Month: June 2017

O maravilhoso mundo das armadilhas fotográficas

O nome é péssimo, eu sei. A palavra armadilha remete à caça, à captura de animais. Mas não é o caso aqui. Armadilha fotográfica é um artefato do bem. Também conhecida como trap camera em inglês, há muito tempo ela ajuda pesquisadores do mundo todo a estudar a fauna selvagem e a monitorar áreas de conservação. No lado da fotografia, grande profissionais têm usado complexos sistemas de câmera e iluminação com disparo remoto para registrar animais normalmente arredios à presença humana. O trabalho do fotógrafo Luciano Candisani na Mata Atlântica, por exemplo, já rendeu o registro de uma raríssima anta albina e de animais como a onça-parda (conheça um pouco do trabalho dele clicando aqui).

Os amadores entram em campo

Nos últimos anos, as trap cameras têm baixado de preço e se popularizado. Hoje já é possível encontrar algumas por menos de US$ 100 no exterior. Isso permitiu que muitos amadores passassem a registrar a fauna do seu sítio ou fazenda em diversos pontos do Brasil, além de tornar mais fácil a vida de pesquisadores (isso merecia um capítulo à parte, mas ainda hoje zoólogos usam caixas de areia para verificar a presença de animais através de pegadas, um método bem menos eficiente). O evento Avistar deste ano promoveu um concurso de vídeos produzidos com trap cameras e o resultado foi surpreendente (o concurso teve o apoio da Log Materiais). Entre as centenas de inscrições, 25 vídeos foram premiados, como o que flagrou uma onça-pintada com o filhote, ou o que trazia um tamanduá-bandeira tomando banho de ribeirão. Vale muito a pena dar uma olhada na playlist completa do Youtube clicando aqui (. E aí? Que tal colocar uma armadilha fotográfica na matinha do seu sítio?

 

Exposição no metrô de São Paulo mostra aves ameaçadas

Imagem do cartaz: Araponga – Vulnerável (Procnias nudicollis) Adriane Nassralla Kassis Iporanga/SP
Imagem do cartaz: Araponga – Vulnerável
(Procnias nudicollis)
Adriane Nassralla Kassis
Iporanga/SP

 

Até o fim do mês de Junho os passageiros do metrô de São Paulo irão encontrar na estação da Sé diversas fotos de aves brasileiras ameaçadas. A exposição, que será aberta neste sábado (10) traz imagens de dez fotógrafos, com algumas das mais icônicas espécies entre as 166 que ocorrem no Brasil e estão sob risco de extinção (no total, o Brasil tem cerca de 1900 espécies). Uma das que se encontram em estado crítico é o bicudinho-do-brejo-paulista, hoje restrito a pouquíssimos pontos na região do Vale do Paraíba, em São Paulo. Mas também há aves de outras regiões do país, como o cardeal-amarelo, no extremo sul do país, ou o soldadinho-do-araripe, restrito a uma pequena região serrana do Ceará. A exposição é uma realização da Save Brasil, ONG que se dedica à proteção da avifauna brasileira, da BirdLife International e do metrô de São Paulo. Os fotógrafos que cederam imagem para o projeto contribuem com o programa Amigos da Save – através de uma pequena contribuição anual, o programa organiza diversas saídas de observação e outros eventos para observadores (conheça mais sobre o programa clicando aqui). Abaixo você vê algumas imagens que estão na exposição.

Garça-da-mata – Vulnerável (Agamia agami) Claudia Brasileiro Martins
Garça-da-mata – Vulnerável
(Agamia agami)
Claudia Brasileiro Martins

 

Jacu-de-barriga-castanha - Vulneravél (Penelope ochrogaster) Silvia Linhares Poconé/MT
Jacu-de-barriga-castanha – Vulneravél
(Penelope ochrogaster)
Silvia Linhares
Poconé/MT

 

Bicudinho-do-brejo-paulista - Criticamente (Formicivora paludicola) - fêmea Elvis Japão Salesópolis/SP
Bicudinho-do-brejo-paulista – Criticamente
(Formicivora paludicola) – fêmea
Elvis Japão
Salesópolis/SP

Aves no escritório

Amanhecer na floresta Amazônica. Foto: Zé Edu Camargo
Amanhecer na floresta Amazônica. Foto: Zé Edu Camargo 

Aviso: artigo originalmente publicado no Linkedin, sobre as interações entre o birdwatching e a vida profissional.

Observação de aves. Aposto que você já imagina o que vou dizer ao ler estas palavras. É sobre diminuir o estresse interagindo com a natureza e aproveitando o ar puro da floresta, certo? Certo nada. Vou é contar sobre as habilidades que você pode desenvolver ou afiar na dura (mas também prazerosa) tarefa de observar bichos no ambiente natural. E como você pode usar estes skills para se tornar um profissional melhor. Claro, seu estresse também vai diminuir, mas este não é o foco.

Primeiro, algumas informações para quem ainda não é adepto. A observação de aves tem algumas peculiaridades. Para começar basta apenas um binóculo e muita disposição. No parque da sua cidade há dezenas de espécies diferentes (no mundo todo são cerca de 10 mil) e o barato é observá-las, identificá-las e fazer uma lista – que você pode compartilhar na internet, ajudando os cientistas no esforço de estudar migrações, por exemplo. Com o tempo, você começa a fazer uma life list, a lista das espécies que já viu. E então o desafio é ver outras espécies – aí o parque da cidade fica pequeno, você começa a fazer viagens curtas para parques nacionais ou áreas de conservação e, quando se dá conta, está no meio da Amazônia em busca de um beija-flor raro.

Voltando ao tema da interação entre birdwatching (ou birding, como gostam os americanos) e desenvolvimento pessoal, vamos dividir em tópicos, com cinco habilidades que você adquire na observação.

Do planeiamento à prática

Treino é treino, jogo é jogo, diz o jargão do futebol. No ambiente corporativo isso vale em boa medida. Quem nunca teve de adaptar vários pontos de um plano durante a execução? Quem nunca errou a mão em um cronograma? No birdwatching você aprende a trabalhar com a imprevisibilidade o tempo todo. Dá para visitar o mesmo lugar em dois dias seguidos e ter resultados completamente distintos nos dois. Ver aves diferentes e ter de adaptar seu tempo, seu ritmo e sua técnica às circunstâncias. Em um dia as aves estão ativas nas copas, expansivas e respondendo bem ao playback (a reprodução gravada da voz de uma espécie, usada para atraí-la). No outro você percebe que é inútil insistir na mata e o mais produtivo parece ir para a borda do brejo, onde a atividade está maior. O seu objetivo (ver o maior número de aves possível no tempo definido) não mudou. Mas o método para alcançá-lo é muito diferente.

Olha o passarinho

O diabo está nos detalhes. Nas linhas finas de um contrato. No item aparentemente inexpressivo de uma negociação. Ou nas poucas penas mais claras sobre o olho de uma ave de 10 centímetros de comprimento e poucos gramas de peso. Porque estas poucas penas podem indicar se aquela é a espécie X, muito comum em todo o Brasil, ou a espécie Y, migrante rara que todo observador gostaria de ver. E o seu olho treinado a prestar atenção a este detalhe não vai deixar passar aquele termo errado no e-mail para a matriz, pode ter certeza.

Tudo a seu tempo

Faster is better than perfect (rápido é melhor do que perfeito). Li isso no adesivo colado à baia de um colega, certa vez. Vamos com calma. Será mesmo? Claro, há tarefas urgentes – uma cirurgia de apêndice ou um relatório de vendas requisitado pela presidência (a diferença aqui é quem sentirá a dor de um erro…). Outras são igualmente importantes, mas podem dar lugar a outras ainda mais vitais se for o caso. Como escolher? Aprendendo a prever as consequências, é claro. Duas aves cantaram ao mesmo tempo, em lados distintos da trilha. Sei que uma é territorial, não sai dali e defende seu pedacinho de chão contra intrusos. A outra vaga pela floresta seguindo bandos mistos que passam, em busca do melhor lugar de caça. Qual vou tentar ver primeiro? A decisão óbvia seria ir atrás da ave passageira, que pode não estar mais ali em instantes. No entanto, a territorial é rara e muito tímida. A outra vai passar e ir embora rápido, mas trata-se de uma espécie comum que você já viu várias vezes. Ou seja: às vezes é preciso parar e pensar nas variáveis, antes de sair fazendo. Mas não esqueça do relatório de vendas, por favor.

Escute uma coisa

Se você precisa esperar o ano todo para sentar por duas horas em uma sala com seu chefe e receber um feedback que irá balizar seu comportamento, coitado de você. E não adianta colocar a culpa na empresa ou no seu chefe. Porque talvez você não esteja ouvindo direito. Ou esteja ouvindo, mas não prestando atenção. Na observação de aves, ouvir é tão importante quanto ver. Algumas aves emitem sons baixos, que se misturam a outras vozes da floresta. É preciso foco e atenção para distinguir o que você procura. Para complicar, o canto de uma ave varia conforme a situação (procurando um companheiro, avisando outras aves sobre um predador na área…). E você precisa comparar esse canto com seu “banco de dados” na memória para identificar a espécie e decidir se vale empenhar tempo e esforço para vê-la. Isso é um treino interessante. Pois lembre-se: identificar o tom de voz de um colega ou de um chefe, às vezes, vale mais que um feedback anual de duas horinhas..

Imagine all the people

Trabalhar em equipe é uma arte. Entre as aves, é comum a associação de espécies diferentes para encontrar alimento ou como defesa contra predadores. Mas, além da observação desse tipo de comportamento nos passarinhos, vale a pena prestar atenção no comportamento de um grupo de birders (ou observadores de aves). Passarinhar junto é muito mais eficiente. Um ouve melhor que outro – o outro sabe mais sobre espécies do que um. E os dois se ajudam, trocam experiências e se completam – para que a experiência comum seja a melhor possível. Se isso é possível no campo, porque não nos completamos no escritório?

E, por fim…

Um bom site que agrega observadores de todo o mundo é o ebird.org, mantido pela Universidade Cornell, dos Estados Unidos. No Brasil, o wikiaves.com.br é uma ótima plataforma para quem está começando. Você tira uma foto daquele passarinho que viu no quintal, posta no site e observadores mais experientes podem ajudá-lo na identificação da espécie. E no Facebook há várias comunidades que tratam do tema. Então? Bora passarinhar?