Month: May 2016

Quer observar aves e ajudar a Ciência? Sim, você pode!

Batuiruçu-de-axila-preta, ave limícola e migratória – Foto: Zé Edu Camargo

Todo observador de aves pode dar sua contribuição à ornitologia. Compartilhar uma foto, um som ou um registro de observação em uma plataforma online (como wikiaves, ebird, táxeus, xeno-canto tec) já é um bom passo. Esses registros ajudam os pesquisadores a definir melhor migrações e outros comportamentos, por exemplo. Algo que demandava um esforço enorme de pesquisa há alguns anos hoje está ao alcance de alguns cliques. O problema é que nem todo observador faz isso de maneira regular. Por isso surgem algumas iniciativas para estimular esse tipo de colaboração.

Durante o Avistar Brasil, a Save (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil) irá cadastrar observadores que se propõem a registrar aves limícolas (aquelas espécies identificadas com ambientes à beira-d’água, muitas delas migratórias, como maçaricos e batuíras). Quem passar pelo estande de número 26 pode fazer a inscrição e ganhar um kit de boas-vindas. Depois é só fazer a contagem sempre que possível e submeter ao site eBird (ebird.org/content/brasil). A ideia é ajudar os pesquisadores a definirem ações para a conservação de aves e dos ambientes onde elas ocorrem. O Avistar Brasil ocorre de 20 a 22 de maio (sexta a domingo) no Instituto Butantan, em São Paulo.

Ambientes como estuários de rios, represas, manguezais e praias são muito procurados por aves limícolas – Foto: Zé Edu Camargo

Avistar Brasil 2016 vai revelar espécie reencontrada após décadas desaparecida

Observadores em ação: Avistar 2016 está cheio de novidades – Foto: Zé Edu Camargo

“Acima de tudo, tudo bem”. Esse mantra poderia se aplicar de modo perfeito a Guto Carvalho, organizador do Avistar Brasil, maior evento de observação de aves do país. Ele é um aglutinador – de ideias, de pessoas, de iniciativas. Por isso o Avistar Brasil colhe um sucesso após o outro, ano após ano. Em 2016 (atenção: começa na sexta-feira e vai até domingo – entre 20 e 22 de maio) o evento ocupa mais uma vez o Instituto Butantan, em uma parceria muito feliz. A programação está recheada. Uma das palestras deve chamar todas as atenções: pesquisadores irão revelar qual é a espécie brasileira desaparecida há décadas e recentemente encontrada. Mas ninguém melhor do que o próprio Guto para apontar o que há de melhor na programação do Avistar:

Blog:  Será o segundo ano do evento no Instituto Butantan. Quais as principais novidades no Avistar Brasil 2016?

Guto Carvalho: O Instituto Butantan tem uma forte tradição na prática de Ciência Cidadã que vem desde o século passado, com o trabalho pioneiro de Vital Brasil com as serpentes envolvendo a população. Mais recentemente a criação do Observatório de Aves potencializou em muito essa prática. Isso vai ao encontro dos objetivos do Avistar, de promover o conhecimento e conservação das aves brasileiras. A programação de 2016 reforça essa tendência e aprofunda caminhos que já vínhamos trilhando. Destacamos os cinco ciclos temáticos de palestras que complementam o Congresso Avistar, abordando temos como Cuidados em Campo, Arte Natureza e Tecnologia, Birdwatching e Unidades de Conservação, entre outros.

Blog:  Uma característica do Avistar é ir além da observação de aves, unindo ciência, turismo e cultura em um grande caldeirão. Dá para adiantar alguma surpresa?

Guto Carvalho: Bem, temos uma grande surpresa a revelar: a redescoberta de uma espécie desaparecida há décadas, extremamente ameaçada e os esforços para sua conservação. Além disso teremos o fascinante relato sobre a expedição à Serra da Mocidade, por Mario Cohn Haft.

Teremos exposições fotográficas incríveis, como a Floresta Viva de Luciano Candisani e uma inédita feira de trocas de sementes e mudas. Além disso os participantes serão convidados a participar de um concurso fotográfico sobre a biodiversidade do Butantan, com ótimos prêmios.

Os destaques continuam no lançamento de livros e sessões de autógrafos, com Terra Papagalli de Eduardo Brettas e LF Silveira, Tucanos e Araçaris de Fredy Pallinger e o livro de Cristian Dimitrius: Brasil Selvagem, só para ficar em alguns exemplos.

Blog: A presença internacional é outra constante do evento. O que esperar dos gringos nesta edição?

Guto Carvalho: Temos a honra de contar com presença de John Fitzpatrick, diretor do renomado Laboratório de Ornitoogia da Universidade de Cornell, um dos maiores centros de estudo das interações entre ornitologia e birdwatching. Além disso uma série de palestrantes da América Latina falando sobre a diversidade de aves de nossa região e também Catherine Hamilton. uma das mais importantes artistas naturalistas que estará de volta ao Avistar

Blog: O Instituto Butantan é um dos pontos mais procurados por famílias no fim de semana. Que atividades as crianças encontrarão?

Guto Carvalho: O ninho de joão-de-barro é um grande destaque, a garotada pode participar da construção do “ninho gigante” e meter a mão no barro. Além disso teremos oficinas, arte e histórias do Palmito Jussara.

Para ver a programação completa acesse http://avistarbrasil.com.br/

Época de migração

Fêmea de azulinho no Ibirapuera – Foto: Zé Edu Camargo

A frente fria na virada de abril para maio pegou muita gente de calça curta – literalmente. No sul, no sudeste, no centro-oeste e até no sul da Amazônia o frio chegou chegando a bordo de uma nova frente, destronando o calorão. Com a mudança, já se percebe um movimento migratório de aves que começaram a se deslocar em busca de novas paragens – com mais alimento ou com um clima mais ameno. Assim, algumas espécies fazem aparições inesperadas em locais onde não são vistas com frequência. “ A diminuição na duração dos dias e a queda da temperatura com a chegada do outono são o sinal que muitas espécies de aves utilizam para iniciar suas jornadas migratórias rumo ao norte. Um detalhe não muito conhecido é que, diferente dos rapinantes e outras aves de maior porte, muitos passeriformes migram principalmente a noite, descansando e se “reabastecendo” durante o dia em pontos de parada ao longo da rota. Se um sabiá-ferreiro está migrando do Rio Grande do Sul para o leste da Amazônia e com o raiar do dia está sobrevoando a cidade de São Paulo ele irá descer em alguma área mais arborizada e passar um ou poucos dias ali, “caindo na estrada” de novo com o cair da noite. Ontem mesmo um sabiá-ferreiro passou o dia forrageando em frente a minha janela no Instituto Butantan e hoje de manhã nem sinal dele, que deve estar agora em algum lugar no oeste de Minas Gerais ou sul de Goiás. Isso é muito mais que legal, isso é incrível!”, diz Luciano Lima, ornitólogo do Observatório de Aves – Instituto Butantan.

Cigarra-bambu, outra espécie de passagem pelo parque - Foto: Zé Edu Camargo
Cigarra-bambu, outra espécie de passagem pelo parque – Foto: Zé Edu Camargo

No último fim de semana de abril, Luciano e o ornitólogo Marco Silva conduziram mais de 50 observadores durante o #vempassarinhar, uma atividade que ocorre uma vez por mês na mata do Instituto Butantan, em São Paulo, mas que agora passa a se revezar com outros parque públicos da capital paulista, numa parceria do Butantan com o Depave (Departamento de Parques e Áreas Verdes) e a ONG SAVE Brasil. Desta vez, o escolhido foi o Parque do Ibirapuera, na Zona Sul. Entre as aves residentes (como o mergulhão-caçador e o socozinho), os observadores puderam encontrar espécies que estão só de passagem, como uma fêmea de azulinho (Cyanoloxia glaucocaerulea). Segundo Luciano Lima “o azulinho é uma das muitas espécies de aves brasileiras que fazem movimentos migratórios e cuja as rotas e a área de invernada são praticamente desconhecidos. Nos Estados Unidos, registros enviados por observadores para a plataforma eBird estão ajudando a desvendar muitos mistérios sobre migração de aves. No Brasil, além do eBird, temos o WikiAves, uma fonte valiosíssima de informações que é prontamente acessível  e que está revolucionando nosso conhecimento sobre a avifauna brasileira. Nesse momento, por exemplo, estamos trabalhando em um artigo sobre movimento migratório do urutau, utilizando basicamente informações presentes no WikiAves”.

Garça-branca-pequena – Foto: Zé Edu Camargo

Entender melhor como se dá essa migração é um fator essencial para a conservação. E os observadores podem dar uma ajuda valiosa aos pesquisadores, simplesmente registrando as aves que viram em plataformas como o eBird ou táxeus – ou mesmo submetendo fotos e sons ao WikiAves. Colabore também!