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Levantamento de avifauna, um trabalho fundamental

 

A rede de neblina ajuda na captura de espécimes para pesquisa

Pesquisa científica e conservação sempre andaram juntas. Entender as interações de fauna e flora é fundamental para o planejamento das ações em qualquer unidade, de uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) a um parque nacional. O levantamento de avifauna está na base dessas ações. O pesquisador Paulo de Tarso Zuquim Antas e sua equipe realizam projetos assim por todo o país. O blog acompanhou um dia de trabalho dos pesquisadores em uma unidade de conservação mantida pela empresa Fibria em Teixeira de Freitas, no Sul da Bahia. A área está em processo de tornar-se uma RPPN, e guarda uma boa porção de Mata Atlântica em ótimo estado de conservação. Entre outras aves, vive ali o Glaucis dohrnii, ou balança-rabo-canela, um pequeno beija-flor muito raro. Um outro trabalho, em paralelo, tenta analisar conectividade entre dois fragmentos florestais através de uma plantação de eucalipto.

A rotina dos pesquisadores é pesada, movida a muita paciência, atenção e entusiasmo. O dia começa muito antes de o sol nascer – quando as primeiras luzes aparecem, as redes de neblina já estão instaladas em pontos estratégicos. Estas redes têm malhas finíssimas, de um material leve e macio, para não machucar as aves. De tempos em tempos, os pesquisadores se dividem para examinar as redes e coletar os espécimes que caíram nelas. Eles são pesados, medidos, recebem a marcação de uma anilha e em seguida voltam para a natureza. Esse processo leva alguns dias e é repetido todos os anos. Os resultados, com o tempo, mostram não só a composição da avifauna na área, mas também revelam muito sobre comportamento. A seguir, uma entrevista com o pesquisador Paulo de Tarso Zuquim Antas, falando um  pouco mais sobre este trabalho fundamental e também sobre a importante área de conservação da Mata Atlântica.

Blog: Quais são os objetivos do trabalho realizado na futura RPPN Esperança do Beija-flor?

Paulo de Tarso: Duas questões centrais vinculadas à conservação da biodiversidade na Mata Atlântica estão sendo abordadas no trabalho realizado na futura RPPN e seu entorno. A primeira delas corresponde à dinâmica das comunidades nativas dentro do fragmento principal, onde está delimitada a futura RPPN. Apesar de seu tamanho, cerca de 1.700 ha, esse fragmento estava isolado fisicamente dos demais na região antes da aquisição pela Fibria, por estar envolvido por pastagens plantadas. Pastagens e outros ambientes abertos são evitados por uma série de espécies florestais de animais, incluindo diversas aves. Esse comportamento foi adquirido ao longo da evolução dentro de um ecossistema de mata contínua. Tais espécies evitam cruzar ambientes não florestais, porque esses não oferecem recursos necessários para a vida do indivíduo ou possivelmente para evitar predadores.

Quando a floresta era contínua, ao se deparar com uma clareira essas espécies simplesmente contornavam a área aberta no interior da mata e continuavam seu deslocamento. Isso acontece ainda hoje em matas como na Bacia Amazônica ou nos grandes maciços contínuos de Mata Atlântica da Serra do Mar em São Paulo por exemplo.

Ao fragmentarmos o ambiente florestal, envolvendo os remanescentes com pastagens e sistemas agrícolas não florestais, ele transforma-se em um sistema de ilhas isoladas entre si, cada uma portando um conjunto de indivíduos. As populações das espécies que não cruzam ambientes abertos mantêm-se como náufragos nessas ilhas, sem meios para atravessar o oceano. O resultado é o aumento de cruzamentos entre indivíduos cada vez mais aparentados, ocasionando perda da variabilidade genética da população, números de reprodutores insuficientes para manter populações viáveis e alta sensibilidade a variações climáticas pontuais, capazes de levar à extinção as populações isoladas. Ocorre uma erosão lenta da biodiversidade, muitas vezes despercebida por ocorrer em  escala temporal de dezenas de anos.

O trabalho no interior do fragmento, feito pela Funatura (Fundação Pró-Natureza, uma ong sem fins lucrativos com sede em Brasília e atuação em todo o país) com o apoio da área de Meio Ambiente Florestal da Fibria, visa verificar a saúde populacional das espécies florestais, com ênfase naquelas já consideradas ameaçadas, raras e as exclusivas (endêmicas) do bioma Mata Atlântica. Conforme problemas são detectados, sugerir medidas capazes de evitar essa perda de biodiversidade.

Além de avaliar esses parâmetros, uma das medidas para reduzir o risco de perda de espécies é aumentar a conectividade das populações entre os fragmentos em escala regional. Para isso está sendo realizado, em conjunto com o Centro de Tecnologia da Fibria, um estudo usando corredores de eucalipto com sub-bosque adensado de vegetação nativa.

Nesse experimento foram deixadas faixas de plantio de eucalipto com pelo menos 120m de largura e 800m ou mais de comprimento sem serem colhidas em pontos estratégicos no entorno da RPPN e ligando-a a outros fragmentos. Implantado há 3 anos, quando da colheita da madeira dos talhões vizinhos, esses corredores mantiveram-se como faixas de floresta enquanto o novo ciclo de crescimento do plantio de eucalipto estava em seu início.

Para verificar a efetividade do uso desses corredores foram usadas as espécies florestais de aves presentes em toda a sua extensão. Um dos registros mais importantes foi a captura em rede ornitológica de um beija-flor Glaucis dohrnii, espécie endêmica da Mata Atlântica e ameaçada, no interior do corredor, a 400m da borda da mata mais próxima.

Em 2011 foi associado um novo experimento nesses corredores, com o plantio de mudas de árvores nativas em áreas onde a vegetação nativa estava com baixa implantação. Essa intervenção visa efetuar o maior adensamento dos estratos inferior e médio nesses locais dentro do corredor, para avaliação quando da próxima colheita da madeira dos talhões comerciais vizinhos em 2014.

Também foi iniciado um estudo avaliando o papel das Áreas de Preservação Permanente (APP) com vegetação nativa nessa conectividade regional desde a RPPN.

Blog: Há quanto tempo os estudos são realizados?

Paulo de Tarso: Os trabalhos começaram em março de 2002, no início dos plantios de eucalipto em toda a área do entorno, substituindo as pastagens da antiga fazenda de pecuária.

Blog: Já existem resultados?

Paulo de Tarso: Na questão de conectividade, os resultados mostraram o uso dos corredores de eucalipto deixados para esse fim. Além do beija-flor florestal, outras 4 espécies florestais foram detectadas em seu interior pelas redes. Uma quinta espécie florestal colonizou o fragmento menor na borda oposta do corredor em relação à RPPN, também mostrando o uso do mesmo após seu estabelecimento.

O anilhamento dos beija-flores já possibilita estimar sua população no local ao redor de 100 indivíduos. Essa é a primeira estimativa populacional para a espécie, bem como são coletados dados inéditos sobre a sua biologia e ecologia básica, ainda pouco conhecidas . São informações fundamentais para a sua conservação no local e em outros pontos de ocorrência.

Blog: Como a área da RPPN pode ser qualificada?

Paulo de Tarso: É um fragmento de Mata Atlântica de baixada, uma floresta ombrófila densa. Parte da área está em franco processo de recuperação depois de ter passado por extração madeireira ampla até os anos de 1980. A proteção das suas bordas dos efeitos dessecantes de vento e insolação direta, através da substituição de pastagens por plantios de eucalipto, auxiliou e acelerou essa recomposição desde 2002

Blog: Qual a sua importância para o bioma Mata Atlântica e para a região em que está inserida?

Paulo de Tarso: A RPPN é o principal fragmento de Mata Atlântica de tabuleiro na região entre o rio Jucuruçu e a divisa com o estado do Espírito Santo. Sua importância para a conservação da biodiversidade regional é patente, também sendo de grande significado para o bioma como um todo. O fato de abranger uma mata estruturada em terreno plano, de baixada, já é significativo por si só pela raridade dessa formação ter ficado intacta. Nas áreas planas o desmatamento foi mais intenso pela facilidade de acesso do que em regiões montanhosas. O conjunto de espécies detectadas de aves, mamíferos e flora demonstra ainda mais essa importância.

Blog: Além do Glaucis dohrnii, que outras aves ameaçadas estão presentes na reserva?

Paulo de Tarso: A lista total de espécies é de 237 aves, das quais 27 (11% do total) constam em pelo menos uma das três listagens de ameaçadas: brasileira (Ministério do Meio Ambiente), internacional (União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) ou do Espírito Santo (Secretaria do Meio Ambiente). Como a Bahia ainda não elaborou uma lista estadual e até o rio Jequitinhonha (mais ao norte de onde trabalhamos) há uma identidade biogeográfica do Espírito Santo com o extremo sul baiano, a lista capixaba serve de referência.

Também estão presentes 17 aves (7% do total) consideradas raras na natureza naturalmente ou por efeito da ação humana, bem como 24 (10%) de espécies exclusivas da Mata Atlântica.

Essas listas são exclusivas e hierarquizadas, isto é, se uma ave consta da lista de ameaçadas e é endêmica da Mata Atlântica, ela é contada somente como ameaçada. O mesmo nas demais categorias. Desse modo, se somamos os três contingentes a futura RPPN apresenta 68 espécies de alta relevância para a conservação. Esse total significa 29% da listagem completa, mostrando sua significância no panorama regional e nacional de conservação da biodiversidade da Mata Atlântica.

Tangara seledon, ou saíra-sete-cores, uma das aves estudadas na região
O trabalho dos pesquisadores se inicia antes do sol nascer
Dados do ambiente também são coletados
As aves recebem uma anilha com marcação, depois são soltas

 

A ave mais bonita do Brasil

Crejoá (Cotinga maculata). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

«Beauty is truth, truth beauty,» —  that is all
Ye know on earth, and all ye need to know. 

“Beleza é a verdade, a verdade a beleza”- É tudo o que há para saber, e nada mais. Os versos de John Keats (em uma tradução de Augusto de Campos) me vieram à mente enquanto eu acompanhava a apresentação do pesquisador Fernando Straube, no último Avistar Talks, em São Paulo. O tema era “O Poder da Beleza”. Straube mostrava algumas características das aves que nos chamavam a atenção, como as cores e formatos. A ideia era despertar o público para a questão: “o que nos faz achar que uma ave é bela?”. A certa altura, ele mencionou uma enquete que havia feito com ornitólogos, observadores e fotógrafos que conheciam bem a avifauna brasileira. A pergunta era: “Quais são as cinco aves mais bonitas do Brasil?”. Assim, a seco, sem explicação. E os resultados foram surpreendentes.

Participaram da enquete 32 pessoas, de várias regiões do país e até do exterior. Straube computou os dados após receber as respostas. Uma delas veio em branco, com um recado curto e direto: “Não vou responder, pois essa enquete não faz sentido!”. Alguns disseram que só votaram nas aves que já haviam observado na natureza. Outros relacionaram as aves sem nenhuma explicação. Não era preciso colocar uma ordem de preferência entre as cinco votadas.

Computados os votos, uma primeira surpresa. Nada menos do que 127 espécies (das 1832 na lista brasileira do CBRO) receberam votos. Destas 99 receberam um único voto. Ou seja, a falta de convergência entre os votantes foi grande – mostrando a diversidade de opiniões quanto ao que é a beleza na avifauna. Por fim destacou-se uma ave que poderíamos chamar de vencedora: o crejoá (Cotinga maculata), espécie da Mata Atlântica que só tem registros recentes no sul da Bahia. Ela teve 10 votos. Na sequência, vieram o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), com 9 votos, o galo-da-serra (Rupicola rupicola), com 7 votos, e o pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa), com 5 votos. Daí para baixo havia alguns empates. “Deu para perceber que nem só características físicas da ave contaram na escolha, mas também a dificuldade de observação e até o status de conservação”, diz Fernando Straube.

De todo modo, fica uma conclusão. Estamos bem servidos quanto à beleza das nossas aves, já que nem mesmo os conhecedores conseguem escolher poucas espécies. Sorte de quem observa aves por aqui. Sorte de quem pode ainda ver o crejoá, o galo-da-serra, o soldadinho-do-araripe livres na natureza. E o título deste post é só uma provocação, claro. Tente eleger as suas cinco aves mais bonitas do Brasil, mesmo que isso não faça sentido. Beleza é a verdade.

Pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanii). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

O canto e o encanto

Sabiá-barranco. Foto Zé Edu Camargo

Uma pesquisa da Universidade de Surrey, na Inglaterra, quer estudar a influência do canto das aves no comportamento humano. Durante três anos, os pesquisadores irão fazer testes para medir alterações no humor e na criatividade, por exemplo, de pessoas expostas aos sons de pássaros. O mais interessante: pretendem reproduzir os testes em laboratório e também em saídas ao ar livre.