saíra-apunhalada

Por uma área de proteção para a saíra-apunhalada

Saíra-apunhalada – Foto: Gustavo Magnago

Já falamos dela aqui no blog. Mas, nos últimos três anos, pouca coisa mudou no que se refere à proteção de uma de nossas espécies mais ameaçadas: a Neimosia rourei, ou saíra-apunhalada. O governo do Espírito Santo deve receber em breve uma nova proposta para conservação da área onde a pequena população dessa ave tão rara e tão bonita vive. Veja quais são as perspectivas para a proteção da saíra nesta entrevista com o biólogo Edson Ribeiro Luiz, especialista em aves, ecólogo e coordenador de projetos da SAVE Brasil.

 Blog: Em quais condições se encontra hoje a pequena população de saíra-apunhalada no Brasil? Quais são os riscos que ela corre?

 Edson Ribeiro Luiz: A estimativa é de que sua população seja menor do que 250 indivíduos.

A principal ameaça atual a saíra-apunhalada são loteamentos rurais que estão sendo cada vez mais implantados na região serrana do Espírito Santo. Parte da floresta onde a espécie habita tem sido destruída para implantação desses lotes e o desmatamento mesmo que pontual ainda ocorre na região.

 Blog: O que falta para a criação de uma área de conservação para a saíra-apunhalada no Espírito Santo?

Edson Ribeiro Luiz: A criação de uma unidade de conservação na região passa logicamente por uma decisão política.

Já houve momentos que esteve perto de acontecer e depois retrocedeu. Tecnicamente dentro dos órgãos estaduais está se finalizando uma nova proposta para ser encaminhada ao governador.

É imperativo, no entanto, que a sociedade reconheça a importância dessa iniciativa, não só por conta da saíra, mas de todo o patrimônio biológico e de recursos hídricos que poderão se tornar legalmente protegidos.

O governo vem fazendo através de oficinas com as comunidades do entorno um diagnóstico socioambiental para que a proposta técnica seja a mais adequada possível para a proteção da floresta e ao mesmo tempo manutenção das populações envolvidas.

Blog: Como o cidadão comum pode ajudar na conservação da saíra-apunhalada?

Edson Ribeiro Luiz: A questão da saíra bem como todos os problemas ambientais do país precisam ter eco nas comunidades locais e na sociedade como todo.

Para que os governantes tomem iniciativas que protejam nossa biodiversidade, é preciso que eles sejam convencidos de que isso também é uma prioridade para os brasileiros. Uns dizem que é utópico acreditar nisso, mas eu penso que é sim factível.

Quanto ao cidadão comum que já foi tocado pela necessidade de fazer algo pela a saíra, existe uma infinidade de ações vinculada as particularidades de cada um. Exemplo: um morador da cidade de Vitória no Espirito Santo pode participar de mobilizações e pedidos para que o parlamentar que a representa, apoie a criação de uma unidade de conservação na região. Um morador da Mata de Caetés onde vira a saíra, pode se esforçar para que não se faça desmatamentos que poderiam ser evitados. Uma professora do distrito de Castelinho, na cidade de Vargem Alta (onde a espécie também ocorre) pode falar sobre a saíra para seus alunos. As formas de engajamento comunitário são diversas e todo cidadão pode contribuir.

Fotos espetaculares de uma espécie rara e (muito) ameaçada

Foto: Ciro Albano - NE Brazil Birding

Um bom guia de birdwatching precisa ter várias habilidades. O primeiro, claro, é um vasto conhecimento sobre as aves, seu comportamento e hábitat. Também precisa ter uma audição apurada (mais até que a visão). Mas não basta ouvir. Tem de identificar o canto e, rapidamente, ligá-lo à ave certa dentro de seu banco de dados mental. E isso não é para qualquer um. Por fim, o bom guia tem de ser um cara de bem com a vida. Porque ele lida com o bicho mais difícil da natureza: o homem (e a mulher, claro), com suas ansiedades, humores e preferências.

No Brasil, temos alguns super-guias, que se esforçam para mostrar a observadores do mundo todo as aves brasileiras. Algumas vezes, eles têm de se superar. Afinal, há birdwatchers que, quando retornam ao Brasil, já têm no currículo 6 mil ou 7 mil aves em sua life list. Ou seja, estão aqui atrás de espécies muito, muito raras.

O cearense Ciro Albano nasceu em uma família de fotógrafos. Mas a paixão pelas aves o fez transcender o sentido da visão. O DNA fez com que ele seja, sim, um fotógrafo excepcional. Mas ele também é um guia requisitado pelos mais exigentes birdwatchers de todo o mundo, além de manter a atividade de ornitólogo. Assim, está acostumado a encontrar espécies raras. Mas este ano uma surpresa o aguardava: a oportunidade de fotografar uma ave MUITO fora do comum. Primeiro porque tem uma área de distribuição pra lá de restrita e está muito ameaçada pela perda de hábitat. Segundo porque é uma das mais belas aves que temos, com um nome comum poético e sugestivo: a saíra-apunhalada (Nemosia rourei). Ela tem esse nome por causa da mancha vermelho-sangue no pescoço e peito, contrastando com a plumagem branca do ventre. Vive nas matas de uma (hoje) pequena área de floresta na região serrana do Espírito Santo. E é dificílima de ser observada. Fazer uma foto dela de perto, então, era coisa de outro mundo. Era. Contando com a ajuda e a companhia de outro super-guia, Gustavo Magnago, especializado nas espécies capixabas, Ciro teve o privilégio de registrar a saíra de pertinho. Um feito extraordinário. Então nada melhor do que deixar que ele próprio narre a experiência:

“Um casal de observadores/fotógrafos de aves da Inglaterra (Andy e Gil Swash), que já havia feito duas viagens comigo pelo Nordeste, entrou em contato para planejar uma terceira viagem. Eles deixaram que eu propusesse um roteiro. Assim como eu, eles também têm uma predileção por aves raras, daí resolvi montar uma tour que cobrisse o máximo de lifers pra eles – e incluísse espécies bem raras que eles ainda não haviam visto. A saíra era um dos grandes sonhos. Então convidei o amigo Gustavo Magnago (especialista nas aves do Espírito Santo) pra nos acompanhar. O Gustavo é o cara que mais registrou a saíra nesses últimos anos. Mas, só pra se ter noção da raridade do bicho fazia doze viagens que ele não avistava a espécie (cada viagem com três dias de busca em média). Então para evitar frustração deixamos bem claro que era muto difícil de encontrar a ave. E acho que dá para imaginar o quanto ficamos felizes e surpresos quando aquela voz aguda respondeu lá do alto da mata…

Chegamos cedo na floresta e seguimos na estrada onde os bichos haviam sido vistos pela última vez. A estratégia era tocar o playback de vez em quando e seguir observando/fotografando outras espécies mais comuns. Depois de aproximadamente uma hora e meia de passarinhada, estávamos tentando fotografar o piolhinho-verdoso (Phyllomyias virescens) que era lifer fotográfico pra mim. Mas sempre tocando as saíras de tempos em tempos. Numa dessas escutamos um piado agudo lá na copa. Com um frio na barriga imediato olhei para o Gustavo, que estava como os olhos arregalados – eu (tentando não acreditar) pensei: deve ser em andorinhão (Chaetura) – que tem um chamado parecido. E o Gustavo responde: “continua tocando”. Quando vimos aquela algazarra na copa a adrenalina explodiu! Havíamos reencontrado as saíras-apunhaladas! Estávamos do lado de uma clareira com um barranco alto e uma árvore isolada e baixa. Subimos o barranco e soltamos o playback. Para surpresa e alegria de todos os bichos vieram na nossa cara, ao nível do olho. Era tão inacreditável que eu não sabia se fotografava ou contemplava aquelas criaturas tão raras de tão perto. Sabemos da raridade dos bichos e tentamos conseguir as imagens o mais rápido que pudemos. Foram pouco minutos, mas correu tanta adrenalina que, depois que passou, fiquei cansado de tanta emoção. Foi sem dúvida um dos momentos mais importantes nas nossas vidas de observadores/fotógrafos (e, no meu caso, ornitólogo também) e com certeza inesquecível pra todos nós.
A esperança agora é que as imagens sirvam pra sensibilizar as autoridades/proprietários e sociedade civil a evitar a extinção de uma das aves mais bonitas e raras desse planeta!”

O recado no final do relato é importante e necessário. Como a área em que vive a saíra-apunhalada é muito pequena, é preciso um esforço de todos para a conservação. Saiba mais sobre isso no site da Save Brasil. Para conhecer melhor a saíra-apunhalada, visite a página da BirdLife International.

Foto: Gustavo Magnago

 

Foto: Gustavo Magnago
Foto: Ciro Albano - NE Brazil Birding
A equipe em ação com as fotos da saíra-apunhalada