Month: August 2012

A ave mais bonita do Brasil

Crejoá (Cotinga maculata). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

«Beauty is truth, truth beauty,» —  that is all
Ye know on earth, and all ye need to know. 

“Beleza é a verdade, a verdade a beleza”- É tudo o que há para saber, e nada mais. Os versos de John Keats (em uma tradução de Augusto de Campos) me vieram à mente enquanto eu acompanhava a apresentação do pesquisador Fernando Straube, no último Avistar Talks, em São Paulo. O tema era “O Poder da Beleza”. Straube mostrava algumas características das aves que nos chamavam a atenção, como as cores e formatos. A ideia era despertar o público para a questão: “o que nos faz achar que uma ave é bela?”. A certa altura, ele mencionou uma enquete que havia feito com ornitólogos, observadores e fotógrafos que conheciam bem a avifauna brasileira. A pergunta era: “Quais são as cinco aves mais bonitas do Brasil?”. Assim, a seco, sem explicação. E os resultados foram surpreendentes.

Participaram da enquete 32 pessoas, de várias regiões do país e até do exterior. Straube computou os dados após receber as respostas. Uma delas veio em branco, com um recado curto e direto: “Não vou responder, pois essa enquete não faz sentido!”. Alguns disseram que só votaram nas aves que já haviam observado na natureza. Outros relacionaram as aves sem nenhuma explicação. Não era preciso colocar uma ordem de preferência entre as cinco votadas.

Computados os votos, uma primeira surpresa. Nada menos do que 127 espécies (das 1832 na lista brasileira do CBRO) receberam votos. Destas 99 receberam um único voto. Ou seja, a falta de convergência entre os votantes foi grande – mostrando a diversidade de opiniões quanto ao que é a beleza na avifauna. Por fim destacou-se uma ave que poderíamos chamar de vencedora: o crejoá (Cotinga maculata), espécie da Mata Atlântica que só tem registros recentes no sul da Bahia. Ela teve 10 votos. Na sequência, vieram o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), com 9 votos, o galo-da-serra (Rupicola rupicola), com 7 votos, e o pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa), com 5 votos. Daí para baixo havia alguns empates. “Deu para perceber que nem só características físicas da ave contaram na escolha, mas também a dificuldade de observação e até o status de conservação”, diz Fernando Straube.

De todo modo, fica uma conclusão. Estamos bem servidos quanto à beleza das nossas aves, já que nem mesmo os conhecedores conseguem escolher poucas espécies. Sorte de quem observa aves por aqui. Sorte de quem pode ainda ver o crejoá, o galo-da-serra, o soldadinho-do-araripe livres na natureza. E o título deste post é só uma provocação, claro. Tente eleger as suas cinco aves mais bonitas do Brasil, mesmo que isso não faça sentido. Beleza é a verdade.

Pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanii). Foto de Ciro Albano – NE Brazil Birding

Birding nos tepuis venezuelanos

Região dos tepuis. Foto de Thiago Laranjeiras.

Você já viu o filme Up, Altas Aventuras? Leu o livro O Mundo Perdido, romance de Arthur Conan Doyle? Já ouviu falar do Monte Roraima? Então você deve ter uma ideia do que sãos os tepuis. Essas formações rochosas, em forma de gigantescas mesas, são encontradas no norte do Brasil, na região da fronteira com a Venezuela e Guiana. As florestas e outras formações altas do lado venezuelano foram o destino de Marcelo Camacho e Thiago Laranjeiras em uma expedição recente, na qual foram feitos vários registros raros. Atendendo a um pedido meu, Marcelo escreveu um relato, que está aí embaixo.

Passarinhando nos tepuis  

por Marcelo Camacho

A convite do guia de birding Thiago Laranjeiras fui conhecer as aves dos tepuis, na estrada conhecida como La Escalera, na Venezuela. Trata-se de um trecho de uma rodovia que cruza o Parque Nacional Canaima. Chegamos à comunidade conhecida como Rápidos de Kamoiran, a 200 km da fronteira com Roraima, onde nos hospedamos, numa tarde no fim de julho.

Desde o princípio, martelava em minha cabeça a imagem do L. streptophorus (cricrió-de-cinta-vermelha), que o Thiago havia fotografado em sua viagem anterior. Após percorrermos os primeiros 30 km, paramos pela primeira vez – e avistamos uma ave na copa de uma árvore. De dentro do carro fiz a foto. Era ele! Primeira ave avistada e lá estava o bicho. Mas ele logo voou e deixou aquela sensação de situação mal resolvida. Eu queria vê-lo mais próximo. Foi só então que comecei a pensar em outras espécies, mas sempre com aquele incômodo de não saber se o veria novamente.

No dia seguinte, saímos às seis da manhã para 13 horas muito produtivas de observação. Avistamos quatro bandos mistos, com espécies como T. guttata (saíra-pintada), T. xanthogastra (saíra-de-barriga-amarela), T. gyrola (saíra-de-cabeça-castanha), T. chilensis (sete-cores-da-amazônia), M. oleagineus (pipira-olivácea) e T. argentea (saíra-de-cabeça-preta).

Durante boa parte de nossas andanças era frequente o canto do S. macconnelli (joão-escuro), mas registrá-lo se mostrava impraticável. Após dois dias de tentativa eu já estava convencido de que seria impossível fotografá-lo com o tempo que tínhamos. Num lance de pura sorte, eis que ele nos dá dois segundos de chance e eu consigo um registro meio de susto. Mais tarde descobri que são raríssimos os registros fotográficos dessa espécie. Não é pra menos.

Antes disso, ainda no primeiro dia, já com pouca luz, consegui um registro do S. phelpsi (taperuçu-dos-tepuis), que passava sobre nossas cabeças em alta velocidade. Nesse mesmo dia conseguimos outros registros como o do R. adusta (joão-de-roraima), H. roraimae (chorozinho-de-roraima) e T. personatus (surucuá-mascarado). O dia seguinte foi igualmente proveitoso. Encontramos alguns bandos mistos e outras aves isoladas. Destaco: P. nigrifrons (maria-de-testa-preta), C. demissa (joão-do-tepui), V. kirkii (pica-pau-de-sobre-vermelho), C. rubiginosus (pica-pau-oliváceo), H. sclateri (vite-vite-do-tepui), X. uniformis (dançarino-oliváceo), A. personatus (tico-tico-do-tepui), P. cornuta (dançador-de-crista) e B. bivittatus (pula-pula-de-duas-fitas).

Final de tarde na rodovia, terceiro dia de longas jornadas diárias, estávamos eu e Thiago apoiados no carro no acostamento. Nesse trecho a rodovia corta a floresta alta e já havia sombra em ambos os lados da estrada nas árvores da mata. Sem muita esperança o Thiago tocou o playback do cricrió-de-cinta-vermelha. No alto passaram dois pássaros. Mais uma vez o playback e eles desceram. Depois de algumas fotos a uns 10 metros, o macho pousa no único ponto da vegetação com sol em um tronco pendido baixo sobre o acostamento. A viagem estava mais do que ganha.

No quarto dia passarinhamos pela manhã e às 10h já estávamos a caminho do Brasil. Almoçamos em Santa Helena de Uairén e no meio da tarde chegamos a Boa Vista.

O contato do guia Thiago Laranjeiras, para quem quiser se aventurar nos tepuis, é thorsi.falco@gmail.com.

Cricrió-de-cinta-vermelha. Foto de Marcelo Camacho.

 

 

 

O mercado de turismo e a observação de aves

Apenas alguns anos atrás, era coisa de doido imaginar um mercado para o birding no Brasil. Atividade antiquíssima na Europa e na América do Norte, a observação de aves engatinhava por aqui. Contavam-se nos dedos os hotéis com alguma estrutura e os guias especializados. Apenas para comparação, dados de 2006 do U.S. Fish & Wildlife Service apontavam que o birdwatching gerava uma contribuição de US$ 36 bilhões à economia norte-americana. Aqui, no entanto, tudo parecia mal parado.

Mas apenas parecia. O birding avançou cinquenta anos nos últimos cinco. E as comprovações começam a aparecer. Com números, inclusive. Os primeiros resultados do Censo Brasileiro de Observação de Aves traz resultados surpreendentes. Promovido pela Avistur com o apoio de outras entidades, ele foi dividido em dois: um censo para birders e outro para hotéis/destinos. É neste último que estão as boas surpresas.

Quem esteve na feira Avistar este ano em São Paulo ou no Rio percebeu a grande presença de cidades turísticas divulgando seus locais de birding. O Censo vem confirmar o surgimento dessas estruturas específicas. Foram 500 respostas. Ou seja, 500 estabelecimentos que têm alguma relação com a atividade, um número excelente. Você pode conferir todos os resultados aqui, mas vamos destacar alguns pontos.

Dois terços dos estabelecimentos consultados já receberam observadores de aves. E 25% deles começaram na atividade nos dois últimos anos (2010 e 2011), um crescimento fantástico. Quase metade são pousadas, que associam o birding à hospedagem. E a maioria começou a receber birders depois de convidar pesquisadores/fotógrafos/guias para conhecer o local. Aqui vale um parêntese. Apesar desse número, nem só de ações isoladas vive a divulgação do birding. A Associação de Hotéis Roteiros de Charme organizou este ano entre seus associados uma iniciativa para promover a atividade – deve publicar em breve em seu site uma área só para o birding, com a lista de aves de cada hotel participante.

Conclusão, começamos a ter um mercado de turismo de observação de aves no Brasil. E ele cresce a taxas chinesas. Um turismo sustentável, que exige áreas conservadas – e gera recursos para a conservação. Nada melhor.