observação de aves na Amazônia

​Parque do Viruá: megadiversão na Amazônia

Pica-pau-amarelo – Foto: Zé Edu Camargo
O trocadilho no título aí em cima é um pouco infame. Mas dá a medida da emoção que um observador de aves pode experimentar em uma área com megadiversidade (de fauna e flora) da Amazônia brasileira. O Parque Nacional do Viruá, em Roraima, é um dos hotspots com mais potencial de crescimento para a observação de aves na América do Sul. Motivos não faltam: são mais de 500 espécies de aves já catalogadas na área. Com floresta de terra firme, floresta de várzea, campinas e lavrados em sua área, o parque abriga raridades e espécies ameaçadas.
Chora-chuva-de-asa-branca – Foto: Zé Edu Camargo
Ariramba-de-cauda-verde – Foto: Zé Edu Camargo
Aos poucos os observadores têm descoberto essa joia. De Boa Vista (capital do estado, onde está o aeroporto mais próximo) são pouco mais de duzentos quilômetros de asfalto em boas condições até a entrada do parque. Desntro da área, muitos dos principais locais de observação têm acesso muito fácil, graças a um fato inusitado: uma estrada que leva a lugar nenhum. A Estrada Perdida, como é chamada, é um trecho abandonado da rodovia que liga Boa Vista a Manaus. Após algumas dezenas de quilômetros, os engenheiros desisitiram do trajeto (graças às dificuldades com baixios e áreas alagáveis) e procuraram outro caminho para a rodovia. Assim, o trecho construído (mas não asfaltado) foi abandonado e, mais tarde, inbcorporado pelo parque Nacional.
Araracangas – Foto: Zé Edu Camargo
Rabo-de-arame – Foto: Zé Edu Camargo
Mas nem só na Estrada Perdida é que se podem encontrar aves interessantes. As margens dos rios que cortam o parque, como o Baruana, e as florestas de terra firme nos arredores da sede também são ótimos pontos.
Uma das estrelas do lugar é uma espécie que pode ser vista até com relativa facilidade (ainda mais se comparado a outros lugares no Brasil e na Venezuela onde ela ocorre): o formigueiro-de-yapacana (Aprositornis disjuncta). Mas há muitas outras, como o rabo-de-arame (Pipra filicauda) e a ariramba-de-cauda-verde (Galbula galbula). Também há muitas aves migratórias, o que torna cada viagem ao Viruá uma surpresa.
Formigueiro-de-yapacana – Foto: Zé Edu Camargo

A nova torre do Jardim Botânico de Manaus

Nascer do sol no alto da torre – Foto: Zé Edu Camargo

Uma área de mata conservada, com 100 km2, no coração da Amazônia, já seria um lugar interessante o suficiente para os observadores de aves. Mas a reserva Ducke (onde fica o Jardim Botânico de Manaus) vai além: nos limites do perímetro urbano da capital do Amazonas, ela tem fácil acesso. E agora permite aos birders uma experiência que só alguns hotéis de selva ofereciam: uma torre novinha, acima da copa das árvores.

Na Amazônia, torres de observação mostram-se imprescindíveis. Como o dossel da floresta (a copa das árvores) é o habitat mais rico para aves e diversos outros animais, o birding é muito limitado no nível do chão. Uma torre como a de Manaus é ouro puro, ainda mais instalada em uma reserva de mata enorme como a Ducke. E o efeito será sentido não só entre os birders, mas também no número de registros novos e (por que não?) inéditos. Além de permitir a iniciação de um grande número de novos observadores locais. Por fim, também vai trazer aos observadores de outros lugares do país e do exterior uma opção que Manaus ainda não tinha.  Para conhecer a nova torre o ideal é marcar com antecedência com um guia autorizado pelo MUSA (Museu da Amazônia, que administra o Jardim Botânico).

Observadores podem conseguir autorização para entrar mais cedo (os visitantes comuns formam grupos para visitas guiadas a partir de 8h). A bióloga Marina Maximiano (marimaxbio@gmail.com) é um dos guias do museu que pode levar observadores à torre.

Saíra-negaça – Foto: Zé Edu Camargo
Arapaçu-galinha – Foto: Zé Edu Camargo

As torres do Cristalino

Rio Cristalino. Foto Zé Edu Camargo.

Na Amazônia, torres de observação costumam ser imprescindíveis para o birding. A explicação é simples: boa parte das espécies passa a vida na copa das árvores. Assim, observá-las do chão é tarefa muito difícil – não raro, impossível. No Brasil, contam-se nos dedos as torres de observação em meio à selva. E duas delas estão em um só lugar, a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) do Rio Cristalino, em Mato Grosso, na divisa do Pará. Ali está um dos pontos de sonho para qualquer birder brasileiro (e mesmo gringo), o Cristalino Jungle Lodge. Há pouco mais de um ano, estive ali preparando uma reportagem para a revista Viagem (publicada em junho do ano passado), acompanhado do fotógrafo (e também birder) Marcos Amend. Passamos quatro dias em busca de imagens. Não só de aves: foram ariranhas, jacarés, lontras, porcos-do-mato, jiboias e um sem-número de insetos (como as mais coloridas e imensas borboletas que já vi). Subimos o rio Cristalino até o parque estadual, em busca de onças – que não deram o ar da graça. E fizemos até uma incursão noturna na selva.

Mas é nas torres do Cristalino que o bicho pega – literalmente. O guia Jorge, que nos acompanhou, tem olhos e ouvidos atentos, acionando o playback para atrair um sem-número de aves diferentes a todo instante. Graças a ele vivi um dos momentos mais divertidos durante uma saída até hoje. Jorge atraiu um bando misto que passava perto da torre. E bando misto, por ali, significa uma turma do barulho, com saíras, gaturamos e até beija-flores. Era tanto bicho que eu não sabia onde focar primeiro. E rendeu ótimas fotos.

Nas torres também podem ser encontradas aves mais raras. Com sorte, até uma ou outra nem descrita pela ciência. Não se pode esquecer que ali foi descoberta uma nova espécie de ave de rapina, o falcão-críptico (Micrastur mintoni) há apenas dez anos. Entre as figurinhas não muito fáceis que encontrei, o capitão-de-cinta e o anambé-azul renderam os momentos mais bacanas. E também a marianinha-de-cabeça-amarela, uma espécie de psicitacídeo muito interessante, e que permitiu uma boa aproximação.

Chegar ao Cristalino é bem fácil. O acesso por avião é feito até Alta Floresta, no Mato Grosso. Dali são duas horas de 4×4 e mais uma hora e meia de barco, atravessando o Teles Pires e subindo o próprio rio Cristalino. Ah, os mesmo donos têm um hotel em Alta Floresta, onde há um trecho pequeno de mata. Pois bem, ali um casal de harpias (ou gaviões-reais) resolveu nidificar, já faz alguns anos. E em 2012 estava com um filhote. Coisa de cinema.

Anambé-azul. Foto Zé Edu Camargo

 

 

Marianinha-de-cabeça-amarela. Foto Zé Edu Camargo

 

Gaturamo-do-norte. Foto Zé Edu Camargo

 

Araçari-de-pescoço-vermelho. Foto Zé Edu Camargo

 

Garça-real – Foto: Zé Edu Camargo