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As aves de Jonathan Franzen no Brasil

Jonathan Franzen, autor de Como Ficar Sozinho. Foto: reprodução.

Ser capa da revista Time não é para qualquer um. Se o qualquer um for um escritor, mais difícil ainda. Jonathan Franzen mereceu a proeza, com uma chamada de responsa: O Grande Romancista Americano. Autor de Correções e Liberdade, estrela da última Flip (Festa Internacional Literária de Paraty), ele teve o livro de ensaios Como Ficar Sozinho lançado este ano no Brasil.

Bom, ok, beleza, e o que ele faz num blog destes? – você pode estar se perguntando. Franzen é um birder. Apaixonado. Dizem as boas línguas que a chance de passarinhar por aqui foi um forte motivo de convencimento para a vinda dele durante a Flip. Chance não desperdiçada. O escritor explorou a Mata Atlântica de Ubatuba na companhia de Dimitri Matozsko, birder e proprietário do Itamambuca Eco Resort. A pedido do blog, Dimitri mostra cinco aves que Franzen observou por lá (as fotos estão no fim do post). “O escritor é um baita cara legal – e também um sortudo. Conseguiu ver uns bichos difíceis, que não aparecem toda hora, como o chocão-carijó”, entrega o brasileiro.

Mas antes das aves de Franzen, vale uma palhinha sobre Como Ficar Sozinho. O livro reúne ensaios escritos em épocas diferentes, mas há uma unidade, um cerzido invisível entre eles. O tom confessional quase sempre está presente – e garante os trechos mais bacanas. Logo no primeiro texto, A dor não nos matará (na verdade, um discurso no Kenyon College de 2011) o escritor fala da descoberta do birding, e como isso alterou rumos em sua vida. Outros capítulos têm temas mais pesados, como o mal de Alzheimer e a indústria do cigarro. Ou o suicídio de um amigo, no ensaio Mais distante. Neste texto, aliás, o birding também está presente. E um trecho vale destaque (a tradução é de Oscar Pilagallo):

Quando busco novas espécies de pássaros, estou atrás sobretudo da autenticidade perdida, dos vestígios de um mundo devastado por seres humanos mas ainda lindamente indiferente a nós; vislumbrar um pássaro raro que de alguma maneira persiste em sua vida de procriar e se alimentar é um prolongado deleite transcedental. 

Quer mais? Compre o livro. Aí embaixo, algumas espécies que encantaram Franzen em Ubatuba. Tanto as fotos como os comentários nas legendas são de Dimitri Matozsko.

Chocão-carijó – Canta alto e forte, marca presença pela voz, mas conseguir observá-lo de perto é muito raro. Quando quis mostrá-la ao Jonathan fui na fé – e não é que a ave veio e ficou pertinho? Incrível. Um momento raro nestes muitos anos de mato.

 

Topetinho-verde – Quem não fica encantado com um minúsculo beija-flor tão repleto de detalhes que são quase impossíveis de ver a olho nu?

 

Cuspidor-de-máscara-preta – Discreta e simpática, essa ave só vive em matas fechadas, com pouca luminosidade.
Choquinha-cinzenta – Discreta e irrequieta, não para. Normalmente associada a outras espécies, não é comum de se encontrar. Três minutos após mostrar o chocão-carijó consegui deixar esta pequena avezinha a dois metros do Jonathan. Mais uma bela surpresa.

 

 

 

 

Itamambuca, um parque temático para observadores de aves

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Os comedouros do resort estão sempre cheios.

 

Aos poucos, o mercado de turismo vem descobrindo o birdwatching. Há dez anos, contavam-se nos dedos os hotéis e pousadas que tinham alguma estrutura específica para a observação de aves. Hoje, por todo o país, já temos estabelecimentos que, se não são especializados, têm pelo menos algum tipo de apoio para a atividade – guias que conhecem as espécies locais, por exemplo.

Entre os pioneiros na atividade está o Itamambuca Eco Resort, em Ubatuba, no litoral paulista. Não que ele seja só voltado para o birdwatching. O público majoritário por lá ainda são as famílias com crianças, que querem aproveitar a praia e a estrutura de lazer. Mas, aos poucos, o hotel vem conseguindo um público apaixonado pelas aves da Mata Atlântica – inclusive estrangeiros.

Minha preocupação aqui é dar um panorama do que o observador pode encontrar por lá. O hotel é uma ótima opção para quem começa a mergulhar nesse mundo do birdwatching. O resort não fica exatamente na praia (é preciso atravessar pequeno rio Itamambuca para chegar até ela), mas tem a seu favor uma boa área verde, que margeia o rio. O contato com as aves começa nos comedouros instalados pelo hotel, sempre cheios de beija-flores e aves multicoloridas como a saíra-militar e a saíra-sete-cores. No site do hotel na internet há uma câmera ao vivo mostrando um dos comedouros.

Para quem está começando a fotografar aves, esses comedouros são uma boa opção – dá para testar todo o potencial do seu equipamento em um ambiente com muitas aves. Um deles tem até um blind (uma espécie de cortina camuflada, que esconde o observador/fotógrafo), que permite fotos sem assustar as aves. Mas o resort oferece mais do que isso. Há uma pequena trilha pela mata, onde podem ser encontradas espécies mais arredias, como o surucuá-variado. Ela chega até a margem do rio, onde sempre há martins-pescadores e outras aves aquáticas – inclusive o savacu-de-coroa. E o próprio curso d’água é uma atração. O resort promove um passeio de barco subindo o rio Itamambuca, numa chalupa bem estável, de onde dá para fotografar sem sustos. O guia Wandel está acostumado a levar birdwatchers, e sabe onde estão aves muito interessantes, como o pula-pula-ribeirinho e o garrinchão-de-bico-grande. Por fim, a praia, cercada por costões, também tem boa diversidade, com gaivotas e maçaricos.

Com sorte, inclusive, pode-se topar com aves muito, muito raras na própria mata do hotel. É o caso do apuim-de-costas-pretas (Touit melanonotus), uma espécie de periquito de ocorrência super restrita. A primeira foto do bicho na história foi feita no hotel. Para ser mais exato, dentro de um escritório – uma história deliciosa que você lê clicando aqui.

Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) – Foto Zé Edu Camargo
Pica-pau-de-cabeça-amarela (Celeus flavescens) – Foto Zé Edu Camargo
Saíra-militar (Tangara cyanocephala) – Foto Zé Edu Camargo
Casal de saí-verde (Chlorophanes spiza), ISO 1600, Abertura F8, Velocidade 1/100, Distância Focal 400mm, Foto Zé Edu Camargo
Casal de saí-verde (Chlorophanes spiza), ISO 1600, Abertura F8, Velocidade 1/100, Distância Focal 400mm, Foto Zé Edu Camargo
Garrinchão-de-bico-grande (Cantorchilus longirostris), ISO 1600, Velocidade 1/200, Abertura F8, Distância Focal 400mm. Foto Zé Edu Camargo
Garrinchão-de-bico-grande (Cantorchilus longirostris), ISO 1600, Velocidade 1/200, Abertura F8, Distância Focal 400mm. Foto Zé Edu Camargo