Month: September 2012

Uma ótima ideia no Paraná

 

A noivinha-branca é uma ave que pode ser encontrada em várias cidades do Paraná

Os observadores paranaenses terão na semana que começa (de 24 a 30 de setembro) um motivo nobre para ir a campo. Organizado pela Hori Consultoria em parceria com diversas entidades da área, o primeiro Inventário Participativo das Aves do Paraná pretende reunir o máximo possível de registros e informações sobre as aves do estado durante esse período. É um tipo de movimento muito comum nos EUA, que agora começa a ganhar forma também no Brasil. Para participar, basta ir a campo e seguir algumas regras, como postar as fotos no Wikiaves ou as listas de aves observadas no Táxeus. A iniciativa comemora os 100 anos da ornitologia paranaense. Para saber mais, é só entrar na página do evento no facebook.

As torres do Cristalino

Rio Cristalino. Foto Zé Edu Camargo.

Na Amazônia, torres de observação costumam ser imprescindíveis para o birding. A explicação é simples: boa parte das espécies passa a vida na copa das árvores. Assim, observá-las do chão é tarefa muito difícil – não raro, impossível. No Brasil, contam-se nos dedos as torres de observação em meio à selva. E duas delas estão em um só lugar, a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) do Rio Cristalino, em Mato Grosso, na divisa do Pará. Ali está um dos pontos de sonho para qualquer birder brasileiro (e mesmo gringo), o Cristalino Jungle Lodge. Há pouco mais de um ano, estive ali preparando uma reportagem para a revista Viagem (publicada em junho do ano passado), acompanhado do fotógrafo (e também birder) Marcos Amend. Passamos quatro dias em busca de imagens. Não só de aves: foram ariranhas, jacarés, lontras, porcos-do-mato, jiboias e um sem-número de insetos (como as mais coloridas e imensas borboletas que já vi). Subimos o rio Cristalino até o parque estadual, em busca de onças – que não deram o ar da graça. E fizemos até uma incursão noturna na selva.

Mas é nas torres do Cristalino que o bicho pega – literalmente. O guia Jorge, que nos acompanhou, tem olhos e ouvidos atentos, acionando o playback para atrair um sem-número de aves diferentes a todo instante. Graças a ele vivi um dos momentos mais divertidos durante uma saída até hoje. Jorge atraiu um bando misto que passava perto da torre. E bando misto, por ali, significa uma turma do barulho, com saíras, gaturamos e até beija-flores. Era tanto bicho que eu não sabia onde focar primeiro. E rendeu ótimas fotos.

Nas torres também podem ser encontradas aves mais raras. Com sorte, até uma ou outra nem descrita pela ciência. Não se pode esquecer que ali foi descoberta uma nova espécie de ave de rapina, o falcão-críptico (Micrastur mintoni) há apenas dez anos. Entre as figurinhas não muito fáceis que encontrei, o capitão-de-cinta e o anambé-azul renderam os momentos mais bacanas. E também a marianinha-de-cabeça-amarela, uma espécie de psicitacídeo muito interessante, e que permitiu uma boa aproximação.

Chegar ao Cristalino é bem fácil. O acesso por avião é feito até Alta Floresta, no Mato Grosso. Dali são duas horas de 4×4 e mais uma hora e meia de barco, atravessando o Teles Pires e subindo o próprio rio Cristalino. Ah, os mesmo donos têm um hotel em Alta Floresta, onde há um trecho pequeno de mata. Pois bem, ali um casal de harpias (ou gaviões-reais) resolveu nidificar, já faz alguns anos. E em 2012 estava com um filhote. Coisa de cinema.

Anambé-azul. Foto Zé Edu Camargo

 

 

Marianinha-de-cabeça-amarela. Foto Zé Edu Camargo

 

Gaturamo-do-norte. Foto Zé Edu Camargo

 

Araçari-de-pescoço-vermelho. Foto Zé Edu Camargo

 

Garça-real – Foto: Zé Edu Camargo

As aves de Jonathan Franzen no Brasil

Jonathan Franzen, autor de Como Ficar Sozinho. Foto: reprodução.

Ser capa da revista Time não é para qualquer um. Se o qualquer um for um escritor, mais difícil ainda. Jonathan Franzen mereceu a proeza, com uma chamada de responsa: O Grande Romancista Americano. Autor de Correções e Liberdade, estrela da última Flip (Festa Internacional Literária de Paraty), ele teve o livro de ensaios Como Ficar Sozinho lançado este ano no Brasil.

Bom, ok, beleza, e o que ele faz num blog destes? – você pode estar se perguntando. Franzen é um birder. Apaixonado. Dizem as boas línguas que a chance de passarinhar por aqui foi um forte motivo de convencimento para a vinda dele durante a Flip. Chance não desperdiçada. O escritor explorou a Mata Atlântica de Ubatuba na companhia de Dimitri Matozsko, birder e proprietário do Itamambuca Eco Resort. A pedido do blog, Dimitri mostra cinco aves que Franzen observou por lá (as fotos estão no fim do post). “O escritor é um baita cara legal – e também um sortudo. Conseguiu ver uns bichos difíceis, que não aparecem toda hora, como o chocão-carijó”, entrega o brasileiro.

Mas antes das aves de Franzen, vale uma palhinha sobre Como Ficar Sozinho. O livro reúne ensaios escritos em épocas diferentes, mas há uma unidade, um cerzido invisível entre eles. O tom confessional quase sempre está presente – e garante os trechos mais bacanas. Logo no primeiro texto, A dor não nos matará (na verdade, um discurso no Kenyon College de 2011) o escritor fala da descoberta do birding, e como isso alterou rumos em sua vida. Outros capítulos têm temas mais pesados, como o mal de Alzheimer e a indústria do cigarro. Ou o suicídio de um amigo, no ensaio Mais distante. Neste texto, aliás, o birding também está presente. E um trecho vale destaque (a tradução é de Oscar Pilagallo):

Quando busco novas espécies de pássaros, estou atrás sobretudo da autenticidade perdida, dos vestígios de um mundo devastado por seres humanos mas ainda lindamente indiferente a nós; vislumbrar um pássaro raro que de alguma maneira persiste em sua vida de procriar e se alimentar é um prolongado deleite transcedental. 

Quer mais? Compre o livro. Aí embaixo, algumas espécies que encantaram Franzen em Ubatuba. Tanto as fotos como os comentários nas legendas são de Dimitri Matozsko.

Chocão-carijó – Canta alto e forte, marca presença pela voz, mas conseguir observá-lo de perto é muito raro. Quando quis mostrá-la ao Jonathan fui na fé – e não é que a ave veio e ficou pertinho? Incrível. Um momento raro nestes muitos anos de mato.

 

Topetinho-verde – Quem não fica encantado com um minúsculo beija-flor tão repleto de detalhes que são quase impossíveis de ver a olho nu?

 

Cuspidor-de-máscara-preta – Discreta e simpática, essa ave só vive em matas fechadas, com pouca luminosidade.
Choquinha-cinzenta – Discreta e irrequieta, não para. Normalmente associada a outras espécies, não é comum de se encontrar. Três minutos após mostrar o chocão-carijó consegui deixar esta pequena avezinha a dois metros do Jonathan. Mais uma bela surpresa.