birding

Dia do Observador de Aves: motivos para se preparar – e celebrar também

Jandaias-de-testa-vermelha – Foto: Zé Edu Camargo

Em 28 de abril comemora-se Dia do Observador de Aves por aqui. Os observadores formam uma comunidade que cresce a cada dia e hoje já movimenta o turismo de várias regiões pelo Brasil. Nos últimos anos o birdwatching (ou birding, ou observação de aves) ganhou um grande impulso. Esse destaque pode ser avaliado pelo grande sucesso do Avistar Brasil, um evento que este ano ocupa novamente o Instituto Butantan, em São Paulo, entre os dias 20 e 22 de maio.

O Avistar é um misto de feira, congresso e palco de exibições, com oficinas, palestras e atividades para adultos e crianças (confira a programação em http://www.avistarbrasil.com.br/). Um pouco antes disso, outro evento também promete repetir o sucesso de 2015 – o Global Big Day, um dia inteiro dedicado à observação de aves em todo o planeta, organizado pelo Cornell Lab of Ornithology e apoiado por várias entidades brasileiras, como a Save Brasil e o Observatório de Aves do Instituto Butantan (veja mais em http://ebird.org/content/brasil/noticia/global-big-day-participe/). Portanto, o Dia do Observador de Aves é em abril, mas o mês de maio também promete muita diversão e comemoração. Convém já ir se preparando.

Livro primoroso reúne todos os papagaios, araras e periquitos do Brasil

“Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra”.

O trecho aí em cima vem da carta de Pero Vaz de Caminha, primeiro documento escrito sobre o Brasil, que já trazia algumas menções aos papagaios e periquitos. E, ao longo de nossa história, do Zé Carioca ao filme Rio, eles sempre estiveram associados à nossa imagem. Mas, apesar desta presença marcante, não eram abundantes os estudos e fontes de informação sobre as quase 100 espécies de psitacídeos que ocorrem em território nacional. Um parêntese: psitacídeo é uma palavra estranha mas de uso comum entre os biólogos para indicar papagaios e periquitos, em uma referência à família Psittacidae, que inclui nossos papagaios, periquitos, maitacas, araras, tiribas e maracanãs. Agora, o livro (mas o mais adequado seria dizer livrão, pela sua importância) Terra Papagalli vem cobrir com maestria muitas lacunas no nosso conhecimento destas aves. Obra de referência, mas que tem no visual e no cuidado gráfico um elemento fundamental, a obra traz as ilustrações do artista Eduardo Brettas (veja no final do post) em perfeita sintonia com o texto do pesquisador Luis Fabio Silveira, curador da coleção de ornitologia do Museu de Zoologia da USP. Um livro para apreciar como obra de arte e consultar como obra de referência. O lançamento ocorre no dia 9 de dezembro em São Paulo. Mais informações no book trailer:

Ilustração de Eduardo Brettas para o livro Terra Papagalli

Outubro é o mês de Big Day Brasil. Você já está preparado?

Gavião-caramujeiro – Foto: Zé Edu Camargo

Observadores de aves de todo o país estão se organizando para o grande dia. Birders do Chuí ao Caburaí irão a campo durante as 24h do dia 10 de outubro com o objetivo de identificar o maior número de espécies de aves possível. Uma iniciativa conjunta de Save Brasil, Observatório de Aves do Instituto Butantan, The Cornell Lab of Ornithology e Avistar Brasil, o Big Day é um grande acontecimento. Os organizadores têm o objetivo de mapear 1700 espécies (das quase 2 mil já registradas por aqui), através de listas submetidas em sites como o eBird (ebird.org) ou Táxeus (taxeus.com.br).

Você também pode participar. Chame seus amigos e faça uma passarinhada no dia 10 de outubro, depois submeta a lista de aves observadas no dia num destes sites até o dia 15 de outubro. Não sabe como preparar/submeter sua lista? Uma página no eBird explica tudinho tim-tim por tim-tim, basta clicar aqui: http://bit.ly/1gu8T0O. E para saber mais sobre o Big Day você pode acessar a página do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/666791770088188/. Participe!

Um tour de observação de aves pelo Peru

Quetzal-de-cabeça-dourada (Pharomachros auriceps) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Nossos vizinhos estão com tudo. O Peru vem se firmando no mapa mundial de birding graças a uma conjunção especial de fatores. Na geografia é um país diverso, da costa com pouquíssima chuva à selva amazônica, passando pelos Andes. Isso se reflete na grande variedade de aves (mais de 1800 espécies registradas). São muitas áreas de conservação (as reservas protegidas ocupam mais de 12% da área total do país). E o Peru tem se esforçado para atrair observadores, criando infraestrutura e promovendo a atividade no exterior. Os brasileiros já descobriram esses roteiros. O fotógrafo e guia de birdwatching Adrian Eisen Rupp tem organizado bem-sucedidas incursões pelo país. Aí embaixo um pequeno bate-bola com ele.

Blog: Quando se fala em Peru, todos associam com os Andes e o Pacífico. Quais outras regiões o país tem para a prática de observação de aves?

Adrian: Existem muitas opções em praticamente todo o país, e além da famosa península de Paracas e a região andina, temos as Yungas a leste da Cordilheira dos Andes que cortam o país de norte a sul, e a Amazônia. Cada vez que falamos em qualquer um destes biomas vale lembrar que existem as áreas de endemismo, e assim vários destinos em um mesmo bioma, mas sempre tendo aves diferentes para observar.

Blog: Quais as diferenças entre a Amazônia peruana e a brasileira?

Adrian: Com exceção da Amazônia pré-andina, não há diferença. A avifauna encontrada na bacia do Rio Madre de Díos remete a avifauna encontrada ao longo da Bacia do Rio Madeira no Brasil, temos ainda o Rio Purus que nasce no Peru e adentra o estado do Acre no Brasil, e a avifauna da bacia do Rio Amazonas corresponde a região biogeográfica do oeste do estado do Amazonas no Brasil. O diferencial fica pela infraestrutura turística para conhecer estas regiões no Peru, que é muito superior as correspondentes no lado brasileiro.

Blog: Quais são os principais objetivos de uma viagem de birding à região?

Adrian: Os destinos preferidos são os que oferecem roteiros de observação que mesclam os Andes, as Yungas e a Amazônia, tanto do norte do Peru quanto no sul. Uma viagem destas permite a observação de muitas espécies em poucos dias de viagem, e em trajetos relativamente curtos.

Blog: E a infraestrutura do país, como está? O que um observador pode esperar?

Adrian: O Peru é um país privilegiado por ter Machu Picchu, o que motivou investimentos no setor turístico que vão desde uma ampla rede de hotéis e eco-lodges até a formação acadêmica dos profissionais do ramo. Todo esse profissionalismo envolvido com o turismo arqueológico influenciou na qualidade do serviço oferecido no turismo de natureza. A maioria dos lodges tem alimentadores para aves, as trilhas são limpas, o café da manhã é servido bem cedo, muitos lodges amazônicos possuem torres para observação de aves e, mesmo nas áreas mais remotas do país, você encontra uma ótima infraestrutura a preços acessíveis.

O guia está organizando grupos para viagens ao Peru em julho e outras datas do segundo semestre. Mais informações pelo email birding@adrianrupp.com ou pelo site www.adrianrupp.com.
Socó-boi-escuro (Tigrisoma fasciatum) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Sanhaçu-de-coleira-dourada (Iridosornis jelskii) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Sanhaçu-de-cabeça-preta (Buthraupis montana) – Foto: Adrian Eisen Rupp

Workshop para fotógrafos na Amazônia

Casal de araçari-mulato. Foto de Marcos Amend
A RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) do Cristalino, no Mato Grosso é um dos principais destinos não só de birding, mas também para a observação da fauna e da flora amazônicas. Não poderia haver palco melhor, portanto, para um workshop focado (desculpem-me pelo trocadilho) na fotografia de vida silvestre. É o que propõe, em junho, o fotógrafo e ambientalista Marcos Amend. A seguir, um pequeno portfólio de imagens captadas por ele em várias viagens ao Cristalino. Quem quiser mais informações sobre o workshop é só clicar aqui.
Macaco-aranha-de-cara-branca. Foto de Marcos Amend
Capitão-de-cinta. Foto de Marcos Amend
Mãe-da-lua e seu filhote camuflados em árvore. Foto de Marcos Amend
Surucuá-pavão. Foto de Marcos Amend

Dez bons motivos para ir ao Avistar Brasil 2015

Maria-preta-de-penacho – Foto Zé Edu Camargo

Este ano o Avistar – mais importante evento de observação de aves no país – mostra uma novidade muito bacana, logo de cara: o lugar onde vai ocorrer. De 15 a 17 de maio (de sexta a domingo), observadores do país todo vão se reunir no Instituto Butantan, em São Paulo. Serão três dias de um concorrido congresso (com palestras de especialistas brasileiros e do exterior), uma feira com destinos de birding, hotéis, editoras de livros, produtores de equipamentos e outros expositores ligados à atividade. E muitas atividades paralelas para todas as idades. O Butantan, que por si só já é uma excelente opção de lazer nos fins de semana, vai estar ainda mais atrativo. Para facilitar a sua vida, elegemos dez grandes atrações dessa edição. Mas vale muito a pena dar um pulo no site do evento e ver a programação completa.

Um dinossauro em seu jardim 
Pirula – Paleontólogo e  autor de videos de divulgação científica
Vai explicar porque observamos dinossauros ao invés de aves
Diários de Campo
Santos D’Angelo – botânico e ornitólogo 
Apresenta sua técnica de registro de aves, baseada em desenhos feitos em cadernetas campo
Um Novo Olhar Sobre As Cidades
Fernando Fernandez   – especialista em Biologia da Conservação
Fala da  importância da observação da fauna urbana
Internet e Observação, a Ciência que Podemos Produzir 
Atila Iamarino – Canal Nerdologia do Youtube
Aproxima a ciencia cidadã e a internet
Arte Naturalista no Brasil
Dante Teixeira – ornitólogo e especialista em arte naturalista do Brasil Holandês 
Palestra sobre Arte Naturalista seguida de visita guiada ao Acervo Brasiliana no Itaú Cultural
Vida de Guia
Ciro Albano – ornitólogo e guia de observação de aves
Conta histórias de 10 anos como guia de observação, suas experiências e conquistas
Aves do Cristalino
Edson Endrigo – fotógrafo e guia de observação de aves
Lançamento do livro Aves do Cristalino, sobre a avifauna do Parque Estadual do Cristalino (MT).
História Natural de Aves
Ivan Sazima  – Zoólogo e naturalista de répteis, aves, mamíferos e interações com plantas
Fala de um ponto de vista científico, em linguagem simples, sobre como as aves vivem
Um olho no Céu, outro na terra
Giuseppe Puorto – Herpetólogo
Vai ensinar aos observadores de aves como evitar acidentes com serpentes, e o que fazer caso ocorram.
Lobo-guará e Inhambu-carapé, duas espécies ameaçadas
Marcos Amend – fotógrafo e conservacionista
O fotógrafo explica como conseguiu a imagem de uma espécie muito rara em uma situação mais rara ainda
E, de bônus:
Exposição Luis Claudio Marigo 
Obras do grande mestre da fotografia de natureza, que nos deixou em 2014.
Também haverá apresentações artísticas, como shows do Coralusp e da cantora Renata Pizi (uma apresentação só com músicas que falam de aves), além de atividades de observação na própria área verde do Butantan. Um programa imperdível para toda a família.

A nova torre do Jardim Botânico de Manaus

Nascer do sol no alto da torre – Foto: Zé Edu Camargo

Uma área de mata conservada, com 100 km2, no coração da Amazônia, já seria um lugar interessante o suficiente para os observadores de aves. Mas a reserva Ducke (onde fica o Jardim Botânico de Manaus) vai além: nos limites do perímetro urbano da capital do Amazonas, ela tem fácil acesso. E agora permite aos birders uma experiência que só alguns hotéis de selva ofereciam: uma torre novinha, acima da copa das árvores.

Na Amazônia, torres de observação mostram-se imprescindíveis. Como o dossel da floresta (a copa das árvores) é o habitat mais rico para aves e diversos outros animais, o birding é muito limitado no nível do chão. Uma torre como a de Manaus é ouro puro, ainda mais instalada em uma reserva de mata enorme como a Ducke. E o efeito será sentido não só entre os birders, mas também no número de registros novos e (por que não?) inéditos. Além de permitir a iniciação de um grande número de novos observadores locais. Por fim, também vai trazer aos observadores de outros lugares do país e do exterior uma opção que Manaus ainda não tinha.  Para conhecer a nova torre o ideal é marcar com antecedência com um guia autorizado pelo MUSA (Museu da Amazônia, que administra o Jardim Botânico).

Observadores podem conseguir autorização para entrar mais cedo (os visitantes comuns formam grupos para visitas guiadas a partir de 8h). A bióloga Marina Maximiano (marimaxbio@gmail.com) é um dos guias do museu que pode levar observadores à torre.

Saíra-negaça – Foto: Zé Edu Camargo
Arapaçu-galinha – Foto: Zé Edu Camargo

As aves de Jonathan Franzen no Brasil

Jonathan Franzen, autor de Como Ficar Sozinho. Foto: reprodução.

Ser capa da revista Time não é para qualquer um. Se o qualquer um for um escritor, mais difícil ainda. Jonathan Franzen mereceu a proeza, com uma chamada de responsa: O Grande Romancista Americano. Autor de Correções e Liberdade, estrela da última Flip (Festa Internacional Literária de Paraty), ele teve o livro de ensaios Como Ficar Sozinho lançado este ano no Brasil.

Bom, ok, beleza, e o que ele faz num blog destes? – você pode estar se perguntando. Franzen é um birder. Apaixonado. Dizem as boas línguas que a chance de passarinhar por aqui foi um forte motivo de convencimento para a vinda dele durante a Flip. Chance não desperdiçada. O escritor explorou a Mata Atlântica de Ubatuba na companhia de Dimitri Matozsko, birder e proprietário do Itamambuca Eco Resort. A pedido do blog, Dimitri mostra cinco aves que Franzen observou por lá (as fotos estão no fim do post). “O escritor é um baita cara legal – e também um sortudo. Conseguiu ver uns bichos difíceis, que não aparecem toda hora, como o chocão-carijó”, entrega o brasileiro.

Mas antes das aves de Franzen, vale uma palhinha sobre Como Ficar Sozinho. O livro reúne ensaios escritos em épocas diferentes, mas há uma unidade, um cerzido invisível entre eles. O tom confessional quase sempre está presente – e garante os trechos mais bacanas. Logo no primeiro texto, A dor não nos matará (na verdade, um discurso no Kenyon College de 2011) o escritor fala da descoberta do birding, e como isso alterou rumos em sua vida. Outros capítulos têm temas mais pesados, como o mal de Alzheimer e a indústria do cigarro. Ou o suicídio de um amigo, no ensaio Mais distante. Neste texto, aliás, o birding também está presente. E um trecho vale destaque (a tradução é de Oscar Pilagallo):

Quando busco novas espécies de pássaros, estou atrás sobretudo da autenticidade perdida, dos vestígios de um mundo devastado por seres humanos mas ainda lindamente indiferente a nós; vislumbrar um pássaro raro que de alguma maneira persiste em sua vida de procriar e se alimentar é um prolongado deleite transcedental. 

Quer mais? Compre o livro. Aí embaixo, algumas espécies que encantaram Franzen em Ubatuba. Tanto as fotos como os comentários nas legendas são de Dimitri Matozsko.

Chocão-carijó – Canta alto e forte, marca presença pela voz, mas conseguir observá-lo de perto é muito raro. Quando quis mostrá-la ao Jonathan fui na fé – e não é que a ave veio e ficou pertinho? Incrível. Um momento raro nestes muitos anos de mato.

 

Topetinho-verde – Quem não fica encantado com um minúsculo beija-flor tão repleto de detalhes que são quase impossíveis de ver a olho nu?

 

Cuspidor-de-máscara-preta – Discreta e simpática, essa ave só vive em matas fechadas, com pouca luminosidade.
Choquinha-cinzenta – Discreta e irrequieta, não para. Normalmente associada a outras espécies, não é comum de se encontrar. Três minutos após mostrar o chocão-carijó consegui deixar esta pequena avezinha a dois metros do Jonathan. Mais uma bela surpresa.

 

 

 

 

Birding nos tepuis venezuelanos

Região dos tepuis. Foto de Thiago Laranjeiras.

Você já viu o filme Up, Altas Aventuras? Leu o livro O Mundo Perdido, romance de Arthur Conan Doyle? Já ouviu falar do Monte Roraima? Então você deve ter uma ideia do que sãos os tepuis. Essas formações rochosas, em forma de gigantescas mesas, são encontradas no norte do Brasil, na região da fronteira com a Venezuela e Guiana. As florestas e outras formações altas do lado venezuelano foram o destino de Marcelo Camacho e Thiago Laranjeiras em uma expedição recente, na qual foram feitos vários registros raros. Atendendo a um pedido meu, Marcelo escreveu um relato, que está aí embaixo.

Passarinhando nos tepuis  

por Marcelo Camacho

A convite do guia de birding Thiago Laranjeiras fui conhecer as aves dos tepuis, na estrada conhecida como La Escalera, na Venezuela. Trata-se de um trecho de uma rodovia que cruza o Parque Nacional Canaima. Chegamos à comunidade conhecida como Rápidos de Kamoiran, a 200 km da fronteira com Roraima, onde nos hospedamos, numa tarde no fim de julho.

Desde o princípio, martelava em minha cabeça a imagem do L. streptophorus (cricrió-de-cinta-vermelha), que o Thiago havia fotografado em sua viagem anterior. Após percorrermos os primeiros 30 km, paramos pela primeira vez – e avistamos uma ave na copa de uma árvore. De dentro do carro fiz a foto. Era ele! Primeira ave avistada e lá estava o bicho. Mas ele logo voou e deixou aquela sensação de situação mal resolvida. Eu queria vê-lo mais próximo. Foi só então que comecei a pensar em outras espécies, mas sempre com aquele incômodo de não saber se o veria novamente.

No dia seguinte, saímos às seis da manhã para 13 horas muito produtivas de observação. Avistamos quatro bandos mistos, com espécies como T. guttata (saíra-pintada), T. xanthogastra (saíra-de-barriga-amarela), T. gyrola (saíra-de-cabeça-castanha), T. chilensis (sete-cores-da-amazônia), M. oleagineus (pipira-olivácea) e T. argentea (saíra-de-cabeça-preta).

Durante boa parte de nossas andanças era frequente o canto do S. macconnelli (joão-escuro), mas registrá-lo se mostrava impraticável. Após dois dias de tentativa eu já estava convencido de que seria impossível fotografá-lo com o tempo que tínhamos. Num lance de pura sorte, eis que ele nos dá dois segundos de chance e eu consigo um registro meio de susto. Mais tarde descobri que são raríssimos os registros fotográficos dessa espécie. Não é pra menos.

Antes disso, ainda no primeiro dia, já com pouca luz, consegui um registro do S. phelpsi (taperuçu-dos-tepuis), que passava sobre nossas cabeças em alta velocidade. Nesse mesmo dia conseguimos outros registros como o do R. adusta (joão-de-roraima), H. roraimae (chorozinho-de-roraima) e T. personatus (surucuá-mascarado). O dia seguinte foi igualmente proveitoso. Encontramos alguns bandos mistos e outras aves isoladas. Destaco: P. nigrifrons (maria-de-testa-preta), C. demissa (joão-do-tepui), V. kirkii (pica-pau-de-sobre-vermelho), C. rubiginosus (pica-pau-oliváceo), H. sclateri (vite-vite-do-tepui), X. uniformis (dançarino-oliváceo), A. personatus (tico-tico-do-tepui), P. cornuta (dançador-de-crista) e B. bivittatus (pula-pula-de-duas-fitas).

Final de tarde na rodovia, terceiro dia de longas jornadas diárias, estávamos eu e Thiago apoiados no carro no acostamento. Nesse trecho a rodovia corta a floresta alta e já havia sombra em ambos os lados da estrada nas árvores da mata. Sem muita esperança o Thiago tocou o playback do cricrió-de-cinta-vermelha. No alto passaram dois pássaros. Mais uma vez o playback e eles desceram. Depois de algumas fotos a uns 10 metros, o macho pousa no único ponto da vegetação com sol em um tronco pendido baixo sobre o acostamento. A viagem estava mais do que ganha.

No quarto dia passarinhamos pela manhã e às 10h já estávamos a caminho do Brasil. Almoçamos em Santa Helena de Uairén e no meio da tarde chegamos a Boa Vista.

O contato do guia Thiago Laranjeiras, para quem quiser se aventurar nos tepuis, é thorsi.falco@gmail.com.

Cricrió-de-cinta-vermelha. Foto de Marcelo Camacho.

 

 

 

O mercado de turismo e a observação de aves

Apenas alguns anos atrás, era coisa de doido imaginar um mercado para o birding no Brasil. Atividade antiquíssima na Europa e na América do Norte, a observação de aves engatinhava por aqui. Contavam-se nos dedos os hotéis com alguma estrutura e os guias especializados. Apenas para comparação, dados de 2006 do U.S. Fish & Wildlife Service apontavam que o birdwatching gerava uma contribuição de US$ 36 bilhões à economia norte-americana. Aqui, no entanto, tudo parecia mal parado.

Mas apenas parecia. O birding avançou cinquenta anos nos últimos cinco. E as comprovações começam a aparecer. Com números, inclusive. Os primeiros resultados do Censo Brasileiro de Observação de Aves traz resultados surpreendentes. Promovido pela Avistur com o apoio de outras entidades, ele foi dividido em dois: um censo para birders e outro para hotéis/destinos. É neste último que estão as boas surpresas.

Quem esteve na feira Avistar este ano em São Paulo ou no Rio percebeu a grande presença de cidades turísticas divulgando seus locais de birding. O Censo vem confirmar o surgimento dessas estruturas específicas. Foram 500 respostas. Ou seja, 500 estabelecimentos que têm alguma relação com a atividade, um número excelente. Você pode conferir todos os resultados aqui, mas vamos destacar alguns pontos.

Dois terços dos estabelecimentos consultados já receberam observadores de aves. E 25% deles começaram na atividade nos dois últimos anos (2010 e 2011), um crescimento fantástico. Quase metade são pousadas, que associam o birding à hospedagem. E a maioria começou a receber birders depois de convidar pesquisadores/fotógrafos/guias para conhecer o local. Aqui vale um parêntese. Apesar desse número, nem só de ações isoladas vive a divulgação do birding. A Associação de Hotéis Roteiros de Charme organizou este ano entre seus associados uma iniciativa para promover a atividade – deve publicar em breve em seu site uma área só para o birding, com a lista de aves de cada hotel participante.

Conclusão, começamos a ter um mercado de turismo de observação de aves no Brasil. E ele cresce a taxas chinesas. Um turismo sustentável, que exige áreas conservadas – e gera recursos para a conservação. Nada melhor.