Month: January 2012

Itamambuca, um parque temático para observadores de aves

ita77
Os comedouros do resort estão sempre cheios.

 

Aos poucos, o mercado de turismo vem descobrindo o birdwatching. Há dez anos, contavam-se nos dedos os hotéis e pousadas que tinham alguma estrutura específica para a observação de aves. Hoje, por todo o país, já temos estabelecimentos que, se não são especializados, têm pelo menos algum tipo de apoio para a atividade – guias que conhecem as espécies locais, por exemplo.

Entre os pioneiros na atividade está o Itamambuca Eco Resort, em Ubatuba, no litoral paulista. Não que ele seja só voltado para o birdwatching. O público majoritário por lá ainda são as famílias com crianças, que querem aproveitar a praia e a estrutura de lazer. Mas, aos poucos, o hotel vem conseguindo um público apaixonado pelas aves da Mata Atlântica – inclusive estrangeiros.

Minha preocupação aqui é dar um panorama do que o observador pode encontrar por lá. O hotel é uma ótima opção para quem começa a mergulhar nesse mundo do birdwatching. O resort não fica exatamente na praia (é preciso atravessar pequeno rio Itamambuca para chegar até ela), mas tem a seu favor uma boa área verde, que margeia o rio. O contato com as aves começa nos comedouros instalados pelo hotel, sempre cheios de beija-flores e aves multicoloridas como a saíra-militar e a saíra-sete-cores. No site do hotel na internet há uma câmera ao vivo mostrando um dos comedouros.

Para quem está começando a fotografar aves, esses comedouros são uma boa opção – dá para testar todo o potencial do seu equipamento em um ambiente com muitas aves. Um deles tem até um blind (uma espécie de cortina camuflada, que esconde o observador/fotógrafo), que permite fotos sem assustar as aves. Mas o resort oferece mais do que isso. Há uma pequena trilha pela mata, onde podem ser encontradas espécies mais arredias, como o surucuá-variado. Ela chega até a margem do rio, onde sempre há martins-pescadores e outras aves aquáticas – inclusive o savacu-de-coroa. E o próprio curso d’água é uma atração. O resort promove um passeio de barco subindo o rio Itamambuca, numa chalupa bem estável, de onde dá para fotografar sem sustos. O guia Wandel está acostumado a levar birdwatchers, e sabe onde estão aves muito interessantes, como o pula-pula-ribeirinho e o garrinchão-de-bico-grande. Por fim, a praia, cercada por costões, também tem boa diversidade, com gaivotas e maçaricos.

Com sorte, inclusive, pode-se topar com aves muito, muito raras na própria mata do hotel. É o caso do apuim-de-costas-pretas (Touit melanonotus), uma espécie de periquito de ocorrência super restrita. A primeira foto do bicho na história foi feita no hotel. Para ser mais exato, dentro de um escritório – uma história deliciosa que você lê clicando aqui.

Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) – Foto Zé Edu Camargo
Pica-pau-de-cabeça-amarela (Celeus flavescens) – Foto Zé Edu Camargo
Saíra-militar (Tangara cyanocephala) – Foto Zé Edu Camargo
Casal de saí-verde (Chlorophanes spiza), ISO 1600, Abertura F8, Velocidade 1/100, Distância Focal 400mm, Foto Zé Edu Camargo
Casal de saí-verde (Chlorophanes spiza), ISO 1600, Abertura F8, Velocidade 1/100, Distância Focal 400mm, Foto Zé Edu Camargo
Garrinchão-de-bico-grande (Cantorchilus longirostris), ISO 1600, Velocidade 1/200, Abertura F8, Distância Focal 400mm. Foto Zé Edu Camargo
Garrinchão-de-bico-grande (Cantorchilus longirostris), ISO 1600, Velocidade 1/200, Abertura F8, Distância Focal 400mm. Foto Zé Edu Camargo

Voa, tabuiaiá

Maguari, joão-grande, jaburu-moleque, cauauá, socó-grande. E, no Pantanal, tabuiaiá. Muitos nomes populares para uma ave só, que pode ser encontrada em várias regiões do Brasil, embora seja mais comum no Sul e na planície pantaneira. Tabuiaiá também é o nome de uma música que fiz em parceria com o cantor e compositor Guilherme Rondon. Ela abre o disco Made in Pantanal. O CD foi todo gravado num estúdio montado na Fazenda Barra Mansa, às margens do Rio Negro, no Pantanal Sul. Um dos melhores lugares do Brasil para quem quer observar a fauna e a flora pantaneiras, a Barra Mansa já recebeu diversos fotógrafos da National Geographic, do Brasil e do exterior. Luciano Candisani é um dos que estão sempre por lá.

Tabuiaiá (a música) nasceu de um desafio proposto pelo Guilherme, durante uma roda de tereré na Barra Mansa, tempos atrás. O compositor Ivan Lins havia acabado de passar uns dias por ali, e deixado um belo texto no livro de visitas, falando de um fim de tarde de pescaria e de um tabuiaiá que acompanhara o barco dele o tempo todo. Guilherme tinha uma melodia e me perguntou se eu não queria fazer uma letra baseada na história. E nasceu Tabuiaiá, gravada agora por ele nesse belo disco – que, aliás, comemora os 40 anos de carreira de Guilherme. Reconhecido no Brasil e no exterior, ele já teve músicas gravadas por uma variada gama de cantores, de Nana Caymmi a Almir Sater. E, bem mais recente, pelo fenômeno Michel Teló. Mas não há nada como ouvir o próprio compositor interpretando a sua obra. Para isso, basta clicar aí embaixo e ouvir Tabuiaiá.


ComScore

E, para quem quer conhecer a ave, aí está um retrato do Tabuiaiá, feito pelo fotógrafo Julio Silveira:

Maguari (Ciconia maguari), Foto de Julio C. Silveira.

 

O que é um lifer?

Lifer, palavra que vem do inglês, serve para indicar uma ave que você observa pela primeira vez na vida. “O apuim-de-costas-pretas foi um lifer”, “O beija-flor-brilho-de-fogo seria um baita lifer” são frases que você pode ouvir nas conversas com outros birdwatchers. No Brasil, como a observação de aves está muito ligada à fotografia, a palavra lifer passou a ser usada também para designar a primeira vez na vida em que alguém fotografa uma ave. Isso, é claro, deturpa um pouco o conceito original. O excelente blog do fotógrafo Octávio Campos Salles trouxe uma discussão sobre este tema. Recomendo que você leia, além do post, também os comentários – há ali um debate de ótimo nível.

E você? Qual é o lifer dos seus sonhos?

 

Rabo-branco-acanelado (Phaethornis pretrei) -Foto Zé Edu Camargo