observação de aves

Quer observar aves e ajudar a Ciência? Sim, você pode!

Batuiruçu-de-axila-preta, ave limícola e migratória – Foto: Zé Edu Camargo

Todo observador de aves pode dar sua contribuição à ornitologia. Compartilhar uma foto, um som ou um registro de observação em uma plataforma online (como wikiaves, ebird, táxeus, xeno-canto tec) já é um bom passo. Esses registros ajudam os pesquisadores a definir melhor migrações e outros comportamentos, por exemplo. Algo que demandava um esforço enorme de pesquisa há alguns anos hoje está ao alcance de alguns cliques. O problema é que nem todo observador faz isso de maneira regular. Por isso surgem algumas iniciativas para estimular esse tipo de colaboração.

Durante o Avistar Brasil, a Save (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil) irá cadastrar observadores que se propõem a registrar aves limícolas (aquelas espécies identificadas com ambientes à beira-d’água, muitas delas migratórias, como maçaricos e batuíras). Quem passar pelo estande de número 26 pode fazer a inscrição e ganhar um kit de boas-vindas. Depois é só fazer a contagem sempre que possível e submeter ao site eBird (ebird.org/content/brasil). A ideia é ajudar os pesquisadores a definirem ações para a conservação de aves e dos ambientes onde elas ocorrem. O Avistar Brasil ocorre de 20 a 22 de maio (sexta a domingo) no Instituto Butantan, em São Paulo.

Ambientes como estuários de rios, represas, manguezais e praias são muito procurados por aves limícolas – Foto: Zé Edu Camargo

Avistar Brasil 2016 vai revelar espécie reencontrada após décadas desaparecida

Observadores em ação: Avistar 2016 está cheio de novidades – Foto: Zé Edu Camargo

“Acima de tudo, tudo bem”. Esse mantra poderia se aplicar de modo perfeito a Guto Carvalho, organizador do Avistar Brasil, maior evento de observação de aves do país. Ele é um aglutinador – de ideias, de pessoas, de iniciativas. Por isso o Avistar Brasil colhe um sucesso após o outro, ano após ano. Em 2016 (atenção: começa na sexta-feira e vai até domingo – entre 20 e 22 de maio) o evento ocupa mais uma vez o Instituto Butantan, em uma parceria muito feliz. A programação está recheada. Uma das palestras deve chamar todas as atenções: pesquisadores irão revelar qual é a espécie brasileira desaparecida há décadas e recentemente encontrada. Mas ninguém melhor do que o próprio Guto para apontar o que há de melhor na programação do Avistar:

Blog:  Será o segundo ano do evento no Instituto Butantan. Quais as principais novidades no Avistar Brasil 2016?

Guto Carvalho: O Instituto Butantan tem uma forte tradição na prática de Ciência Cidadã que vem desde o século passado, com o trabalho pioneiro de Vital Brasil com as serpentes envolvendo a população. Mais recentemente a criação do Observatório de Aves potencializou em muito essa prática. Isso vai ao encontro dos objetivos do Avistar, de promover o conhecimento e conservação das aves brasileiras. A programação de 2016 reforça essa tendência e aprofunda caminhos que já vínhamos trilhando. Destacamos os cinco ciclos temáticos de palestras que complementam o Congresso Avistar, abordando temos como Cuidados em Campo, Arte Natureza e Tecnologia, Birdwatching e Unidades de Conservação, entre outros.

Blog:  Uma característica do Avistar é ir além da observação de aves, unindo ciência, turismo e cultura em um grande caldeirão. Dá para adiantar alguma surpresa?

Guto Carvalho: Bem, temos uma grande surpresa a revelar: a redescoberta de uma espécie desaparecida há décadas, extremamente ameaçada e os esforços para sua conservação. Além disso teremos o fascinante relato sobre a expedição à Serra da Mocidade, por Mario Cohn Haft.

Teremos exposições fotográficas incríveis, como a Floresta Viva de Luciano Candisani e uma inédita feira de trocas de sementes e mudas. Além disso os participantes serão convidados a participar de um concurso fotográfico sobre a biodiversidade do Butantan, com ótimos prêmios.

Os destaques continuam no lançamento de livros e sessões de autógrafos, com Terra Papagalli de Eduardo Brettas e LF Silveira, Tucanos e Araçaris de Fredy Pallinger e o livro de Cristian Dimitrius: Brasil Selvagem, só para ficar em alguns exemplos.

Blog: A presença internacional é outra constante do evento. O que esperar dos gringos nesta edição?

Guto Carvalho: Temos a honra de contar com presença de John Fitzpatrick, diretor do renomado Laboratório de Ornitoogia da Universidade de Cornell, um dos maiores centros de estudo das interações entre ornitologia e birdwatching. Além disso uma série de palestrantes da América Latina falando sobre a diversidade de aves de nossa região e também Catherine Hamilton. uma das mais importantes artistas naturalistas que estará de volta ao Avistar

Blog: O Instituto Butantan é um dos pontos mais procurados por famílias no fim de semana. Que atividades as crianças encontrarão?

Guto Carvalho: O ninho de joão-de-barro é um grande destaque, a garotada pode participar da construção do “ninho gigante” e meter a mão no barro. Além disso teremos oficinas, arte e histórias do Palmito Jussara.

Para ver a programação completa acesse http://avistarbrasil.com.br/

Época de migração

Fêmea de azulinho no Ibirapuera – Foto: Zé Edu Camargo

A frente fria na virada de abril para maio pegou muita gente de calça curta – literalmente. No sul, no sudeste, no centro-oeste e até no sul da Amazônia o frio chegou chegando a bordo de uma nova frente, destronando o calorão. Com a mudança, já se percebe um movimento migratório de aves que começaram a se deslocar em busca de novas paragens – com mais alimento ou com um clima mais ameno. Assim, algumas espécies fazem aparições inesperadas em locais onde não são vistas com frequência. “ A diminuição na duração dos dias e a queda da temperatura com a chegada do outono são o sinal que muitas espécies de aves utilizam para iniciar suas jornadas migratórias rumo ao norte. Um detalhe não muito conhecido é que, diferente dos rapinantes e outras aves de maior porte, muitos passeriformes migram principalmente a noite, descansando e se “reabastecendo” durante o dia em pontos de parada ao longo da rota. Se um sabiá-ferreiro está migrando do Rio Grande do Sul para o leste da Amazônia e com o raiar do dia está sobrevoando a cidade de São Paulo ele irá descer em alguma área mais arborizada e passar um ou poucos dias ali, “caindo na estrada” de novo com o cair da noite. Ontem mesmo um sabiá-ferreiro passou o dia forrageando em frente a minha janela no Instituto Butantan e hoje de manhã nem sinal dele, que deve estar agora em algum lugar no oeste de Minas Gerais ou sul de Goiás. Isso é muito mais que legal, isso é incrível!”, diz Luciano Lima, ornitólogo do Observatório de Aves – Instituto Butantan.

Cigarra-bambu, outra espécie de passagem pelo parque - Foto: Zé Edu Camargo
Cigarra-bambu, outra espécie de passagem pelo parque – Foto: Zé Edu Camargo

No último fim de semana de abril, Luciano e o ornitólogo Marco Silva conduziram mais de 50 observadores durante o #vempassarinhar, uma atividade que ocorre uma vez por mês na mata do Instituto Butantan, em São Paulo, mas que agora passa a se revezar com outros parque públicos da capital paulista, numa parceria do Butantan com o Depave (Departamento de Parques e Áreas Verdes) e a ONG SAVE Brasil. Desta vez, o escolhido foi o Parque do Ibirapuera, na Zona Sul. Entre as aves residentes (como o mergulhão-caçador e o socozinho), os observadores puderam encontrar espécies que estão só de passagem, como uma fêmea de azulinho (Cyanoloxia glaucocaerulea). Segundo Luciano Lima “o azulinho é uma das muitas espécies de aves brasileiras que fazem movimentos migratórios e cuja as rotas e a área de invernada são praticamente desconhecidos. Nos Estados Unidos, registros enviados por observadores para a plataforma eBird estão ajudando a desvendar muitos mistérios sobre migração de aves. No Brasil, além do eBird, temos o WikiAves, uma fonte valiosíssima de informações que é prontamente acessível  e que está revolucionando nosso conhecimento sobre a avifauna brasileira. Nesse momento, por exemplo, estamos trabalhando em um artigo sobre movimento migratório do urutau, utilizando basicamente informações presentes no WikiAves”.

Garça-branca-pequena – Foto: Zé Edu Camargo

Entender melhor como se dá essa migração é um fator essencial para a conservação. E os observadores podem dar uma ajuda valiosa aos pesquisadores, simplesmente registrando as aves que viram em plataformas como o eBird ou táxeus – ou mesmo submetendo fotos e sons ao WikiAves. Colabore também!

Dia do Observador de Aves: motivos para se preparar – e celebrar também

Jandaias-de-testa-vermelha – Foto: Zé Edu Camargo

Em 28 de abril comemora-se Dia do Observador de Aves por aqui. Os observadores formam uma comunidade que cresce a cada dia e hoje já movimenta o turismo de várias regiões pelo Brasil. Nos últimos anos o birdwatching (ou birding, ou observação de aves) ganhou um grande impulso. Esse destaque pode ser avaliado pelo grande sucesso do Avistar Brasil, um evento que este ano ocupa novamente o Instituto Butantan, em São Paulo, entre os dias 20 e 22 de maio.

O Avistar é um misto de feira, congresso e palco de exibições, com oficinas, palestras e atividades para adultos e crianças (confira a programação em http://www.avistarbrasil.com.br/). Um pouco antes disso, outro evento também promete repetir o sucesso de 2015 – o Global Big Day, um dia inteiro dedicado à observação de aves em todo o planeta, organizado pelo Cornell Lab of Ornithology e apoiado por várias entidades brasileiras, como a Save Brasil e o Observatório de Aves do Instituto Butantan (veja mais em http://ebird.org/content/brasil/noticia/global-big-day-participe/). Portanto, o Dia do Observador de Aves é em abril, mas o mês de maio também promete muita diversão e comemoração. Convém já ir se preparando.

Sul fluminense ganha importante área de conservação

Japacanins, aves comuns em brejos – Foto: Luciano Lima

O estado do Rio de Janeiro acaba de compor uma nova área de proteção ambiental. E não uma área qualquer: a Lagoa da Turfeira, um dos últimos remanescentes de áreas úmidas no sul do estado e importantíssima região para a conservação de aves residentes e migratórias. O novo Refúgio da Vida Silvestre da Lagoa da Turfeira fica em Resende, às margens do rio Paraíba do Sul. Trata-se de um exemplo de como poder público e iniciativa privada podem agir em conjunto para o bem comum. Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual, Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e a montadora Nissan (que tem presença na área) e outros órgãos estaduais e locais selaram o acordo que permitiu a criação da reserva. Mas isso não ocorreu sem luta. O ornitólogo Luciano Lima, de Resende, foi figura fundamental no alerta sobre os riscos que a lagoa sofria. Estudos dele e do colega Bruno Rennó demonstraram a elevada importância para a biodiversidade e a presença de aves ameaçadas na área. Luciano também foi um dos primeiros a levantar a questão que levou ao termo de ajustamento de conduta entre a Nissan e os agentes públicos – e que agora leva à ação prática de criação e manutenção do refúgio de vida silvestre.

Tricolinos, saracuras e mais de 170 outras espécies de aves agora têm assegurado o direito de viver e procriar em 269 hectares que incluem trechos de Mata Atlântica. Mas não só as aves serão beneficiadas: diversas espécies de mamíferos (como a jaguatirica) e de répteis (como os jacarés-de-papo-amarelo) também ocupam a região. No entanto, uma espécie sai ganhando mais que as outras: a Homo sapiens. E suas novas gerações vão comprovar isso.

Tricolino, espécie associada a juncais e taboais – Foto: Luciano Lima
Saracura-do-banhado, espécie arredia e difícil de visualizar – Foto: Luciano Lima
Lagoa da Turfeira, nova área de conservação no RJ – Foto: Luciano Lima

Dez dicas para começar a observar aves

Saíra-militar, ou saíra-de-lenço, espécie da Mata Atlântica – Foto: Zé Edu Camargo

Bom, se você já pensou um dia praticar o birdwatching e não sabia por onde começar, seus problemas (ou suas desculpas…) acabaram. Aqui está um pequeno guia sobre esta atividade divertida, inclusiva e que pode ser praticada por todas as idades. Vamos lá?

1) Comece por perto – Você vive em um dos melhores países para a observação de aves no mundo. O Brasil tem quase 2 mil espécies, das 10 mil conhecidas pela ciência. Então, aproveite isso. Na verdade, é mais do que provável que você consiga identificar um punhado de aves sem sair da cama, logo ao acordar. Quem nunca escutou um bem-te-vi, um sabiá-laranjeira ou um bando de periquitos no início da manhã? Eles estão em todo lugar. Se você sair de casa e caminhar para a praça ou o parque mais próximo, o número de espécies que você pode identificar pode chegar a algumas dezenas.

2) Faça listas –  Anotar em um caderninho (ou no seu celular) as espécies que você viu e identificou é o primeiro passo. De certo modo, todo observador é um colecionador de figurinhas – e os álbuns você mesmo cria. Pode ser o álbum Aves Que Vi na Vida, o álbum Aves do Parque X ou o álbum Aves do Mês de Setembro. Os guias de campo, livros com ilustrações, fotos e informações sobre as espécies, são uma boa leitura para acelerar o seu processo de aprendizagem. Nos últimos tempos vários (e ótimos) guias de campo têm sido publicados no Brasil. Alguns abrangem toda a nossa avifauna, outros são específicos para biomas (Mata Atlântica, Cerrado) ou de alguns lugares (Guia das Aves do Rio de Janeiro, Guia das Aves do Planalto Central, Guia das Aves do Parque do Ibirapuera…). Essas publicações também ajudam muito na hora de fazer uma lista.

3) Use a internet – No computador da sua casa ou em seu celular há uma infinidade de sites e aplicativos com informações sobre as aves. Mas, para atalhar caminho, recomendamos que você dê uma olhadinha no www.wikiaves.com.br. É um site colaborativo e gratuito que permite às pessoas compartilhar fotos e sons de aves brasileiras. Observadores mais experientes auxiliam os mais novos na identificação. E cada espécie tem uma página, com fotos, sons, características, comportamento, hábitat. Você pode também procurar a lista de aves que ocorrem na sua cidade e ordenar essa lista pelo número de registros. Começar a diferenciar as 30 ou 50 mais comuns é um ótimo primeiro passo. Depois vocês vai querer descobrir seus lifers, palavrinha que indica as aves que você ainda não viu. Veja no fim do post outros links úteis para quem está começando.

4) Não tenha vergonha de perguntar – Algumas espécies são muito parecidas, mesmo aos olhares mais atentos. “Ele era pequeno, amarelinho, com as asas marrons e o bico preto” é uma descrição que serviria para diversas espécies da nossa fauna. Então buscar ajuda de observadores mais experientes é fundamental. Se você não conhecer nenhum, sem problema. Há diversas comunidades no Facebook (além do próprio wikiaves) em que você pode procurar ajuda para identificar uma aves através de uma foto, um som gravado ou mesmo uma descrição.

5) Compre um binóculo – As aves nem sempre permitem uma aproximação suficiente para que você consiga diferenciar detalhes. Um binóculo, uma luneta ou mesmo uma câmera com zoom podem resolver esse problema. A escolha é sua e você não precisa gastar rios de dinheiro. Há binóculos de todos os preços e formatos. Vale a pena testar e escolher um que caiba no seu orçamento.

6) Acorde cedo – Não é lenda, a atividade das aves é mais intensa logo nas primeiras horas da manhã, principalmente em um país tropical como o nosso. O fim da tarde também costuma ser muito produtivo. Mas, é claro, essa regra não se aplica a todas as espécies e todos os lugares, é só uma noção geral. Em algum momento da sua história como observador você vai querer sair à noite para ver as corujas e os bacuraus, por exemplo. Mas isso já é outra história.

7) Chame os amigos – Um dos aspectos mais bacanas da observação de aves é que ela se torna mais divertida quando feita em grupo – a não ser que você seja um ermitão de carteirinha. Há muitas famílias que passarinham, às vezes com três gerações na mesma trilha.  Turmas de amigos também são comuns. Na sua cidade, no seu bairro, é bem possível que você encontre outros observadores. Às vezes eles se reúnem em clubes. Procure – ou faça –  a sua turma.

8) Volte ao mesmo lugar – Há aves que escolhem um lugar para viver e ficam por perto a vida toda. Outras estão sempre de passagem, pois param apenas um tempo (às vezes alguns meses, às vezes somente algumas horas) em meio à migração. Por causa disso, vale a pena voltar em diferentes épocas do ano a um mesmo lugar, pois sempre há surpresas.

9) Fique longe de ninhos – Sim, você pode observá-los, mas a uma distância segura. Nada de pegar uma escada para ver os ovinhos ou filhotinhos de perto. Mexer, então, nem pensar. E nem tocar o playback (reprodução do canto de uma ave, usado para atraí-la) nas proximidades. As aves são muito sensíveis quando estão nesta situação, e você pode acabar produzindo órfãos, mesmo sem querer.

10) Compartilhe a informação – Um dos aspectos mais incríveis da observação de aves é que você pode se divertir e contribuir com a ciência ao mesmo tempo. Compartilhe suas listas em sites como ebird.org ou taxeus.com.br e ajude a formar os mapas de ocorrência das espécies – isso vai dar uma baita mão aos pesquisadores de todo o mundo.

Águia-pescadora, espécie migratória – Foto: Zé Edu Camargo

Alguns links úteis:

www.wikiaves.com.br – site sobre identificação de aves brasileiras, como fotos e sons de nossas espécies, fórus de discussão e diversas páginas com informações úteis.

www.ebird.org – página do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell com um banco de dados colaborativo sobre as aves de todo o mundo. O site acaba de ganhar uma versão em português: http://ebird.org/content/brasil/

www.xeno-canto.org – uma base de dados com sons de aves de todo o mundo.

www.taxeus.com.br – site colaborativo para registros de aves, mamíferos e anfíbios do Brasil.

http://virtude-ag.com/ – site sobre observação de fauna e fotografia, com informações úteis, roteiros, notícias e artigos.

http://bonitobirdwatching.blogspot.com.br/ – blog da bióloga Tietta Pivatto, com muita informação sobre as nossas aves e o turismo de observação.

www.avistarbrasil.com.br – site da série de eventos Avistar, que ocorre em várias cidades brasileiras durante o ano, reunindo milhares de observadores, destinos de observação e empresas do setor.

http://revistapassarinhando.com.br/ – a primeira revista eletrônica sobre observação de aves no Brasil, pode ser lida no PC, em tablets e nos smartphones.

 

Livro primoroso reúne todos os papagaios, araras e periquitos do Brasil

“Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra”.

O trecho aí em cima vem da carta de Pero Vaz de Caminha, primeiro documento escrito sobre o Brasil, que já trazia algumas menções aos papagaios e periquitos. E, ao longo de nossa história, do Zé Carioca ao filme Rio, eles sempre estiveram associados à nossa imagem. Mas, apesar desta presença marcante, não eram abundantes os estudos e fontes de informação sobre as quase 100 espécies de psitacídeos que ocorrem em território nacional. Um parêntese: psitacídeo é uma palavra estranha mas de uso comum entre os biólogos para indicar papagaios e periquitos, em uma referência à família Psittacidae, que inclui nossos papagaios, periquitos, maitacas, araras, tiribas e maracanãs. Agora, o livro (mas o mais adequado seria dizer livrão, pela sua importância) Terra Papagalli vem cobrir com maestria muitas lacunas no nosso conhecimento destas aves. Obra de referência, mas que tem no visual e no cuidado gráfico um elemento fundamental, a obra traz as ilustrações do artista Eduardo Brettas (veja no final do post) em perfeita sintonia com o texto do pesquisador Luis Fabio Silveira, curador da coleção de ornitologia do Museu de Zoologia da USP. Um livro para apreciar como obra de arte e consultar como obra de referência. O lançamento ocorre no dia 9 de dezembro em São Paulo. Mais informações no book trailer:

Ilustração de Eduardo Brettas para o livro Terra Papagalli

Um tour de observação de aves pelo Peru

Quetzal-de-cabeça-dourada (Pharomachros auriceps) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Nossos vizinhos estão com tudo. O Peru vem se firmando no mapa mundial de birding graças a uma conjunção especial de fatores. Na geografia é um país diverso, da costa com pouquíssima chuva à selva amazônica, passando pelos Andes. Isso se reflete na grande variedade de aves (mais de 1800 espécies registradas). São muitas áreas de conservação (as reservas protegidas ocupam mais de 12% da área total do país). E o Peru tem se esforçado para atrair observadores, criando infraestrutura e promovendo a atividade no exterior. Os brasileiros já descobriram esses roteiros. O fotógrafo e guia de birdwatching Adrian Eisen Rupp tem organizado bem-sucedidas incursões pelo país. Aí embaixo um pequeno bate-bola com ele.

Blog: Quando se fala em Peru, todos associam com os Andes e o Pacífico. Quais outras regiões o país tem para a prática de observação de aves?

Adrian: Existem muitas opções em praticamente todo o país, e além da famosa península de Paracas e a região andina, temos as Yungas a leste da Cordilheira dos Andes que cortam o país de norte a sul, e a Amazônia. Cada vez que falamos em qualquer um destes biomas vale lembrar que existem as áreas de endemismo, e assim vários destinos em um mesmo bioma, mas sempre tendo aves diferentes para observar.

Blog: Quais as diferenças entre a Amazônia peruana e a brasileira?

Adrian: Com exceção da Amazônia pré-andina, não há diferença. A avifauna encontrada na bacia do Rio Madre de Díos remete a avifauna encontrada ao longo da Bacia do Rio Madeira no Brasil, temos ainda o Rio Purus que nasce no Peru e adentra o estado do Acre no Brasil, e a avifauna da bacia do Rio Amazonas corresponde a região biogeográfica do oeste do estado do Amazonas no Brasil. O diferencial fica pela infraestrutura turística para conhecer estas regiões no Peru, que é muito superior as correspondentes no lado brasileiro.

Blog: Quais são os principais objetivos de uma viagem de birding à região?

Adrian: Os destinos preferidos são os que oferecem roteiros de observação que mesclam os Andes, as Yungas e a Amazônia, tanto do norte do Peru quanto no sul. Uma viagem destas permite a observação de muitas espécies em poucos dias de viagem, e em trajetos relativamente curtos.

Blog: E a infraestrutura do país, como está? O que um observador pode esperar?

Adrian: O Peru é um país privilegiado por ter Machu Picchu, o que motivou investimentos no setor turístico que vão desde uma ampla rede de hotéis e eco-lodges até a formação acadêmica dos profissionais do ramo. Todo esse profissionalismo envolvido com o turismo arqueológico influenciou na qualidade do serviço oferecido no turismo de natureza. A maioria dos lodges tem alimentadores para aves, as trilhas são limpas, o café da manhã é servido bem cedo, muitos lodges amazônicos possuem torres para observação de aves e, mesmo nas áreas mais remotas do país, você encontra uma ótima infraestrutura a preços acessíveis.

O guia está organizando grupos para viagens ao Peru em julho e outras datas do segundo semestre. Mais informações pelo email birding@adrianrupp.com ou pelo site www.adrianrupp.com.
Socó-boi-escuro (Tigrisoma fasciatum) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Sanhaçu-de-coleira-dourada (Iridosornis jelskii) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Sanhaçu-de-cabeça-preta (Buthraupis montana) – Foto: Adrian Eisen Rupp

Aves alienígenas do Ibirapuera

Cardeal-do-nordeste – Foto Marco Silva

Depois do monumental A Capital da Solidão, o escritor Roberto Pompeu de Toledo lança agora outro título imperdível para quem vive em (viveu em, ou gosta de) São Paulo : A Capital da Vertigem. Como o próprio subtítulo diz, a obra trata da história da cidade de 1900 a 1954. Passa pelo início da industrialização, mostra a influência dos imigrantes, descreve eventos marcantes, como a Semana de Arte de 22 e a Revolução de 1924. E acaba no ano do IV Centenário, quando é inaugurado oficialmente o Parque do Ibirapuera (embora a área já fosse reconhecida há tempos como um parque).

Bom, mas você deve estar se perguntando: o que esse livro tem a ver com um blog de observação de aves? Simples: o livro é uma ótima fonte de informações sobre como se formou um dos melhores pontos para o birdwatching na cidade. Ele mesmo, o (nem tão velho e) bom Ibirapuera. No livro ficamos sabendo, por exemplo, que na área do parque já funcionava há um bom tempo antes da inauguração um viveiro de mudas capitaneado pelo “entomologista de formação, mas botânico por paixão” Manequinho Lopes. Ele é que plantou os primeiros eucaliptos por ali, para ajudar na drenagem da área alagadiça. Alguns destes eucaliptos (espécie de árvore australiana introduzida no Brasil) ainda devem estar por lá. E por eles circulam aves que também não “deveriam” estar ali.
Capa do livro A Capital da Vertigem – reprodução

O Ibirapuera, assim como a maior parte da cidade, é originalmente uma área de Mata Atlântica. No entanto, assim como a cidade recebeu inúmeros imigrantes (de outros países e de outras regiões do país) ao longo do tempo, também o parque abriga espécies alienígenas, que não ocorriam ali originalmente. Algumas delas hoje são atrações para os observadores, como o cardeal-do-nordeste, ou galo-de-campina (Paroaria dominicana). Diz a lenda que ele foi trazido de seu hábitat natural (a caatinga), por um prefeito, encantado por suas cores, iguais à da bandeira paulista. Certas espécies do Ibira vieram de continentes distantes, trazidas em navios, como o onipresente – e europeu por origem – pardal (Passer domesticus) e o africano bico-de-lacre (Estrilda astrild). E também há as que aqui chegaram na esteira do desmatamento, que ampliou sua área de ocorrência original, como a lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta) e o corrupião (Icterus jamacaii). Por fim, algumas espécies provavelmente foram introduzidas sem querer, ao escapar do cativeiro. É o caso do papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), hoje bem fácil de ver nas palmeiras do parque.

Certas aves encontradas no Ibirapuera também são migrantes no sentido biológico da palavra: estão ali só de passagem em determinada época do ano. Ou porque estão se deslocando dentro da própria Mata Atlântica ou porque vão e vêm em viagens bem mais longas, às vezes até entre hemisférios. Sorte dos observadores, que de tempos em tempos podem encontrar verdadeiras joias raras circulando entre skatistas e bikers. Em 2015, por exemplo, o martinho (Chloroceryle aenea) foi avistado na área, assim como o azulinho (Cyanoloxia glaucocaerulea). Os lagos do parque também estão cheios de aves aquáticas, algumas delas exóticas, outras bem brasileiras (e não é impossível que apareçam algumas visitantes do extremo norte na primavera ou no outono). Portanto, se você é paulistano (de nascença ou de adoção, tanto faz), #ficadica: corre pro Ibira.

Lago do Ibirapuera – Foto Zé Edu
Mergulhão-caçador – Foto Zé Edu

Brasil faz bonito em desafio mundial de observação de aves

Marrecas-toicinho no litoral do Rio de Janeiro – Foto: Zé Edu Camargo

Os resultados do Brasil no primeiro Global Big Day foram excelentes. Observadores de aves todo o país se esforçaram para aumentar o número de espécies e locais de observação, em todos os 27 estados. Chegamos a 1099 espécies, segundo lugar no geral, atrás somente do Peru (que já faz há alguns anos um trabalho fenomenal para estimular o birdwatching como uma opção de turismo sustentável).

Nossos hermanos conseguiram 1177 espécies. Os brasileiros contribuíram com 877 listas para o site eBird, um número pequeno diante dos norte-americanos (28.513), mas mesmo assim expressivo em relação aos nossos vizinhos. No geral, 124 países participaram (http://ebird.org/ebird/region/world?yr=bigday2015&m=&rank=mrec), e quase 6 mil espécies foram registradas (mais da metade do número mundial de espécies conhecidas).

No ano que vem tem mais. E o Brasil tem tudo para de novo fazer um bom papel neste desafio que, muito mais do que uma competição, é uma iniciativa para estimular a observação de aves (com resultados práticos para a ornitologia) em todo o mundo.