Aves

2017 vai voar

captura-de-tela-2016-12-07-as-19-15-54

São vários os fatores que apontam para um crescimento da observação de aves como atividade no país. Pouco a pouco surgem guias, destinos, hotéis com estrutura – e a cada dias mais gente posta listas, fotos e sons em plataformas como Wikiaves, E-bird ou Táxeus. Mas há um outro aspecto que leva à mesma ideia: a expansão dos eventos de observação por todo o país. O Avistar (principal evento do meio no Brasil) ganhou crias regionais. O #vempassarinhar, conceito que une observação de aves e ciência cidadã numa divertida passarinhada em grupo (e que nasceu no Observatório de Aves do Instituto Butantan) hoje se espalha em parques e áreas verdes de diversas cidades. E mesmo o conceito de Big Day pegou por aqui – no ano que vem vamos para a terceira edição do Big Day Brasil. Além disso, o tempo todo, observadores se unem para passarinhar, para trocar experiências, para criar atividades divertidas com as crianças.

Para tentar unir essas atividades (ou parte delas) em um único calendário, surge agora uma plataforma colaborativa online- uma iniciativa de várias entidades em conjunto. A ideia é simples: qualquer um pode cadastrar seu evento neste Link aqui. Assim os observadores podem se preparar e agendar a participação naqueles que consideram mais importantes ou interessantes. A plataforma foi lançada há poucos dias, mas já dá pra ver que 2017 promete. São dezenas de eventos programados. Que tal dar uma olhadinha e já ir se preparando para o ano novo?

Quer observar aves e ajudar a Ciência? Sim, você pode!

Batuiruçu-de-axila-preta, ave limícola e migratória – Foto: Zé Edu Camargo

Todo observador de aves pode dar sua contribuição à ornitologia. Compartilhar uma foto, um som ou um registro de observação em uma plataforma online (como wikiaves, ebird, táxeus, xeno-canto tec) já é um bom passo. Esses registros ajudam os pesquisadores a definir melhor migrações e outros comportamentos, por exemplo. Algo que demandava um esforço enorme de pesquisa há alguns anos hoje está ao alcance de alguns cliques. O problema é que nem todo observador faz isso de maneira regular. Por isso surgem algumas iniciativas para estimular esse tipo de colaboração.

Durante o Avistar Brasil, a Save (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil) irá cadastrar observadores que se propõem a registrar aves limícolas (aquelas espécies identificadas com ambientes à beira-d’água, muitas delas migratórias, como maçaricos e batuíras). Quem passar pelo estande de número 26 pode fazer a inscrição e ganhar um kit de boas-vindas. Depois é só fazer a contagem sempre que possível e submeter ao site eBird (ebird.org/content/brasil). A ideia é ajudar os pesquisadores a definirem ações para a conservação de aves e dos ambientes onde elas ocorrem. O Avistar Brasil ocorre de 20 a 22 de maio (sexta a domingo) no Instituto Butantan, em São Paulo.

Ambientes como estuários de rios, represas, manguezais e praias são muito procurados por aves limícolas – Foto: Zé Edu Camargo

Avistar Brasil 2016 vai revelar espécie reencontrada após décadas desaparecida

Observadores em ação: Avistar 2016 está cheio de novidades – Foto: Zé Edu Camargo

“Acima de tudo, tudo bem”. Esse mantra poderia se aplicar de modo perfeito a Guto Carvalho, organizador do Avistar Brasil, maior evento de observação de aves do país. Ele é um aglutinador – de ideias, de pessoas, de iniciativas. Por isso o Avistar Brasil colhe um sucesso após o outro, ano após ano. Em 2016 (atenção: começa na sexta-feira e vai até domingo – entre 20 e 22 de maio) o evento ocupa mais uma vez o Instituto Butantan, em uma parceria muito feliz. A programação está recheada. Uma das palestras deve chamar todas as atenções: pesquisadores irão revelar qual é a espécie brasileira desaparecida há décadas e recentemente encontrada. Mas ninguém melhor do que o próprio Guto para apontar o que há de melhor na programação do Avistar:

Blog:  Será o segundo ano do evento no Instituto Butantan. Quais as principais novidades no Avistar Brasil 2016?

Guto Carvalho: O Instituto Butantan tem uma forte tradição na prática de Ciência Cidadã que vem desde o século passado, com o trabalho pioneiro de Vital Brasil com as serpentes envolvendo a população. Mais recentemente a criação do Observatório de Aves potencializou em muito essa prática. Isso vai ao encontro dos objetivos do Avistar, de promover o conhecimento e conservação das aves brasileiras. A programação de 2016 reforça essa tendência e aprofunda caminhos que já vínhamos trilhando. Destacamos os cinco ciclos temáticos de palestras que complementam o Congresso Avistar, abordando temos como Cuidados em Campo, Arte Natureza e Tecnologia, Birdwatching e Unidades de Conservação, entre outros.

Blog:  Uma característica do Avistar é ir além da observação de aves, unindo ciência, turismo e cultura em um grande caldeirão. Dá para adiantar alguma surpresa?

Guto Carvalho: Bem, temos uma grande surpresa a revelar: a redescoberta de uma espécie desaparecida há décadas, extremamente ameaçada e os esforços para sua conservação. Além disso teremos o fascinante relato sobre a expedição à Serra da Mocidade, por Mario Cohn Haft.

Teremos exposições fotográficas incríveis, como a Floresta Viva de Luciano Candisani e uma inédita feira de trocas de sementes e mudas. Além disso os participantes serão convidados a participar de um concurso fotográfico sobre a biodiversidade do Butantan, com ótimos prêmios.

Os destaques continuam no lançamento de livros e sessões de autógrafos, com Terra Papagalli de Eduardo Brettas e LF Silveira, Tucanos e Araçaris de Fredy Pallinger e o livro de Cristian Dimitrius: Brasil Selvagem, só para ficar em alguns exemplos.

Blog: A presença internacional é outra constante do evento. O que esperar dos gringos nesta edição?

Guto Carvalho: Temos a honra de contar com presença de John Fitzpatrick, diretor do renomado Laboratório de Ornitoogia da Universidade de Cornell, um dos maiores centros de estudo das interações entre ornitologia e birdwatching. Além disso uma série de palestrantes da América Latina falando sobre a diversidade de aves de nossa região e também Catherine Hamilton. uma das mais importantes artistas naturalistas que estará de volta ao Avistar

Blog: O Instituto Butantan é um dos pontos mais procurados por famílias no fim de semana. Que atividades as crianças encontrarão?

Guto Carvalho: O ninho de joão-de-barro é um grande destaque, a garotada pode participar da construção do “ninho gigante” e meter a mão no barro. Além disso teremos oficinas, arte e histórias do Palmito Jussara.

Para ver a programação completa acesse http://avistarbrasil.com.br/

Época de migração

Fêmea de azulinho no Ibirapuera – Foto: Zé Edu Camargo

A frente fria na virada de abril para maio pegou muita gente de calça curta – literalmente. No sul, no sudeste, no centro-oeste e até no sul da Amazônia o frio chegou chegando a bordo de uma nova frente, destronando o calorão. Com a mudança, já se percebe um movimento migratório de aves que começaram a se deslocar em busca de novas paragens – com mais alimento ou com um clima mais ameno. Assim, algumas espécies fazem aparições inesperadas em locais onde não são vistas com frequência. “ A diminuição na duração dos dias e a queda da temperatura com a chegada do outono são o sinal que muitas espécies de aves utilizam para iniciar suas jornadas migratórias rumo ao norte. Um detalhe não muito conhecido é que, diferente dos rapinantes e outras aves de maior porte, muitos passeriformes migram principalmente a noite, descansando e se “reabastecendo” durante o dia em pontos de parada ao longo da rota. Se um sabiá-ferreiro está migrando do Rio Grande do Sul para o leste da Amazônia e com o raiar do dia está sobrevoando a cidade de São Paulo ele irá descer em alguma área mais arborizada e passar um ou poucos dias ali, “caindo na estrada” de novo com o cair da noite. Ontem mesmo um sabiá-ferreiro passou o dia forrageando em frente a minha janela no Instituto Butantan e hoje de manhã nem sinal dele, que deve estar agora em algum lugar no oeste de Minas Gerais ou sul de Goiás. Isso é muito mais que legal, isso é incrível!”, diz Luciano Lima, ornitólogo do Observatório de Aves – Instituto Butantan.

Cigarra-bambu, outra espécie de passagem pelo parque - Foto: Zé Edu Camargo
Cigarra-bambu, outra espécie de passagem pelo parque – Foto: Zé Edu Camargo

No último fim de semana de abril, Luciano e o ornitólogo Marco Silva conduziram mais de 50 observadores durante o #vempassarinhar, uma atividade que ocorre uma vez por mês na mata do Instituto Butantan, em São Paulo, mas que agora passa a se revezar com outros parque públicos da capital paulista, numa parceria do Butantan com o Depave (Departamento de Parques e Áreas Verdes) e a ONG SAVE Brasil. Desta vez, o escolhido foi o Parque do Ibirapuera, na Zona Sul. Entre as aves residentes (como o mergulhão-caçador e o socozinho), os observadores puderam encontrar espécies que estão só de passagem, como uma fêmea de azulinho (Cyanoloxia glaucocaerulea). Segundo Luciano Lima “o azulinho é uma das muitas espécies de aves brasileiras que fazem movimentos migratórios e cuja as rotas e a área de invernada são praticamente desconhecidos. Nos Estados Unidos, registros enviados por observadores para a plataforma eBird estão ajudando a desvendar muitos mistérios sobre migração de aves. No Brasil, além do eBird, temos o WikiAves, uma fonte valiosíssima de informações que é prontamente acessível  e que está revolucionando nosso conhecimento sobre a avifauna brasileira. Nesse momento, por exemplo, estamos trabalhando em um artigo sobre movimento migratório do urutau, utilizando basicamente informações presentes no WikiAves”.

Garça-branca-pequena – Foto: Zé Edu Camargo

Entender melhor como se dá essa migração é um fator essencial para a conservação. E os observadores podem dar uma ajuda valiosa aos pesquisadores, simplesmente registrando as aves que viram em plataformas como o eBird ou táxeus – ou mesmo submetendo fotos e sons ao WikiAves. Colabore também!

Sul fluminense ganha importante área de conservação

Japacanins, aves comuns em brejos – Foto: Luciano Lima

O estado do Rio de Janeiro acaba de compor uma nova área de proteção ambiental. E não uma área qualquer: a Lagoa da Turfeira, um dos últimos remanescentes de áreas úmidas no sul do estado e importantíssima região para a conservação de aves residentes e migratórias. O novo Refúgio da Vida Silvestre da Lagoa da Turfeira fica em Resende, às margens do rio Paraíba do Sul. Trata-se de um exemplo de como poder público e iniciativa privada podem agir em conjunto para o bem comum. Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual, Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e a montadora Nissan (que tem presença na área) e outros órgãos estaduais e locais selaram o acordo que permitiu a criação da reserva. Mas isso não ocorreu sem luta. O ornitólogo Luciano Lima, de Resende, foi figura fundamental no alerta sobre os riscos que a lagoa sofria. Estudos dele e do colega Bruno Rennó demonstraram a elevada importância para a biodiversidade e a presença de aves ameaçadas na área. Luciano também foi um dos primeiros a levantar a questão que levou ao termo de ajustamento de conduta entre a Nissan e os agentes públicos – e que agora leva à ação prática de criação e manutenção do refúgio de vida silvestre.

Tricolinos, saracuras e mais de 170 outras espécies de aves agora têm assegurado o direito de viver e procriar em 269 hectares que incluem trechos de Mata Atlântica. Mas não só as aves serão beneficiadas: diversas espécies de mamíferos (como a jaguatirica) e de répteis (como os jacarés-de-papo-amarelo) também ocupam a região. No entanto, uma espécie sai ganhando mais que as outras: a Homo sapiens. E suas novas gerações vão comprovar isso.

Tricolino, espécie associada a juncais e taboais – Foto: Luciano Lima
Saracura-do-banhado, espécie arredia e difícil de visualizar – Foto: Luciano Lima
Lagoa da Turfeira, nova área de conservação no RJ – Foto: Luciano Lima

Pesquisadores de programa de conservação das antas fotografam ave muito rara da Mata Atlântica

Jacu-estalo da Mata Atlântica capixaba (a subespécie Neomorphus geoffroyi dulcis ) – Foto: Projeto Pró-Tapir

O jacu-estalo é uma lenda viva. Ave muito arredia, vive em trechos densos de mata e dificilmente se deixa notar. Mas quando se fala do jacu-estalo da Mata Atlântica capixaba (a subespécie Neomorphus geoffroyi dulcis ) a associação mais correta é com um pequeno fantasma. Seus registros são raríssimos – e devem ser comemorados, pois provam o bom estado de conservação da floresta. No final do ano passado, um desses encontros com o jacu-estalo aconteceu em Linhares, no norte do Espírito Santo. O fantasminha foi registrado por uma armadilha fotográfica do projeto Pró-Tapir, que trabalha com o estudo e proteção das antas em algumas unidades de conservação locais. Acompanhe agora uma entrevista com a pesquisadora Andressa Gatti sobre esse encontro e o belo projeto desenvolvido pelo Pró-Tapir:

Blog: Qual a sensação de registrar uma espécie tão rara e arredia como o jacu-estalo na Mata Atlântica? Como foi feita esta foto?

Andressa Gatti: É uma sensação indescritível, uma mistura de felicidade, espanto, orgulho e surpresa! Saber que a Mata Atlântica ainda pode abrigar uma espécie tão rara e ameaçada, nos faz acreditar que há esperança e nos torna mais responsáveis por gritar a todos que é preciso parar de agredir nossas matas e todas as espécies que vivem nelas. Ter estado algumas vezes no mesmo local onde o enigmático jacu-estalo foi registrado, é de arrepiar! E mais. Saber que nosso trabalho de conservação com o maior mamífero terrestre brasileiro – a anta – pode ajudar a proteger tantas outras espécies, nos dá ainda mais a certeza que estamos no caminho certo e que realmente vale a pena trabalhar para a conservação das espécies!

E como foi que tivemos a sorte de registrar essa raridade? Nós iniciamos um novo monitoramento com armadilhas fotográficas, no grande bloco florestal Linhares/Sooretama, em janeiro de 2015. Nosso principal objetivo é reunir informações sobre a ecologia da anta, Tapirus terrestris, e de outros mamíferos também ameaçados de extinção, como o queixada (Tayassu pecari) e o cateto (Pecari tajacu). Nossa felicidade é que com esses modernos equipamentos, temos registrado tantas outras espécies da mastofauna e avifauna.

Só fomos entender a verdadeira preciosidade que tínhamos em mãos, quando nossos amigos Gustavo Magnago e Letícia Belgi Bissoli identificaram a espécie para nós. Há um tempo eles nos tinham questionado se não havíamos feito algum registro do jacu-estalo anteriormente. E, finalmente, quando menos esperávamos, lá estava ele! Uma ave que motivou e motiva tantos apaixonados pela ornitologia e observação de aves. E posso dizer que ela motiva também todos nós que trabalhamos pela proteção da nossa biodiversidade.

Anta (Tapirus terrestris) Foto: Gustavo Magnago

Blog: O Projeto Pró-tapir tem como objetivo a conservação das antas em reservas do Espírito Santo. Quais são as condições que a espécie encontra hoje no estado? Quais são os desafios?

Andressa Gatti: A espécie está em perigo de extinção em nosso Estado. Atualmente existem apenas sete áreas naturais protegidas no norte do estado do Espírito Santo onde ainda há a presença da anta. O Pró-Tapir atua em seis dessas áreas. Quatro dessas unidades de conservação estão localizadas nos municípios de Linhares e Sooretama, a Reserva Biológica de Sooretama (RBS), a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Recanto das Antas, a RPPN Mutum-Preto e a Fazenda Cupido & Refúgio (FCR), que em conjunto podem permitir a sobrevivência da espécie, em longo prazo. Contudo, nesses locais ainda ocorrem muitas ameaças que podem resultar no desaparecimento das antas.

O complexo florestal situado em Linhares/Sooretama, uma das três áreas que ainda podem manter populações viáveis da espécie, ainda apresenta muitas ameaças que podem aumentar o risco de extinção das populações locais, além de outras características da região: (1) caça frequente, inclusive na Reserva Biológica de Sooretama; (2) atropelamentos, principalmente na BR-101 que divide a Reserva Biológica de Sooretama; (3) presença de conflitos entre a população humana e as antas, devido à perda econômica que, geralmente, causam aos agricultores; (4) a paisagem da região é única, heterogênea, onde se encontram quatro áreas protegidas inseridas em um mosaico de diferentes agriculturas e configuração espacial.

Um cenário preocupante também ocorre nas Reservas Biológicas Córrego do Veado e Córrego Grande, localizadas no município de Pinheiros e Pedro Canário, respectivamente. Nestas áreas, ainda há a presença da anta, mas a sobrevivência das populações é incerta em longo prazo, uma vez que estão reduzidas e também isoladas.

O “Pró-Tapir: Monitoramento e Proteção das antas da Mata Atlântica Capixaba” propõe a elaboração de um conjunto específico de recomendações para a conservação da anta e das florestas, bem como promover a manutenção das populações desta espécie no Espírito Santo, por meio de pesquisas científicas. O programa possui uma abordagem multidisciplinar sustentada por quatro linhas temáticas gerais: Ecologia, Genética, Saúde Ambiental e Sensibilização/Difusão Científica.

Blog: Como observadores e outros cidadãos podem contribuir com a conservação nesta região tão importante para a Mata Atlântica como um todo? 

Andressa Gatti: Primeiro é preciso que todos saibam da existência dessa região tão importante e que ela é responsável pela manutenção de diversas populações de espécies da fauna e flora da Mata Atlântica capixaba.

Como as áreas onde o Pró-Tapir atua estão próximos a rodovias e estradas, e como a anta e outros animais podem percorrer grandes distâncias, é necessário que os cidadãos respeitem a velocidade nas rodovias, evitando assim que mais indivíduos sejam mortos por atropelamentos. No ano de 2014 e do início de 2015 perdemos três indivíduos de anta, sendo que um deles, uma fêmea, estava prenhe. O risco é altíssimo não só para antas, mas também para tantas outras espécies que habitam aquela região, e obviamente, para os condutores, que podem colocar suas vidas em risco com o impacto do atropelamento de um animal tão grande.

Outra ameaça, a caça, ainda é uma atividade comum na região, mesmo sendo ilegal. O mais crítico é que a caça é uma atividade focada no comércio ilegal de carne, o que torna a atividade algo muito lucrativo para quem caça. É importante que as pessoas parem de comprar carne de caça e que a caça seja erradicada, mas ainda temos uma longa caminhada para que isso, de fato, acabe. Práticas como o desmatamento e queimadas também devem ser evitadas, pois destroem o habitat, ou seja, o espaço onde a espécie vive e se desenvolve.

Difundir essas informações entre todos é o ponto central da história. O principal meio de ajudar na conservação das espécies é fazer a população entender que seus atos podem afetar a sobrevivência dessas espécies direta ou indiretamente. Nós pesquisadores e cientistas não vamos mudar o mundo sozinhos. Precisamos do apoio de pessoas engajadas na proteção da biodiversidade. Então, todos podem ajudar, divulgando e convencendo seus amigos da importância da fauna e flora, apoiando os projetos de conservação, difundindo informações entre pesquisadores de diferentes áreas de atuação. Existem várias formas de contribuir, mas a principal é de se conscientizar que com pequenos atos, como respeitar as leis, ou diminuir a velocidade nas rodovias próximas a áreas protegidas, já faz uma grande diferença.

E sabe o que é mais fascinante? A busca pelo maior mamífero terrestre brasileiro tem nos revelado histórias fantásticas sobre outras espécies que ainda pouco conhecemos. A anta, uma amiga de peso, ajudando na conservação de espécies raras e pequenas como a do jacu-estalo e, ele, por sua vez, só nos mostra o quanto a biodiversidade está conectada!

Dez dicas para começar a observar aves

Saíra-militar, ou saíra-de-lenço, espécie da Mata Atlântica – Foto: Zé Edu Camargo

Bom, se você já pensou um dia praticar o birdwatching e não sabia por onde começar, seus problemas (ou suas desculpas…) acabaram. Aqui está um pequeno guia sobre esta atividade divertida, inclusiva e que pode ser praticada por todas as idades. Vamos lá?

1) Comece por perto – Você vive em um dos melhores países para a observação de aves no mundo. O Brasil tem quase 2 mil espécies, das 10 mil conhecidas pela ciência. Então, aproveite isso. Na verdade, é mais do que provável que você consiga identificar um punhado de aves sem sair da cama, logo ao acordar. Quem nunca escutou um bem-te-vi, um sabiá-laranjeira ou um bando de periquitos no início da manhã? Eles estão em todo lugar. Se você sair de casa e caminhar para a praça ou o parque mais próximo, o número de espécies que você pode identificar pode chegar a algumas dezenas.

2) Faça listas –  Anotar em um caderninho (ou no seu celular) as espécies que você viu e identificou é o primeiro passo. De certo modo, todo observador é um colecionador de figurinhas – e os álbuns você mesmo cria. Pode ser o álbum Aves Que Vi na Vida, o álbum Aves do Parque X ou o álbum Aves do Mês de Setembro. Os guias de campo, livros com ilustrações, fotos e informações sobre as espécies, são uma boa leitura para acelerar o seu processo de aprendizagem. Nos últimos tempos vários (e ótimos) guias de campo têm sido publicados no Brasil. Alguns abrangem toda a nossa avifauna, outros são específicos para biomas (Mata Atlântica, Cerrado) ou de alguns lugares (Guia das Aves do Rio de Janeiro, Guia das Aves do Planalto Central, Guia das Aves do Parque do Ibirapuera…). Essas publicações também ajudam muito na hora de fazer uma lista.

3) Use a internet – No computador da sua casa ou em seu celular há uma infinidade de sites e aplicativos com informações sobre as aves. Mas, para atalhar caminho, recomendamos que você dê uma olhadinha no www.wikiaves.com.br. É um site colaborativo e gratuito que permite às pessoas compartilhar fotos e sons de aves brasileiras. Observadores mais experientes auxiliam os mais novos na identificação. E cada espécie tem uma página, com fotos, sons, características, comportamento, hábitat. Você pode também procurar a lista de aves que ocorrem na sua cidade e ordenar essa lista pelo número de registros. Começar a diferenciar as 30 ou 50 mais comuns é um ótimo primeiro passo. Depois vocês vai querer descobrir seus lifers, palavrinha que indica as aves que você ainda não viu. Veja no fim do post outros links úteis para quem está começando.

4) Não tenha vergonha de perguntar – Algumas espécies são muito parecidas, mesmo aos olhares mais atentos. “Ele era pequeno, amarelinho, com as asas marrons e o bico preto” é uma descrição que serviria para diversas espécies da nossa fauna. Então buscar ajuda de observadores mais experientes é fundamental. Se você não conhecer nenhum, sem problema. Há diversas comunidades no Facebook (além do próprio wikiaves) em que você pode procurar ajuda para identificar uma aves através de uma foto, um som gravado ou mesmo uma descrição.

5) Compre um binóculo – As aves nem sempre permitem uma aproximação suficiente para que você consiga diferenciar detalhes. Um binóculo, uma luneta ou mesmo uma câmera com zoom podem resolver esse problema. A escolha é sua e você não precisa gastar rios de dinheiro. Há binóculos de todos os preços e formatos. Vale a pena testar e escolher um que caiba no seu orçamento.

6) Acorde cedo – Não é lenda, a atividade das aves é mais intensa logo nas primeiras horas da manhã, principalmente em um país tropical como o nosso. O fim da tarde também costuma ser muito produtivo. Mas, é claro, essa regra não se aplica a todas as espécies e todos os lugares, é só uma noção geral. Em algum momento da sua história como observador você vai querer sair à noite para ver as corujas e os bacuraus, por exemplo. Mas isso já é outra história.

7) Chame os amigos – Um dos aspectos mais bacanas da observação de aves é que ela se torna mais divertida quando feita em grupo – a não ser que você seja um ermitão de carteirinha. Há muitas famílias que passarinham, às vezes com três gerações na mesma trilha.  Turmas de amigos também são comuns. Na sua cidade, no seu bairro, é bem possível que você encontre outros observadores. Às vezes eles se reúnem em clubes. Procure – ou faça –  a sua turma.

8) Volte ao mesmo lugar – Há aves que escolhem um lugar para viver e ficam por perto a vida toda. Outras estão sempre de passagem, pois param apenas um tempo (às vezes alguns meses, às vezes somente algumas horas) em meio à migração. Por causa disso, vale a pena voltar em diferentes épocas do ano a um mesmo lugar, pois sempre há surpresas.

9) Fique longe de ninhos – Sim, você pode observá-los, mas a uma distância segura. Nada de pegar uma escada para ver os ovinhos ou filhotinhos de perto. Mexer, então, nem pensar. E nem tocar o playback (reprodução do canto de uma ave, usado para atraí-la) nas proximidades. As aves são muito sensíveis quando estão nesta situação, e você pode acabar produzindo órfãos, mesmo sem querer.

10) Compartilhe a informação – Um dos aspectos mais incríveis da observação de aves é que você pode se divertir e contribuir com a ciência ao mesmo tempo. Compartilhe suas listas em sites como ebird.org ou taxeus.com.br e ajude a formar os mapas de ocorrência das espécies – isso vai dar uma baita mão aos pesquisadores de todo o mundo.

Águia-pescadora, espécie migratória – Foto: Zé Edu Camargo

Alguns links úteis:

www.wikiaves.com.br – site sobre identificação de aves brasileiras, como fotos e sons de nossas espécies, fórus de discussão e diversas páginas com informações úteis.

www.ebird.org – página do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell com um banco de dados colaborativo sobre as aves de todo o mundo. O site acaba de ganhar uma versão em português: http://ebird.org/content/brasil/

www.xeno-canto.org – uma base de dados com sons de aves de todo o mundo.

www.taxeus.com.br – site colaborativo para registros de aves, mamíferos e anfíbios do Brasil.

http://virtude-ag.com/ – site sobre observação de fauna e fotografia, com informações úteis, roteiros, notícias e artigos.

http://bonitobirdwatching.blogspot.com.br/ – blog da bióloga Tietta Pivatto, com muita informação sobre as nossas aves e o turismo de observação.

www.avistarbrasil.com.br – site da série de eventos Avistar, que ocorre em várias cidades brasileiras durante o ano, reunindo milhares de observadores, destinos de observação e empresas do setor.

http://revistapassarinhando.com.br/ – a primeira revista eletrônica sobre observação de aves no Brasil, pode ser lida no PC, em tablets e nos smartphones.

 

Livro primoroso reúne todos os papagaios, araras e periquitos do Brasil

“Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra”.

O trecho aí em cima vem da carta de Pero Vaz de Caminha, primeiro documento escrito sobre o Brasil, que já trazia algumas menções aos papagaios e periquitos. E, ao longo de nossa história, do Zé Carioca ao filme Rio, eles sempre estiveram associados à nossa imagem. Mas, apesar desta presença marcante, não eram abundantes os estudos e fontes de informação sobre as quase 100 espécies de psitacídeos que ocorrem em território nacional. Um parêntese: psitacídeo é uma palavra estranha mas de uso comum entre os biólogos para indicar papagaios e periquitos, em uma referência à família Psittacidae, que inclui nossos papagaios, periquitos, maitacas, araras, tiribas e maracanãs. Agora, o livro (mas o mais adequado seria dizer livrão, pela sua importância) Terra Papagalli vem cobrir com maestria muitas lacunas no nosso conhecimento destas aves. Obra de referência, mas que tem no visual e no cuidado gráfico um elemento fundamental, a obra traz as ilustrações do artista Eduardo Brettas (veja no final do post) em perfeita sintonia com o texto do pesquisador Luis Fabio Silveira, curador da coleção de ornitologia do Museu de Zoologia da USP. Um livro para apreciar como obra de arte e consultar como obra de referência. O lançamento ocorre no dia 9 de dezembro em São Paulo. Mais informações no book trailer:

Ilustração de Eduardo Brettas para o livro Terra Papagalli

Outubro é o mês de Big Day Brasil. Você já está preparado?

Gavião-caramujeiro – Foto: Zé Edu Camargo

Observadores de aves de todo o país estão se organizando para o grande dia. Birders do Chuí ao Caburaí irão a campo durante as 24h do dia 10 de outubro com o objetivo de identificar o maior número de espécies de aves possível. Uma iniciativa conjunta de Save Brasil, Observatório de Aves do Instituto Butantan, The Cornell Lab of Ornithology e Avistar Brasil, o Big Day é um grande acontecimento. Os organizadores têm o objetivo de mapear 1700 espécies (das quase 2 mil já registradas por aqui), através de listas submetidas em sites como o eBird (ebird.org) ou Táxeus (taxeus.com.br).

Você também pode participar. Chame seus amigos e faça uma passarinhada no dia 10 de outubro, depois submeta a lista de aves observadas no dia num destes sites até o dia 15 de outubro. Não sabe como preparar/submeter sua lista? Uma página no eBird explica tudinho tim-tim por tim-tim, basta clicar aqui: http://bit.ly/1gu8T0O. E para saber mais sobre o Big Day você pode acessar a página do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/666791770088188/. Participe!

Um tour de observação de aves pelo Peru

Quetzal-de-cabeça-dourada (Pharomachros auriceps) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Nossos vizinhos estão com tudo. O Peru vem se firmando no mapa mundial de birding graças a uma conjunção especial de fatores. Na geografia é um país diverso, da costa com pouquíssima chuva à selva amazônica, passando pelos Andes. Isso se reflete na grande variedade de aves (mais de 1800 espécies registradas). São muitas áreas de conservação (as reservas protegidas ocupam mais de 12% da área total do país). E o Peru tem se esforçado para atrair observadores, criando infraestrutura e promovendo a atividade no exterior. Os brasileiros já descobriram esses roteiros. O fotógrafo e guia de birdwatching Adrian Eisen Rupp tem organizado bem-sucedidas incursões pelo país. Aí embaixo um pequeno bate-bola com ele.

Blog: Quando se fala em Peru, todos associam com os Andes e o Pacífico. Quais outras regiões o país tem para a prática de observação de aves?

Adrian: Existem muitas opções em praticamente todo o país, e além da famosa península de Paracas e a região andina, temos as Yungas a leste da Cordilheira dos Andes que cortam o país de norte a sul, e a Amazônia. Cada vez que falamos em qualquer um destes biomas vale lembrar que existem as áreas de endemismo, e assim vários destinos em um mesmo bioma, mas sempre tendo aves diferentes para observar.

Blog: Quais as diferenças entre a Amazônia peruana e a brasileira?

Adrian: Com exceção da Amazônia pré-andina, não há diferença. A avifauna encontrada na bacia do Rio Madre de Díos remete a avifauna encontrada ao longo da Bacia do Rio Madeira no Brasil, temos ainda o Rio Purus que nasce no Peru e adentra o estado do Acre no Brasil, e a avifauna da bacia do Rio Amazonas corresponde a região biogeográfica do oeste do estado do Amazonas no Brasil. O diferencial fica pela infraestrutura turística para conhecer estas regiões no Peru, que é muito superior as correspondentes no lado brasileiro.

Blog: Quais são os principais objetivos de uma viagem de birding à região?

Adrian: Os destinos preferidos são os que oferecem roteiros de observação que mesclam os Andes, as Yungas e a Amazônia, tanto do norte do Peru quanto no sul. Uma viagem destas permite a observação de muitas espécies em poucos dias de viagem, e em trajetos relativamente curtos.

Blog: E a infraestrutura do país, como está? O que um observador pode esperar?

Adrian: O Peru é um país privilegiado por ter Machu Picchu, o que motivou investimentos no setor turístico que vão desde uma ampla rede de hotéis e eco-lodges até a formação acadêmica dos profissionais do ramo. Todo esse profissionalismo envolvido com o turismo arqueológico influenciou na qualidade do serviço oferecido no turismo de natureza. A maioria dos lodges tem alimentadores para aves, as trilhas são limpas, o café da manhã é servido bem cedo, muitos lodges amazônicos possuem torres para observação de aves e, mesmo nas áreas mais remotas do país, você encontra uma ótima infraestrutura a preços acessíveis.

O guia está organizando grupos para viagens ao Peru em julho e outras datas do segundo semestre. Mais informações pelo email birding@adrianrupp.com ou pelo site www.adrianrupp.com.
Socó-boi-escuro (Tigrisoma fasciatum) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Sanhaçu-de-coleira-dourada (Iridosornis jelskii) – Foto: Adrian Eisen Rupp
Sanhaçu-de-cabeça-preta (Buthraupis montana) – Foto: Adrian Eisen Rupp