as cores e formatos. A ideia era despertar o público para a questão: “o que nos faz achar que uma ave é bela?”. A certa altura, ele mencionou uma enquete que havia feito com ornitólogos, observadores e fotógrafos que conheciam bem a avifauna brasileira. A pergunta era: “Quais são as cinco aves mais bonitas do Brasil?”. Assim, a seco, sem explicação. E os resultados foram surpreendentes.

Participaram da enquete 32 pessoas, de várias regiões do país e até do exterior. Straube computou os dados após receber as respostas. Uma delas veio em branco, com um recado curto e direto: “Não vou responder, pois essa enquete não faz sentido!”. Alguns disseram que só votaram nas aves que já haviam observado na natureza. Outros relacionaram as aves sem nenhuma explicação. Não era preciso colocar uma ordem de preferência entre as cinco votadas.

Computados os votos, uma primeira surpresa. Nada menos do que 127 espécies (das 1832 na lista brasileira do CBRO) receberam votos. Destas 99 receberam um único voto. Ou seja, a falta de convergência entre os votantes foi grande – mostrando a diversidade de opiniões quanto ao que é a beleza na avifauna. Por fim destacou-se uma ave que poderíamos chamar de vencedora: o crejoá (Cotinga maculata), espécie da Mata Atlântica que só tem registros recentes no sul da Bahia. Ela teve 10 votos. Na sequência, vieram o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), com 9 votos, o galo-da-serra (Rupicola rupicola), com 7 votos, e o pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa), com 5 votos. Daí para baixo havia alguns empates. “Deu para perceber que nem só características físicas da ave contaram na escolha, mas também a dificuldade de observação e até o status de conservação”, diz Fernando Straube.

De todo modo, fica uma conclusão. Estamos bem servidos quanto à beleza das nossas aves, já que nem mesmo os conhecedores conseguem escolher poucas espécies. Sorte de quem observa aves por aqui. Sorte de quem pode ainda ver o crejoá, o galo-da-serra, o soldadinho-do-araripe livres na natureza. E o título deste post é só uma provocação, claro. Tente eleger as suas cinco aves mais bonitas do Brasil, mesmo que isso não faça sentido. Beleza é a verdade.

Pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanii). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding