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Avistar à vista!

Condor na Patagônia: estrela do workshop em outubro. Foto: Arthur Morris/Divulgação

O evento que entrou de vez no calendário dos apaixonados por aves já tem data: 17 a 19 de maio em São Paulo. Mas o certo, talvez, seria dizer que ele já tem datas. Porque a edição de SP é apenas a primeira do ano. Já estão confirmados encontros no Rio, em Brasília, Santa Catarina e Minas Gerais. E a cereja do bolo, em outubro, é o Avistar Patagônia, um workshop de fotografia de aves com nomes internacionais de peso.

O evento em São Paulo abre o calendário com o Avistar Talks, um encontro delicioso com palestrantes multidisciplinares, que falam dos mais variados temas – a paixão pela aves é apenas um fio condutor comum. A feira, no Parque Villa Lobos, tem desde boas pechinchas em livros e viagens até encontros mais aprofundados com pesquisadores e fotógrafos. Esse clima é repetido nas outras edições do Avistar pelo Brasil, que sempre reúnem bom público e gente do meio.

Mas a grande novidade este ano é o Avistar Patagônia. Uma viagem a Torres del Paine com a possibilidade de aprender com grandes fotógrafos, como   Arthur Morris, David Tipling e o brasileiro Edson Endrigo, pesquisadores como Alvaro Jaramillo e especialistas em tratamento de imagens como Denise Ipolitto e Octávio Campos Salles. Tudo isso em meio à paisagem monumental da Patagônia, em uma estação especial para a observação e fotografia de aves.

Mais informações sobre o Avistar? Clique aqui. Para acessar o hotsite do Avistar Patagônia, é só entrar aqui.

 

 

Os incríveis campos nebulares de São Paulo

 

Campos nebulares no Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Curucutu

São Paulo dos Campos de Piratininga. São Bernardo da Borda do Campo. Os nomes antigos de duas cidades da Grande São Paulo dão a dica da vegetação que cobria boa parte da área antes da ocupação intensiva: os campos, extensões de vegetação baixa, entremeados por brejos e capões de mata, principalmente à beira de córregos e rios. Esse tipo de formação quase desapareceu da grande São Paulo. Quase. Porque ainda sobrevive um trecho de campos, chamados de campos nebulares (por causa da neblina que boa parte do dia, em qualquer época do ano, pode cobrir a região) dentro do município de São Paulo. Fica no pouco conhecido Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, em Marsilac, no extremo da Zona Sul da cidade, divisa com os municípios de São Vicente e Itanhaém.

“Imagina, a gente poderia estar andando pela avenida Paulista no século XVI, talvez a paisagem fosse essa”, diz o biólogo Fabio Schunck. Ele faz um monitoramento das aves no Núcleo Curucutu desde 2007, parte de seu plano de mestrado, apoiado pelo pesquisador Luis Fabio Silveira, do Museu de Zoologia da USP. Todos os anos na mesma data, Schunck arma 20 redes de neblina para capturar aves nos campos nebulares. Sua intenção é anilhar uma espécie migratória, a Elaenia chilensis, ou guaracava-de-crista-branca. “Elas passam por aqui sempre na mesma data, capturo os indivíduos, anoto as características biológicas, anilho, fotografo e solto. Depois de poucos dias, elas desaparecem. Ainda não recapturei nenhum exemplar anilhado, mas já anilhei 75 indivíduos. Qualquer hora algum pesquisador captura uma destas guaracavas em outra localidade da América do Sul. Os poucos estudos disponíveis mostram que elas migram do Chile, subindo pela região leste do Brasil até o nordeste, passando pela Caatinga, Cerrado, Amazônia e retornando ao Chile pelos Andes, para se reproduzir. Mas os estudos ainda são inconclusivos”, ele diz.

Além das guaracavas, muitas outras espécies caem nas redes de neblina, desde pequenos beija-flores até aves maiores, como andorinhões, arapongas e araçaris. O Núcleo Curucutu está entre as áreas com a maior diversidade de aves da Serra do Mar, são cerca de 350 espécies registradas até o momento. O parque tem uma trilha aberta à visitação, que leva a um mirante de onde, em dias claros, pode-se ver as cidades de Itanhaém, Monguaguá e Peruíbe, além da Serra da Jureia, a Ilha Queimada Grande e a Laje de Santos. “Em 2006, nessa trilha, avistamos o raro apuim-de-costas-pretas (Touit melanonotus), espécie que era pouco conhecida na época”, conta Schunck. O que torna o parque não só interessante para quem quer conhecer a paisagem original de boa parte da cidade, como também para os observadores de aves.

 

O biólogo Fabio Schunck retira uma ave da rede de neblina. Foto Zé Edu Camargo
Elaenia chilensis, espécie migratória que passa por São Paulo em março. Foto Zé Edu Camargo

Detalhe de um pitiguari anilhado durante o trabalho no Parque Estadual. Foto Zé Edu Camargo.
A neblina é comum durante parte do dia na região dos campos. Foto Zé Edu Camargo

Onde observar aves na cidade de São Paulo?

Mesmo sem querer, qualquer paulistano já deve ter notado: de repente, no meio de uma praça qualquer da cidade, aperece uma ave incomum: um pica-pau, um passarinho multicor, ou mesmo uma ave de rapina. Isso tem explicação. Apesar de ter se tornado uma megalópole, com milhões de pessoas, a capital é rodeada por áreas de Mata Atlântica, algumas originais, outras reconstituídas. Assim, a diversidade é grande na maior cidade da América do Sul. Esse foi o tema de uma entrevista que dei no programa de rádio Planeta Eldorado,  comandado por Paulina Chamorro e Marcos Lauro (basta clicar no link). De quebra, muita música.

No programa, no entanto, esqueci de citar o meu lugar preferido em São Paulo para observar aves. É o Jardim Botânico, na Zona Sul, perto do Jardim Zoológico e do Zoo Safári. As razões são várias. Além de uma enorme quantidade de aves na mata, o Jardim Botânico também tem lagos que recebem muitas aves aquáticas, como marrecas e garças. Com sorte, você consegue ver até mesmo espécies não tão comuns, como o lindo pavó (Pyroderus scutatus), ou o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus). Outros lugares excelentes na cidade são o Parque da Cantareira, a RPPN Curucutu, o Instituto Butantan e o velho e bom Parque do Ibirapuera. Mas desses eu vou falando em outros posts.

Periquito-rico no Parque do Ibirapuera – Foto Zé Edu Camargo