Month: May 2014

Todas as aves de Passaredo, de Chico Buarque

Você já ouviu essa música – e nem precisa ser apaixonado por aves. Desde que foi lançada por Chico, no disco Meus Caros Amigos, em 1976, Passaredo toca constantemente na rádio, além de servir de trilha sonora sempre que as aves brasileiras são tema de reportagens na televisão (além de fazer parte de algumas gerações da série O Sítio do Pica-Pau Amarelo). Parceria de Chico Buarque com Francis Hime, ela surgiu como um hino de resistência à ditadura. O refrão “bico calado, toma cuidado, que o homem vem aí” tinha um duplo sentido claro. Vamos à letra:

Ei, pintassilgo
Oi, pintarroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tiê-sangue
Xô, tiê-fogo
Xô, rouxinol, sem-fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te esconde colibri
Voa, macuco
Voa, viúva
Utiariti
Bico calado
Toma cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí

Ei, quero-quero
Oi, tico-tico
Anum, pardal, chapim
Xô, cotovia
Xô, ave-fria
Xô, pescador-martim
Some, rolinha
Anda, andorinha
Te esconde, bem-te-vi
Voa, bicudo
Voa, sanhaço
Vai, juriti
Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí

No vídeo que acompanha este post, o próprio Chico explica rapidamente como fez a letra. Ele sugere uma despreocupação com a escolha das aves, apesar de ter contado com a ajuda de Tom Jobim (um apaixonado pela nossa avifauna) e de ornitólogos. Mas a escolha não parece ser tão aleatória assim. A maioria das espécies listadas na letra é canora, e só há um gavião (e de origem um pouco polêmica, o utiariti). Não é preciso ser um gênio para ver a óbvia correlação com a situação da época: cantor, toma cuidado, que a repressão (o homem) vem aí.

Curioso é, com o passar do tempo, que a outra dimensão da letra continue tão e cada vez mais atual. Embora a caça tenha diminuído (graças a leis e à melhora na educação ambiental), o homem continua vindo aí para desmatar, para poluir, para ocupar. Nestes quase quarenta anos, algumas espécies foram vistas pela última vez em liberdade, muito provavelmente para nunca mais.

Bom, mas vamos ao que interessa. Aí embaixo você encontra uma pequena descrição da origem de cada ave da letra. Este não é um trabalho científico, mas sim um esforço de curioso. Imprecisões, portanto, são mais que prováveis. E correções, dicas e opiniões, muito bem-vindas. Até porque os nomes comuns, ou populares, são coisa mais fluida e escorregadia para pesquisadores do que cocô de passarinho. Porque mudam daqui para ali, de um tempo para outro. De todo modo, foi uma brincadeira interessante.

Para os observadores, vale a ideia de tentar montar uma life list das aves encontradas na letra. Algumas estão em qualquer quintal, como o bem-te-vi e o sanhaço. Outras exigem muito mais experiência e esforço, como o macuco e o tuju. Sem contar as europeias (que não são poucas na letra).

Por fim, gostaria de agradecer às pessoas que trabalharam em conjunto (ou ajudaram com informações) para que a brincadeira fosse completa: Luccas Longo, Guto Carvalho, Victor Jardim, Fábio Paschoal, Fernando Straube, José Fernando Pacheco e Luis Fabio Silveira. Queria também agradecer ao incrível site wikiaves.com.br (valeu, Reinaldo Guedes!). Vamos às aves de Passaredo:

Pintassilgo (Sporagra magellanica): Ave comum em quintais e matas secundárias no sul e sudeste do Brasil.Tem o corpo amarelo e a cabeça preta. Não confundir com o pintassilgo-europeu (Carduelis carduelis), espécie introduzida nas Américas.

Pintarroxo: Nome comum em português de várias aves da família Fringillidae, nenhuma delas com ocorrência no Brasil. É possível que, por associação, em algumas regiões brasileiras seja usado esse nome para designar uma ave local.

Melro: Designação em português para uma ave do velho continente, Turdus merula, do mesmo gênero dos nossos sabiás (toda preta, lembra muito o sabiá-una da Mata Atlântica). No Brasil também é nome popular de diversas espécies, de modo especial a graúna (Gnorimopsar chopi).

Uirapuru: Nome comum de diversas aves por todo o Brasil, muitas delas entre as mais bonitas da nossa avifauna, como o uirapuru-laranja. No entanto, o uirapuru-verdadeiro (Cyphorhinus arada) parece ter inspirado a maioria das lendas em torno desse nome. Ave amazônica, tem um canto belo e característico.

Chega-e-vira: Um dos muitos nomes comuns da marreca irerê (Dendrocygna viduata), comum inclusive nos lagos urbanos de muitas cidades brasileiras. Ocorre também em outros países americanos e na África ocidental.

Engole-vento: Nome não muito comum para designar diversas espécies de bacuraus, ou curiangos. São aves noturnas por excelência, encontradas em todo o Brasil. O termo “engole-vento” pode derivar do hábito de apanhar insetos em voo, com a boca aberta.

Saíra: Indica diversas aves da família Thraupidae, algumas muito ameaçadas, como a rara e bela saíra-apunhalada (Nemosia rourei), hoje restrita a uma pequena área do Espírito Santo.

Inhambu: Nome comum de várias aves da família Tinamidae, a maioria encontrada em ambientes florestais. Duas delas deram origem ao nome da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó: o inhambu-chintã (Crypturellus tataupa) e o inhambu-chororó (Crypturellus parvirostris).

Asa-branca: A canção Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, faz referência a uma pomba, ou pombão (Patagioenas picazuro), muito comum em diversas partes do Brasil. Mas asa-branca também é o nome comum de uma marreca (Dendrocygna autumnalis) encontrada em todo o território nacional.

PatativaSporophila plumbea, espécie da família Thraupidae de vasta distribuição no Brasil e América do Sul. Conhecida pelo canto melodioso, é capaz de imitar outras aves. Uma de suas subespécies não ocorre no país (é restrita ao norte da Colômbia).

Tordo: Uma designação comum para aves do gênero Turdus, a mesma dos sabiás. O tordo-comum é uma ave europeia. No entanto, diversas espécies desse gênero ocorrem no Brasil, como o sabiá-laranjeira.

TujuLurocalis semitorquatus, ave noturna da mesma família dos bacuraus, a Caprimulgidae. Ocorre do México até a Argentina.

Tuim: Menor representante da família Psittacidae (dos periquitos e papagaios) no país, o tuim (Forpus xanthopterygius) é muito comum em boa parte do Brasil. Existem cinco subespécies conhecidas.

Tiê-sangue: Espécie endêmica do Brasil, Ramphocelus bresilius, chega a ser comum em trechos da Mata Atlântica litorâneaO macho tem uma coloração vermelha intensa, que dá nome à espécie. A plumagem da fêmea é mais discreta.

Tiê-fogo: Outro nome comum do tiê-sangue.

Rouxinol: Ave do Velho Mundo de canto melodioso, por associação emprestou o nome a uma espécie amazônica, o rouxinol-do-rio-negro (Icterus chrysocephalus). Em algumas regiões do Nordeste a corruíra (Troglodytes musculus) também é chamada de rouxinol.

Sem-fim: Um dos muitos nomes populares do saci (Tapera naevia), também conhecida como matita-perê, matinta-pereira e outros inúmeros nomes. Deu nome a um dos mais belos discos de Tom Jobim (e é citada na letra de Águas de Março, além de dar nome a uma das músicas do álbum).

ColeiroSporophila caerulescens, coleiro ou coleirinho (nome comum mais conhecido), é um dos papa-capins mais abundantes do Brasil, principalmente no Sul e Sudeste. Recebe esse nome pela “coleira” branca na garganta.

Trigueiro: Provavelmente refere-se ao Trigueirão (Emberiza calandra), espécie com distribuição na Europa, norte da África e Europa.

Colibri: Sinônimo de beija-flor, nome de diversas espécies da família Trochilidae. São aves encontradas apenas no continente americano.

MacucoTinamus solitarius, espécie florestal que povoa a Mata Atlântica. Espécie sempre visada por caçadores, também corre riscos em função do desmatamento.

Viúva: Provavelmente faz referência à viuvinha (Colonia colonus), um tiranídeo comum de áreas abertas em boa parte do Brasil. É inconfundível, pelas penas longas da cauda e pela mancha branca no alto da cabeça. Mas também pode indicar a saíra-viúva (Pipraeidea melanonota).

Utiariti: Além de nome de lugar (perto de Juruena, MT), utiariti também se refere aos sacerdotes (médicos) da tribo indígena Pareci. É uma elevada atribuição na hierarquia dessa etnia. Quanto à ave, encontra-se uma preciosa menção na obra de Roquette Pinto denominada “Rondônia”, publicada no volume 20 dos Archivos do Museu Nacional (a citação está na página 198): “A denominação que estes indios dão aos seus medicos-sacerdotes, por extensão, serve também para baptizar um pequeno gavião (Falco sparverius), que é totem da tribu. Na expedição de 1909, chegando ao rio, viram os exploradores sobre uma arvore, ao lado do salto, um pequeno representante da espécie. Para a collecção destinada ao Museu Nacional, foi alvejada a avesinha; mas antes que o tiro partisse o indio Tôlôírí Mathias, influente chefe, e guia da columna pediu fosse poupado o utiarití, protestando que, si o matassem, não poderiam ser felizes, nunca mais, porque delle provinham os Parecís. A avesinha não morreu. Rondon, em homenagem a crença dos seus auxiliares, deu aquelle nome ao salto do rio Papagaio. E foi feliz…”. O uitariti, portanto, é o quiriquiri, um rapinante de pequeno porte comum em boa parte do Brasil (colaboração de Fernando Straube).

Quero-quero: Chico Buarque é um conhecido apaixonado pelo futebol. E já deve ter fugido de muito quero-quero (Vanellus chilensis) nos campos do Brasil onde bate suas peladas: a ave gosta de fazer o ninho em gramados ou áreas abertas de vegetação baixa.

Tico-tico: Comum em todo o Brasil, só não é encontrado em áreas densamente florestadas da Amazônia. O tico-tico (Zonotrichia capensis) também pode se visto em países da América Latina – há mais de duas dezenas de subespécies. Espécie muito comum mesmo em ambientes urbanos.

Anum: O anu-preto (Crotophaga ani) ou anum é uma ave que pode ser vista com facilidade em áreas abertas, plantações e brejos, da Flórida à Argentina. Muitas vezes reúne-se em bandos numerosos.

PardalPasser domesticus, ave introduzida no Brasil, ocupa hoje quase todo o território nacional. Também espalhou-se por todo o mundo, graças ao grande poder de adaptação. É muito comum em ambientes urbanos.

Chapim: O nome refere-se diretamente a duas aves da família Paridae comuns na Europa, o chapim-azul e o chapim-real. No Brasil, o canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) também é conhecido como canário-chapim ou canário-chapinha – possivelmente é a ele que Chico se refere na letra.

Cotovia: Nome que indica aves do Velho Mundo, da família Alaudidae (com apenas um representante na América do Norte). A cotovia-comum (Alauda arvensis), a mais conhecida delas, é considerada espécie nacional da Dinamarca.

Ave-friaVanellus vanellus, espécie da família Charadriidae (a mesma família do nosso quero-quero), também conhecida como abibe-comum. É típica do Hemisfério Norte.

Pescador-martim: Martim-pescador, nome que indica cinco espécies da família Alcedinidae no Brasil. Encontradas sempre à beira-d’água, alimentam-se de peixes, crustáceos e insetos. O nome deriva da estratégia de caça dessas aves.

Rolinha: Nome usado para designar diversas espécies da família Columbidae (a mesma das pombas e juritis), geralmente as de menor porte. Talvez a mais conhecida seja a rolinha-roxa, ou caldo-de-feijão (Columbina tapalcoti), encontrada em ambientes urbanos de todo o Brasil.

Andorinha: Também é um nome genérico associado á família Hirundinidae, com mais de uma dezenas de espécies que ocorrem no Brasil, como a andorinha-pequena-de-casa (Pygochelidon cyanoleuca) e a andorinha-serradora (Stelgidopteryx ruficollis).

Bem-te-viPitangus sulphuratus. O bem-te-vi é inconfundível pelo canto, do qual deriva seu nome (em outros países também tem o nome onomatopeico associado ao canto, como kiskadee, em inglês). Ave onipresente nas cidades de todo o país.

Bicudo: Ameaçado, o bicudo (Sporophila maximiliani) foi caçado à exaustão para servir de ave de gaiola, graças ao seu canto melodioso. O desmatamento do cerrado e os agrotóxicos também são ameaças á sobrevivência da espécie.

Sanhaço: O nome sanhaçu (ou sanhaço) é usado para designar diversas espécies das famílias Thraupidae e Cardinalidae. Um dos mais conhecidos é o sanhaçu-cinzento, comum no Sul, Sudeste e Nordeste.

Juriti: Nome associado a quatro espécies de médio porte da família Columbidae (a mesma das rolinhas). As mais comuns são a juriti-pupu (Leptotila verreauxi) e a juriti-gemedeira (Leptotila rufaxilla).

 

Avistar 2014 reúne apaixonados por aves no Parque Villa Lobos, em SP

 
Não é preciso chover no encharcado e dizer que o Avistar é o principal evento de observação de aves no país. Mas este ano você tem ainda mais razões para passar o fim de semana (de 16 a 18 de maio) no Parque Villa Lobos, em São Paulo. Guto Carvalho, organizador do Avistar, elencou cinco grandes atrações deste ano (entre as centenas de apresentações, workshops e exibições programadas):
– Apresentações sobre iniciativas de conservação de aves ameaçadas: Soldadinho-do-Araripe (CE), Arara-azul-de-Lear (BA), Periquito-de-cara-suja (CE).
– Palestra da fotógrafa Melissa Groo (http://melissagroo.com/), especializada em conservação.
– Avistar Kids, com lançamento de livros e oficinas para as crianças.
– Workshop de tratamento de imagens com os irmãos Mello para fotógrafos e amadores, no domingo às 10h.
– Varal digital – leve um pen drive com suas melhores imagens de aves e exponha para todo o público do Avistar.
 
A programação completa do evento e informações sobre os expositores está em http://www.avistarbrasil.com.br/index.php/18-avms/87-avistar2014. Até lá!