lifer

Fotos espetaculares de uma espécie rara e (muito) ameaçada

Foto: Ciro Albano - NE Brazil Birding

Um bom guia de birdwatching precisa ter várias habilidades. O primeiro, claro, é um vasto conhecimento sobre as aves, seu comportamento e hábitat. Também precisa ter uma audição apurada (mais até que a visão). Mas não basta ouvir. Tem de identificar o canto e, rapidamente, ligá-lo à ave certa dentro de seu banco de dados mental. E isso não é para qualquer um. Por fim, o bom guia tem de ser um cara de bem com a vida. Porque ele lida com o bicho mais difícil da natureza: o homem (e a mulher, claro), com suas ansiedades, humores e preferências.

No Brasil, temos alguns super-guias, que se esforçam para mostrar a observadores do mundo todo as aves brasileiras. Algumas vezes, eles têm de se superar. Afinal, há birdwatchers que, quando retornam ao Brasil, já têm no currículo 6 mil ou 7 mil aves em sua life list. Ou seja, estão aqui atrás de espécies muito, muito raras.

O cearense Ciro Albano nasceu em uma família de fotógrafos. Mas a paixão pelas aves o fez transcender o sentido da visão. O DNA fez com que ele seja, sim, um fotógrafo excepcional. Mas ele também é um guia requisitado pelos mais exigentes birdwatchers de todo o mundo, além de manter a atividade de ornitólogo. Assim, está acostumado a encontrar espécies raras. Mas este ano uma surpresa o aguardava: a oportunidade de fotografar uma ave MUITO fora do comum. Primeiro porque tem uma área de distribuição pra lá de restrita e está muito ameaçada pela perda de hábitat. Segundo porque é uma das mais belas aves que temos, com um nome comum poético e sugestivo: a saíra-apunhalada (Nemosia rourei). Ela tem esse nome por causa da mancha vermelho-sangue no pescoço e peito, contrastando com a plumagem branca do ventre. Vive nas matas de uma (hoje) pequena área de floresta na região serrana do Espírito Santo. E é dificílima de ser observada. Fazer uma foto dela de perto, então, era coisa de outro mundo. Era. Contando com a ajuda e a companhia de outro super-guia, Gustavo Magnago, especializado nas espécies capixabas, Ciro teve o privilégio de registrar a saíra de pertinho. Um feito extraordinário. Então nada melhor do que deixar que ele próprio narre a experiência:

“Um casal de observadores/fotógrafos de aves da Inglaterra (Andy e Gil Swash), que já havia feito duas viagens comigo pelo Nordeste, entrou em contato para planejar uma terceira viagem. Eles deixaram que eu propusesse um roteiro. Assim como eu, eles também têm uma predileção por aves raras, daí resolvi montar uma tour que cobrisse o máximo de lifers pra eles – e incluísse espécies bem raras que eles ainda não haviam visto. A saíra era um dos grandes sonhos. Então convidei o amigo Gustavo Magnago (especialista nas aves do Espírito Santo) pra nos acompanhar. O Gustavo é o cara que mais registrou a saíra nesses últimos anos. Mas, só pra se ter noção da raridade do bicho fazia doze viagens que ele não avistava a espécie (cada viagem com três dias de busca em média). Então para evitar frustração deixamos bem claro que era muto difícil de encontrar a ave. E acho que dá para imaginar o quanto ficamos felizes e surpresos quando aquela voz aguda respondeu lá do alto da mata…

Chegamos cedo na floresta e seguimos na estrada onde os bichos haviam sido vistos pela última vez. A estratégia era tocar o playback de vez em quando e seguir observando/fotografando outras espécies mais comuns. Depois de aproximadamente uma hora e meia de passarinhada, estávamos tentando fotografar o piolhinho-verdoso (Phyllomyias virescens) que era lifer fotográfico pra mim. Mas sempre tocando as saíras de tempos em tempos. Numa dessas escutamos um piado agudo lá na copa. Com um frio na barriga imediato olhei para o Gustavo, que estava como os olhos arregalados – eu (tentando não acreditar) pensei: deve ser em andorinhão (Chaetura) – que tem um chamado parecido. E o Gustavo responde: “continua tocando”. Quando vimos aquela algazarra na copa a adrenalina explodiu! Havíamos reencontrado as saíras-apunhaladas! Estávamos do lado de uma clareira com um barranco alto e uma árvore isolada e baixa. Subimos o barranco e soltamos o playback. Para surpresa e alegria de todos os bichos vieram na nossa cara, ao nível do olho. Era tão inacreditável que eu não sabia se fotografava ou contemplava aquelas criaturas tão raras de tão perto. Sabemos da raridade dos bichos e tentamos conseguir as imagens o mais rápido que pudemos. Foram pouco minutos, mas correu tanta adrenalina que, depois que passou, fiquei cansado de tanta emoção. Foi sem dúvida um dos momentos mais importantes nas nossas vidas de observadores/fotógrafos (e, no meu caso, ornitólogo também) e com certeza inesquecível pra todos nós.
A esperança agora é que as imagens sirvam pra sensibilizar as autoridades/proprietários e sociedade civil a evitar a extinção de uma das aves mais bonitas e raras desse planeta!”

O recado no final do relato é importante e necessário. Como a área em que vive a saíra-apunhalada é muito pequena, é preciso um esforço de todos para a conservação. Saiba mais sobre isso no site da Save Brasil. Para conhecer melhor a saíra-apunhalada, visite a página da BirdLife International.

Foto: Gustavo Magnago

 

Foto: Gustavo Magnago
Foto: Ciro Albano - NE Brazil Birding
A equipe em ação com as fotos da saíra-apunhalada

 

O que é um lifer?

Lifer, palavra que vem do inglês, serve para indicar uma ave que você observa pela primeira vez na vida. “O apuim-de-costas-pretas foi um lifer”, “O beija-flor-brilho-de-fogo seria um baita lifer” são frases que você pode ouvir nas conversas com outros birdwatchers. No Brasil, como a observação de aves está muito ligada à fotografia, a palavra lifer passou a ser usada também para designar a primeira vez na vida em que alguém fotografa uma ave. Isso, é claro, deturpa um pouco o conceito original. O excelente blog do fotógrafo Octávio Campos Salles trouxe uma discussão sobre este tema. Recomendo que você leia, além do post, também os comentários – há ali um debate de ótimo nível.

E você? Qual é o lifer dos seus sonhos?

 

Rabo-branco-acanelado (Phaethornis pretrei) -Foto Zé Edu Camargo