Month: February 2017

Aves da cidade em uma pesquisa empolgante – e você pode ajudar!

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Bem-te-vi-rajado. Foto: Karlla Barbosa

Mesmo para quem vive numa grande cidade do Sul ou do Sudeste é fácil notar o vai-e-vem de aves migratórias ao longo ano. Muitas espécies invadem nossos parques e praças durante o verão – e virtualmente desaparecem no inverno. São aves que fazem a migração austral, fugindo para o norte quando o frio chega  com força. Karlla Barbosa, uma pesquisadora brasileira, tenta agora definir se há padrões nesta migração de algumas espécies, como a tesourinha (Tyrannus savana), o sabiá-poca (Turdus amaurochalinus) e (com mais foco) o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus). E ela usa alguns métodos criativos no projeto Aves da Cidade, como um boneco do bem-te-vi-rajado para atrair mais espécimes para a marcação, além de se basear também em dados coletados pelos observadores de aves – e você pode ajudar. Descubra os detalhes do projeto e como participar na entrevista com a dra. Karlla Barbosa abaixo.

Blog: Qual o objetivo principal do projeto? Como surgiu a ideia de trabalhar com a migração dos tiranídeos e sabiás, e por que focar no bem-te-vi-rajado?

O objetivo principal é estudar e entender se o comportamento reprodutivo e a ecologia das aves migratórias diferem entre áreas urbanas e rurais na Mata Atlântica brasileira, usando como referência espécies das famílias Tyrannidae (suiriri, tesourinha, bem-te-vi-rajado e peitica) e Turdidae (sabiás). A ideia de trabalhar com essas espécies surgiu porque sempre pensei que existe tanto foco nas espécies ameaçadas, mas esquecemos dessas espécies tão comuns que usam nossos parques urbanos e ainda se reproduzem neles. Além disso, essas espécies surgem e desaparecem em determinadas épocas do ano e as chamamos de migratórias; no entanto, não sabemos para onde elas vão quando somem e o que acontece quando elas voltam. Será que quando voltam de “férias” (tecnicamente chamado de período de invernada ou repouso reprodutivo) voltam para o mesmo local que consideram sua “casa”? As áreas urbanas são ambientes mais dinâmicos que as florestas em termos estruturais, então quando essas espécies voltarem podem encontrar um prédio no caminho, ou a árvore morta que era usada de ninho pode não estar mais lá, pois foi retirada por questões urbanísticas, etc.

O bem-te-vi-rajado, uma das espécies selecionadas para o estudo, é uma espécie comum (analises estatísticas pedem “n” suficientes e espécies comuns nos fornecem isso) e apesar disso não sabemos nada da sua rota migratória, território ou mesmo preferências de habitat. Me parece uma espécie muito boa como modelo para testar qual o nível máximo de urbanização suportável para aves migratórias, pois, além de tudo, usa ocos de árvores para fazer os ninhos e, portanto, precisa de árvores relativamente grandes para nidificar.

Através de dados do eBird é possível notar que o bem-te-vi-rajado desaparece em determinada época do ano de São Paulo, por exemplo. Esses são dados interessantes, pois são mais de 8.000 observadores ativos no eBird apenas em SP. Se nenhum observador registra a espécie em determinada época é porque, muito provavelmente, ela deva migrar, nesse caso talvez para o nordeste ou norte do país. Agora, para saber qual a rota migratória, e para onde eles realmente vão, eu pretendo colocar geolocalizador em alguns indivíduos capturados e que irão nos permitir saber por onde esses indivíduos de SP passaram as “férias”.

Blog: Quais são as principais questões que o projeto visa responder, diante do grande desconhecimento que temos hoje sobre as rotas migratórias dessas aves?
 
Cerca de um terço dos migrantes austrais (que migram dentro da América do Sul) são da família Tyrannidae, e o conhecimento sobre o movimento migratório dessa família no Brasil ainda é muito pequeno. Existem somente informações ainda incipientes e de apenas algumas espécies, como por exemplo para a tesourinha (Tyrannus savana) e o suiriri (T. melancholicus).
 Os principais objetivos do meu trabalho são: 1) identificar quais espécies de aves migratórias usam áreas urbanas, comparando sua abundância em áreas rurais e urbanas; 2) verificar se existe diferença entre as datas de chegada e partida das aves migratórias em área urbanas versus rurais; 3) comparar o sucesso reprodutivo de aves migratórias em áreas urbanas vs. áreas rurais; e 4) verificar se existe fidelidade aos sítios reprodutivos e conhecer as características dos territórios de áreas urbanas vs. áreas rurais.
Blog: O seu estudo inclui a Ciência Cidadã, com a participação dos observadores na geração de dados para o estudo. Quais são os meios para o público ajudar?

Nos EUA e em alguns países da Europa é muito comum encontrarmos projetos que envolvam a população na coleta de dados que geram ciência. No entanto, no Brasil ainda estamos aprendendo a lidar com essa ferramenta tão útil e importante que é a Ciência Cidadã. No meu caso preciso coletar informações de ninhos, mas percebi que se os observadores me contassem um pouco mais sobre os ninhos que encontram, isso me traria uma riqueza de dados enorme. Por conta da enorme biodiversidade do nosso pais e a alta demanda de bons pesquisadores, contarmos com a colaboração da população para a geração de informações importantes para a conservação das espécies é algo formidável. É como se multiplicássemos o poder de coletar dados.

No caso especifico do meu projeto, quando um observador encontra um ninho de uma das espécies Bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus), Peitica (Empidonomus varius), Sabiá-una (Turdus flavipes), Sabiá-poca (Turdus amaurochalinus), Tesourinha (Tyrannus savana), Suiriri (Tyrannus melancholicus), basta entrar no site https://avesdacidade.wordpress.com/, clicar em “encontrei um ninho” e preencher um formulário. Enriquece muito se a pessoa conseguir tirar uma foto, nem que seja só da árvore onde o ninho está, e me encaminhar por e-mail.

Blog: Uma característica curiosa do estudo é o uso de um boneco de bem-te-vi-rajado no processo de anilhamento. Como surgiu essa ideia e como ela funciona na prática?

Quando comecei a pensar em capturar indivíduos de bem-te-vi-rajado para anilhamento, muitos pesquisadores me falaram que seria muito difícil, pois eles habitam o estrato médio e o dossel da mata e, embora alguns desçam para estratos mais baixos após o playback, na maioria das vezes não descem o suficiente que permitam a sua captura em rede de sub-bosque. Eu comprovei isso logo na primeira tentativa! Então, mesmo aumentando a altura das redes, pensei que ainda poderíamos ter algo a mais para atrair os indivíduos, além do Ipod e caixinha de playback. Nesse momento tive a ideia de criar um fantoche que parecesse com o bem-te-vi-rajado e que pudesse ajudar na atração dos indivíduos. Nós então criamos o primeiro boneco, feito de biscuit e pintado com guache, colocado pousado sobre um galho. Durante as saídas de campo para captura, posicionamos o boneco sobre uma longa haste, e juntamente com os playbacks da vocalização da espécie, ele tem se mostrado muito eficiente na atração de indivíduos de bem-te-vi-rajado. Alguns indivíduos chegam a se aproximar, curiosos, e outros até fazem voos rasantes sobre o boneco. Tem sido um trabalho muito divertido, acima de tudo. E daqui uns anos espero ter dados suficientes para contribuir para o conhecimento dessa espécie tão bacana. Comum, mas ainda tão pouco conhecida.

 Acima de tudo esse projeto só tem sido possível graças a ajuda de amigos, estudantes e voluntários que vão para o campo ajudar. E também aos parceiros que estão colaborando com informações seja pelo site ou mesmo nos parques, como o DEPAVE3, o OA-IBu e o CRAS- PET.
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Instalação das redes de neblina. Foto: Karlla Barbosa

 

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Dra. Karlla e o pesquisador Marco Silva em campo. Foto: Albert Aguiar

 

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O bem-te-vi-rajado e o boneco usado para atraí-lo. Foto: Albert Aguiar

 

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Dra. Karlla (segunda à esquerda) e a equipe que trabalha no projeto. Foto: Karlla Barbosa