Month: December 2016

Legado das Águas – a vida (selvagem) como ela é

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O Legado das Águas tem uma das mais extensas áreas de Mata Atlântica preservada do país

“Nunca achei que em São Paulo daria para encontrar a floresta assim, a perder de vista”. As palavras vinham de um observador de aves. Acostumado a viajar para confins da Amazônia e outras paragens inabitadas, ele demonstrava a surpresa de estar em um dos maiores trechos de Mata Atlântica preservada do país, a apenas 1h30 de viagem da capital paulista. O Legado das Águas, nome dado à reserva mantida pelo grupo Votorantim, tem 31 mil hectares, com muitos trechos de floresta intocada. Sua história está ligada à visão do empresário Antônio Ermírio de Moraes: há décadas ele decidiu deixar a mata em pé como maneira de assegurar água para mover as usinas hidrelétricas que fornecem energia à indústria. Com isso, ele ajudaria a manter também um retrato vivo da nossa biodiversidade. O Legado hoje abriga diversos projetos de pesquisa ligados à fauna e à flora da Mata Atlântica (e vale também conhecer o brilhante trabalho fotográfico que Luciano Candisani realiza na área). Mas nem só os pesquisadores irão poder desfrutar desse ambiente, segundo o projeto dos administradores. Aí entram os observadores de aves na história – a reserva deve ser aberta à visitação em 2017.

Estive entre os birders convidados para uma incursão experimental à área. Durante dois dias, nosso grupo explorou trilhas em meio à mata e andou pelas bem-conservadas estradas de serviço que ligam as usinas (todas elas cortando a floresta). Foram mais de 141 espécies observadas, muitas delas endêmicas da Mata Atlântica – com direito a figurinhas difíceis mesmo a observadores experimentados. Não é todo dia que você anda em uma trilha onde chegam a ser comuns aves como o não-pode-parar (Phylloscartes paulista), o zidedê (Terenura maculata) e a choquinha-pequena (Myrmotherula minor). E mesmo nas estradas, nas bordas da mata, podem ser encontradas espécies de fazer brilhar o olho, como o tropeiro-da-serra (Lipaugus lanioides) e o sabiá-cica (Triclaria malachitacea) – um sabiá que não é sabiá, pois se trata de um papagaio endêmico do Brasil. O nome vem da sua capacidade de emular o canto de um Turdus.

O Legado das Águas tem tudo para se transformar em poucos anos em um dos principais destinos de birdwatching do Brasil. O trabalho de levantamento de avifauna ainda está em curso no lugar, mas os pesquisadores já estimam em mais de 300 as espécies na área. Junte-se isso à segurança (o acesso é controlado e há seguranças percorrendo a área todo o tempo), à proximidade com São Paulo (e com os aeroportos de Congonhas, Guarulhos e Campinas), e à possibilidade de encontrar diversas aves endêmicas – está formado o quadro para atrair observadores brasileiros e dos quatro cantos do mundo. Como bônus, há a possibilidade de incluir outras áreas próximas em um roteiro de birding mais extenso – não à toa, o recorde brasileiro de aves observadas em 24h no Brasil foi batido este ano em um roteiro que começava no Legado e terminou na Ilha Comprida, no litoral paulista.

A estrutura para receber os observadores já está sendo planejada na reserva. Ela inclui hospedagem e guias especializados. Além disso, há o plano de inserir também a observação em um contexto mais amplo, de educação ambiental. Assim não só os observadores de hoje, mas os do futuro, terão o prazer de conhecer a Mata Atlântica e suas espécies maravilhosas.

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Observadores em ação em uma das estradas que cortam a reserva
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A visão da Mata Atlântica como ela devia ser há séculos emociona qualquer observador
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A floresta imponente estende-se por 31 mil hectares
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As trilhas são sinalizadas – e a preocupação com a conservação no lugar é evidente
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2017 vai voar

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São vários os fatores que apontam para um crescimento da observação de aves como atividade no país. Pouco a pouco surgem guias, destinos, hotéis com estrutura – e a cada dias mais gente posta listas, fotos e sons em plataformas como Wikiaves, E-bird ou Táxeus. Mas há um outro aspecto que leva à mesma ideia: a expansão dos eventos de observação por todo o país. O Avistar (principal evento do meio no Brasil) ganhou crias regionais. O #vempassarinhar, conceito que une observação de aves e ciência cidadã numa divertida passarinhada em grupo (e que nasceu no Observatório de Aves do Instituto Butantan) hoje se espalha em parques e áreas verdes de diversas cidades. E mesmo o conceito de Big Day pegou por aqui – no ano que vem vamos para a terceira edição do Big Day Brasil. Além disso, o tempo todo, observadores se unem para passarinhar, para trocar experiências, para criar atividades divertidas com as crianças.

Para tentar unir essas atividades (ou parte delas) em um único calendário, surge agora uma plataforma colaborativa online- uma iniciativa de várias entidades em conjunto. A ideia é simples: qualquer um pode cadastrar seu evento neste Link aqui. Assim os observadores podem se preparar e agendar a participação naqueles que consideram mais importantes ou interessantes. A plataforma foi lançada há poucos dias, mas já dá pra ver que 2017 promete. São dezenas de eventos programados. Que tal dar uma olhadinha e já ir se preparando para o ano novo?